Das final girls a personagens complexas, como as mulheres são caracterizadas no gênero
Ao final da década de 1960, os Estados Unidos viviam um momento muito particular. Com a chegada da Segunda Onda Feminista, a comercialização de pílulas anticonceptivas e o movimento de jovens rebeldes, a direita se organizou em um movimento para combater os novos ideais.
Nesse contexto, na década seguinte surge um subgênero do terror que ficou mundialmente conhecido como filmes slasher, que fazem parte do movimento conservador e reforçam valores conservadores. Estes filmes contam com um assassino mascarado que vitimiza adolescentes que vivem um estilo de vida liberal, regado a sexo e drogas.
Dentro desses longas surge a figura da Final Girl, personagem feminina, jovem angelical e virginal, geralmente heterossexual e branca. Estas personagens são as últimas a enfrentar os serial killers e, devido à pureza de seu coração, sobrevivem e desmascaram o assassino.
Um dos filmes pioneiros do gênero é Halloween: A Noite do Terror (1978), dirigido por John Carpenter. O longa conta a história de Michael Myers, que, em 1963, assassinou sua irmã esfaqueada. Depois de anos em uma instituição psiquiátrica, Myers foge na noite de Halloween, vestindo uma assustadora máscara, para sua cidade natal, onde persegue Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e seus amigos. A única sobrevivente é Laurie, se tornando uma das primeiras de muitas final girls.

Esse gênero foi um sucesso que perdurou por muitos anos, reforçando tabus sobre a sexualidade feminina no imaginário social de quem consome esse tipo de produção. Outros grandes sucessos slasher são os longas da franquia Pânico. O primeiro filme foi lançado em 1996 e acompanha Sidney Prescott (Neve Campbell), uma adolescente traumatizada pela morte de sua mãe e que passa a ser perseguida por um serial killer mascarado, que vitimiza vários de seus amigos.
Uma nova fase
Os slashers perderam força por alguns anos, mas voltaram a ser tópico de discussão com o lançamento do filme X: A Marca da Morte (2022). Dirigido por Ti West, a obra acompanha uma equipe de cineastas que aluga um chalé isolado, que pertence a um casal de idosos, para a gravação de um filme pornográfico. Contudo, em meio às gravações, membros da equipe são assassinados por Pearl, a idosa proprietária da casa. Na produção, Maxxine (Mia Goth) é a única sobrevivente, mas diferente das final girls, ela é uma atriz pornô, que usa drogas e foge do padrão imposto pelo gênero anteriormente.
Com o passar dos anos, o número de mulheres envolvidas por trás das câmeras das produções audiovisuais aumentou. Com isso, os roteiros deixaram de tratar personagens femininas como ingênuas e símbolo de pureza e passaram a abordar a sua complexidade.
Um exemplo claro de roteiro criado pensando em trazer profundidade para personagens femininas é o terror psicológico Cisne Negro (2010). O longa acompanha a bailarina Nina Sayers (Natalie Portman), que acaba de receber o papel principal na adaptação de O Lago dos Cisnes. Durante os ensaios, Nina precisa lidar com seus problemas familiares, a busca pela perfeição, concorrência e o constante assédio de seu diretor artístico.
A personagem se vê em uma situação em que a pressão se torna tão grande que ela começa a sofrer alucinações e passa a confundir imaginação e realidade. A atmosfera tensa da história e seus desdobramentos afetam profundamente a protagonista, que acaba por sucumbir diante da busca pela perfeição.

Outra personagem feminina em filmes de terror que conta com maior complexidade é Dani (Florence Pugh), do terror psicológico Midsommar, que possui traumas envolvendo o luto pela morte de entes queridos. A obra de 2019 acompanha Dani, que viaja com seu namorado Christian (Jack Reynor) e amigos para a Suécia para participar de um festival de verão. Lá, o grupo se depara com rituais de adoração pagã.
Dani, para além dos sentimentos que envolvem o luto, também passa por um contexto de solidão dentro de um relacionamento sem amor e que a faz sufocar seus sentimentos, até o momento em que ela presencia uma traição. É aí que Dani solta suas emoções em um grito angustiante. Deste momento em diante, a personagem, que diferente de seus colegas participa verdadeiramente da festividade e tenta vivenciar os costumes, consegue se libertar de sentimentos negativos e acaba coroada May Queen, símbolo de força dentro da comunidade pagã.
A Substância (2024), indicado ao Oscar, também conta com uma protagonista feminina complexa. Quando Elisabeth Sparkle (Demi Moore e Margaret Qualley) é demitida do seu emprego em um programa de aeróbica devido à sua idade, ela procura um laboratório que oferece uma substância que a transforma, momentaneamente, em uma versão aprimorada e mais nova.
O filme oferece uma reflexão sobre a pressão referente à estética feminina e as consequências do envelhecimento em uma sociedade que rejeita formas e pessoas que não se encaixam no padrão irreal de beleza. Ao acompanhar as tentativas de Elisabeth de manter-se desejada, nos solidarizamos com a sua dor, pois o tempo e as marcas da maturidade enchem os nossos rostos e também nos assombram.

Apesar de mais próxima da realidade, a indústria de filmes de terror ainda sofre com a falta de personagens femininas protagonistas, ou que tenham grande influência e relevância dentro do roteiro, que sejam representadas de forma verídica. Para tanto, é necessário que mais mulheres atuem no lado de trás das câmeras, quebrem paradigmas que há muito ditam a indústria e tragam suas experiências, vivências e dores para as produções.
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Texto revisado por Gabriela Fachin @gabrieladfachin









