Autores falam sobre a adaptação da obra de Lewis Carroll, o processo criativo e a importância da literatura cordelista para formar novos leitores
Alice no País das Maravilhas, obra-prima do autor inglês Lewis Carroll, acaba de ganhar uma nova roupagem em cores bem brasileiras. O livro, publicado pela primeira vez em 1865, recebeu uma versão em cordel em abril deste ano. Desse modo, nas mãos do escritor Josué Limeira e do ilustrador Vladimir Barros, a história da menina que cai na toca do coelho agora recebe rimas, tons tropicais e sotaque nordestino.
Nesta adaptação da editora Yellowfante, selo infantil e juvenil do Grupo Autêntica, o mundo maravilhoso de Carroll é transportado para o quintal do nordeste, como afirma Josué Limeira. Assim, sem perder o cerne da história original, o mundo maravilhoso imaginado pelo escritor britânico é perpassado pela cultura popular, entrelaçando-se com a xilogravura, o artesanato de couro e personagens tipicamente sertanejos.
Para tal, foi necessária uma grande pesquisa de Josué Limeira, que se aprofundou tanto na obra de Lewis Carroll, quanto no contexto da Era Vitoriana – período no qual o enredo está inserido. Em Alice no País das Maravilhas em Cordel, os versos cheios de musicalidade são abraçados pelas ilustrações de Vladimir Barros, que realiza um projeto gráfico vibrante, inspirado pelo tropicalismo e pelas cartelas visuais brasileiras.
Esta é a quarta vez que os autores trabalham juntos. Em 2015, lançaram O Pequeno Príncipe em Cordel, que foi finalista do Prêmio Jabuti em 2016 e inspiração para enredo da escola de samba Tom Maior em 2022. Ainda houve a adaptação de A Revolução dos Bichos (2022), de George Orwell, e Vidas Secas (2024), de Graciliano Ramos. Em breve, haverá o lançamento de O Alienista, de Machado de Assis.
Em entrevista para o Entretetizei, os autores comentam sobre o processo de criação e transposição da obra de Lewis Carroll, além da importância da literatura de cordel para a formação de novos leitores. Confira:

Entretetizei: Essa é a quarta adaptação em cordel de um clássico da literatura que vocês fazem juntos. Como surgiu a ideia de adaptar a obra de Lewis Carroll?
Josué Limeira: A ideia foi minha, juntamente com o Vlad. A gente já tinha feito o livro do Pequeno Príncipe, depois A Revolução dos Bichos, então eu disse: “Não, Vlad, agora tá na hora da gente fazer uma homenagem às mulheres, com a Alice vindo para o quintal do Nordeste’. Só que essa preparação foi interrompida pelo domínio público. Então, a gente postergou mais um ano, lançamos Vidas Secas em cordel e depois eu disse: ‘Não, agora tá na hora e na vez de fazer a Alice no País das Maravilhas em Cordel”.
E: Alice é uma história que está presente no imaginário do leitor há várias gerações. O que fez vocês acreditarem que também funcionaria como cordel?
Vladimir Barros: Eu vejo que, como a gente tem trabalhado muito com escolas, fizemos um trabalho que não é necessariamente só “vamos fazer um livro”. Não, a gente também faz uma pesquisa de mercado. Por exemplo, uma das coisas que a gente descobriu quando criamos O Pequeno Príncipe é que era um dos livros mais traduzidos do mundo, mas também muito utilizado pelos professores.
Quando fizemos uma análise para o viés educacional, foi onde a gente começou a ser abraçado verdadeiramente pelo mercado. Começamos a ver que é importante que o trabalho de um criador seja assimilado pelo público.
E aí deu super certo, que o livro também é bastante adotado nas redes municipais e em colégios também particulares pelo Brasil. Funciona dentro da linha do que a gente já faz e funciona também dentro da linha do que o mercado precisa. E isso daí é algo que a gente pensa estrategicamente e eu acho que esse é um ponto positivo dentro dessa dessa junção, tanto da parte literária quanto da parte visual, em que a gente ajuda os professores em sala de aula para dar aulas melhores.
JL: O outro pilar é o literário. Eu acho que Alice casa bem no contexto do cordel, porque é um livro nonsense, e aí a gente tem o cordel nonsense. Na estrutura do cordel, a gente pode imaginar, sonhar, traduzir um livro que é cheio de poemas sem lógica, então a gente dá uma certa lucidez a esses poemas.
Então foi um livro extremamente gostoso de se trabalhar e a gente traz esses pilares, tanto do mercado como quanto da questão literária, e também da questão visual. Eu acho que os trabalhos da gente também tem uma questão visual muito forte e que podem gerar uma economia criativa, inclusive. Estamos produzindo um baralho do Pequeno Príncipe, por exemplo.
E: O livro mantém a essência da obra do Lewis Carroll, mas também há elementos do sertão, da cultura popular. Como vocês decidiram quais elementos poderiam ser adicionados, sem perder o espírito da história?
VB: Quando pensamos em termos visuais, temos uma sinergia muito grande. E por mais que a gente tenha atuações distintas no livro, sempre discutimos de maneira muito saudável. Já estamos há 10 anos juntos, nunca tivemos problemas.
No primeiro livro, por exemplo, buscamos muitas referências. A flor do deserto, do Pequeno Príncipe, transformamos na flor do mandacaru. No carnaval pernambucano, temos uma calunga que sai no mesmo dia que o homem da meia-noite, que é o galo da madrugada. E ele é extremamente vaidoso. Não tem como não colocar o vaidoso do pequeno príncipe como o homem da meia-noite.
Os pássaros e o pequeno príncipe voavam nas asas brancas de Luiz Gonzaga. Todos esses pontos fizeram com que a gente contasse uma outra história dentro da história, Josué contava uma e eu também contava uma outra, visual. No livro de Alice, por exemplo, o Chapeleiro Maluco é um personagem do Mateus e Catirina, que é do cavalo marinho, figura muito forte aqui no nordeste. A tartaruga, a falsa tartaruga, é o nosso boi.
JL: Isso dá uma diferença real muito grande, porque a gente costuma dizer que é uma obra nascida da outra. Não é só uma adaptação simples. A gente cria elementos fortes dentro da obra, tanto na parte de ilustração quanto no texto. Eu pego a narrativa e poetizo. Só que de uma forma que a gente consegue baixar a faixa etária de leitura, simplifica e torna uma coisa extremamente bela, além de trazer elementos nordestinos para a situação. A gente não muda a linguagem, o vocabulário dos personagens, mas a situação.
E: Para muitos jovens leitores, pode ser a primeira experiência tanto com a obra de Lewis Carroll quanto com a literatura em cordel. Como vocês acham que esses dois universos podem conversar entre si?
JL: É uma ponte. A nossa intenção não é fazer algo destrutivo, não é tirar o clássico e colocar o cordel por cima. O clássico é fundamental na formação do leitor e até da sua escrita, do seu conhecimento. Tem coisas que a gente não transporta do clássico, mas a grande essência dele conseguimos transportar e, no leitor mais novo, trazer a possibilidade do entendimento da obra. Porque são livros de linguagem bem erudita, bem difícil às vezes de se entender.
A gente aconselha que sejam lidas, para formação do leitor, as duas obras. E o cordel tem uma força educacional muito grande, tanto que muita gente foi alfabetizada ao escutar e ler os folhetos de cordel. Além da leitura, [o cordel] vai trazer a oralidade para os alunos, vai trazer pesquisa, vai trazer a criação, a possibilidade de fazer as xilogravuras, de desenhar.
E: Josué, você pesquisou tanto a Era Vitoriana quanto o universo criado por Lewis Carroll antes de escrever a adaptação. Houve alguma curiosidade dessa pesquisa que acabou influenciando diretamente os versos?
JL: Antes de propriamente a gente começar a escrever, eu levo pelo menos uns dois meses pesquisando a vida e obra do autor. A era vitoriana foi fundamental para fazer esse tipo de pesquisa, porque quando eu me deparo com os poemas que Alice declama, e são poemas da época mesmo, dificílimos até de entender, nonsense total. E o cordel ele precisa da lucidez e precisa da fluidez.
Lewis Carroll faz uma crítica ao ensino da época, que era totalmente arcaico, mas também à própria sociedade vitoriana. Por exemplo, nas ilustrações da tartaruga falsa ele desenha como se fosse um burrinho e bota uma tartaruga, porque a realeza comia carne da tartaruga, uma carne especial da época. Mas o pobre comia uma carne menor que se passava por tartaruga. Então, ele faz uma crítica tanto ao ensino e à vida da realeza na era vitoriana.
E: Embora tenha as diferenças culturais entre Inglaterra e Brasil, que temas vocês acham que continuam universais e atuais da história da Alice?
VB: Eu vejo muito a emancipação feminina, os movimentos feministas, que é um ponto abordado no livro de maneira indireta. Mesmo sem saber para onde está indo, Alice tem liberdade de escolher os caminhos dela, tem o ímpeto de poder ir. Eu acho isso algo fantástico, porque é uma coisa tratada de uma maneira comum. É comum a pessoa escolher o caminho, mudar a sua rota, ter o direito de poder pensar, de poder viver, de poder fazer suas escolhas. E isso eu acho que é altamente atual.
JL: É um livro de confronto. Do confronto do eu, do confronto do meio. É um livro espiritual, em que há essa transformação, essa metamorfose. Há caminhos a seguir, há coisas imaginárias. Hoje, o que a gente mais vê é essa luta do que é real: o que é mentira, o que é fake news, o que é inteligência artificial. A obra já previa essa situação, onde a gente às vezes não sabe qual caminho deve seguir, porque são vários caminhos que nos apresentam.
E: Vocês já estão nessa parceria há 10 anos. Como foi essa evolução ao longo do tempo, escrevendo e pensando nos livros juntos?
JL: É aquela história, você muda igual a Alice. Eu acho que a gente era de um jeito quando escreveu O Pequeno Príncipe e em A Revolução dos Bichos já foi outra etapa. Vidas Secas foi uma transformação importante, porque foi escrito naquela linguagem formal do romance moderno, do romance da época regional. Foi extremamente difícil, mas para mim criou um amadurecimento muito grande como escritor. E a Alice foi como se tivesse que montar um quebra-cabeça, desvendar códigos enigmáticos.
VB: Como eu sou pesquisador dentro de universos que envolvem tecnologia e cultura, eu vejo um tremendo amadurecimento da metodologia que a gente usa. No início, a gente experimenta, não sabe como vamos fazer. Nosso primeiro livro foi O Pequeno Príncipe, um livro que abriu as portas para a gente.
Eu nunca iria imaginar que o livro seria tema de escola de samba, como foi em 2022 pela Tom Maior. A gente saiu daqui de Recife para desfilar em São Paulo, uma coisa inimaginável. O livro parou na mão do Papa, eu trabalhei para a ONU por causa dele. Testamos, vimos que funcionou, entendemos o que poderíamos melhorar e fizemos o segundo. Alice, por mais que tenha sido um livro trabalhoso, já sabíamos exatamente o que precisávamos fazer para que ele fosse desenvolvido.
JL: O Pequeno Príncipe nos levou a um caminho que todo livro deveria levar, que é ao coração do leitor. Com esse caminho aberto, ficou mais agradável fazer e aprender como é que se cuida e zela com carinho, com amor cada projeto para que realmente chegue ao coração do nosso público, que é um público infanto-juvenil.
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Texto revisado por Luana Chicol









