O três primeiros episódios da nova produção já estão disponíveis no streaming e destacam novas perspectivas femininas na narrativa
[Contém spoilers]
Na terça-feira (7), o Entretê teve a oportunidade de conferir com exclusividade o primeiro episódio da série Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, nova série do universo de Margaret Atwood e sequência de The Handmaid’s Tale (2017-2025).

A série não perde tempo em estabelecer o tom de sua narrativa. Logo em seu primeiro episódio, a nova produção deixa claro que não há qualquer intenção de suavizar o universo que consagrou The Handmaid’s Tale. Em Os Testamentos há um aprofundamento ainda mais incômodo, mas menos brutal.
Apesar de ser uma sequência direta da sua produção original, a nova série não exige ou espera que os espectadores tenham assistido às seis temporadas da história de June. E, para isso, ela logo assume um tom didático e contextualizador nos 40 minutos de episódio.
Ela se inicia com um texto direto e perturbador, situando o espectador em Gilead e explicando a história de um sistema de controle violento, especialmente sobre os corpos femininos. Essa introdução não apenas ajuda a compreender este universo bem construído e consolidado em que a trama se passa, mas também antecipa o que está em jogo.
Quando, ao final do último texto na tela, as palavras são apagadas, restando apenas mulheres históricas, a atitude revela o eixo central da narrativa: a história é delas, ainda que construída sob dor, opressão e resistência.
O episódio mergulha sem hesitação em temas profundamente sensíveis. Abuso sexual e estupro são expostos de forma crua, sem qualquer tentativa de amenização. E o desconforto? É intencional e necessário. Há uma sensação constante de que o horror apresentado não pertence apenas à ficção, mas dialoga com estruturas muito reais, ainda presentes no mundo contemporâneo.
A narrativa deixa claro uma lógica completamente absurda e perversa em que homens são retratados como constantemente tentados, incapazes de exercer autocontrole – uma justificativa distorcida que sustenta a opressão feminina. A obra revela que, apesar da moralidade rigorosa pregada, a liderança de Gilead é cheia de homens que abusam. E as mulheres aprendem rapidamente a temer essa natureza masculina, sendo ensinadas que são responsáveis por evitar o pecado dos homens.

O universo de Gilead
“Essa história se passa em Gilead, um regime totalitário que controlou boa parte dos EUA. A queda da taxa de natalidade mundial gerou pânico e a violenta ascensão de Gilead. Havia um pequeno grupo de resistência, mas Gilead subjugava a população – principalmente as mulheres.
As mulheres, governadas por uma fé rígida, eram despojadas de bens e direitos.
Mesmo as jovens mais privilegiadas, as filhas dos Comandantes, eram submetidas à violência. Essas mulheres promoveriam mudanças históricas.”
O universo é apresentado de maneira clara, com explicações orgânicas sobre suas hierarquias, relações de poder e conflitos. Diferente do que parte do público poderia esperar após os acontecimentos da série original, Os Testamentos deixa claro que Gilead não foi derrotada, apenas tensionada. O regime segue operando, mantendo mulheres sob estruturas de violência e controle, o que amplia a sensação de continuidade do horror, e não de resolução.
A resistência Mayday, da qual June fazia parte, ainda luta para derrubar o governo e restaurar os Estados Unidos, e os combates armados aterrorizam algumas áreas do país, fazendo com que a segurança em torno das jovens seja muito pesada.
Soma-se a isso a repressão natural de Gilead, o que deixa as jovens ainda mais aprisionadas. Manter amizades era altamente mal visto, o distanciamento incentivado. Na visão dos Comandantes, amizades entre mulheres podem resultar em traição e, principalmente, questionamentos.
Na nova série acompanhamos a primeira geração que cresceu inteiramente sob o regime de Gilead. Jovens, como Agnes, não conheceram o que existiu antes. Mas, ainda assim, há uma inquietação feminina dentro desse sistema. As mulheres não estão satisfeitas, e isso fica ainda mais claro em pequenos gestos, olhares e, principalmente, em figuras que despertam curiosidade, como as Pérolas.
As garotas pérolas são uma classe de missionárias jovens de Gilead que usam vestidos perolados, chapéus brancos e pérolas. Elas viajam para o exterior, como o Canadá, para recrutar mulheres e espalhar a propaganda, retratando Gilead como uma utopia, embora Tia Lydia as use como ferramenta de espionagem – e isso aqui é muito importante.

Daisy, uma garota pérola recém introduzida no grupo de violetas – garotas que estavam apenas esperando seu período menstrual chegar para poderem se tornar esposas –, surge como um ponto de ruptura. Daisy cresceu em um país livre, no Canadá, e logo percebe que estes excessos que ocorrem em Gilead estão longe de serem normais. Sua posse de um rádio e a capacidade de captar mensagens codificadas reforça a existência de uma rede clandestina de comunicação e resistência.
Em um dos momentos mais impactantes do episódio, surge a conexão direta com a obra original. A aparição de Elisabeth Moss não apenas surpreende, mas também reafirma sua importância dentro desse universo e traz uma reflexão muito simples: June não terminou de contar sua história.

Com uma estreia intensa, provocadora e estrategicamente construída, Os Testamentos se estabelece como uma expansão ainda mais incisiva de um mundo que nunca deixou de ser assustadoramente possível. Grande parte da opressão ocorre fora da visão do espectador, por estar focado na vida das jovens, e isso dá espaço para que a série trabalhe questões que vão além da rebelião de June.
A resistência ainda é importante, mas os combates e torturas dão lugar à descoberta da vida adulta destas jovens, mesmo que dentro de um sistema extremamente abusivo. O spin-off reconta as histórias de The Handmaid’s Tale com um olhar mais juvenil, mas não menos crítico e relevante. Afinal, a narrativa ainda é movida pela luta e eventual derrota de Gilead.
Os três primeiros episódios já estão disponíveis no Disney+. Novos episódios toda quarta-feira.
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Leia também: Os Testamentos: o que você precisa saber antes de assistir a série
Texto revisado por Sabrina Borges de Moura










