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Foto: reprodução/Fora do Plástico

Crítica | Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ganha nova vida em HQ sensível e necessária

Adaptação do filme de Daniel Ribeiro preserva a delicadeza da história e reforça a importância de narrativas LGBTQIAPN+ para além da tragédia

Em 2014, quando Hoje Eu Quero Voltar Sozinho chegou aos cinemas, encontrar histórias LGBTQIAPN+ voltadas ao grande público ainda era algo relativamente raro. Embora existissem produções importantes, muitas delas eram marcadas por conflitos traumáticos, rejeição familiar ou finais melancólicos. Nesse cenário, o longa dirigido por Daniel Ribeiro conquistou espaço justamente por oferecer algo diferente: uma história de amor adolescente que não girava em torno do sofrimento, mas da descoberta, do afeto e da vontade de encontrar seu lugar no mundo.

Foto: divulgação/Editora Seguinte/Entretetizei

Mais de uma década depois, a adaptação em HQ resgata essa mesma essência e prova que a narrativa continua tão relevante quanto na época de seu lançamento. Com roteiro adaptado pelo próprio Daniel Ribeiro e arte de Bruno Freire, o quadrinho transporta para as páginas toda a sensibilidade que transformou o filme em um marco para tantas pessoas.

A trama acompanha Leonardo, um adolescente cego que tenta lidar com os desafios comuns da juventude. Mesmo com a superproteção da mãe, as inseguranças típicas da idade e a expectativa pelo primeiro beijo, sua rotina ganha novos contornos quando Gabriel chega à escola. Aos poucos, a amizade entre os dois se fortalece em meio a passeios de bicicleta, conversas e momentos compartilhados que despertam sentimentos até então desconhecidos para Leo.

O grande mérito de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho continua sendo a forma como aborda seus personagens. A sexualidade de Leonardo faz parte de sua trajetória, mas não define toda a narrativa. O conflito não está em justificar quem ele é, mas em acompanhar suas descobertas, dúvidas e desejos, exatamente como acontece em tantas histórias de amadurecimento protagonizadas por jovens heterossexuais.

Por isso, tanto o filme quanto a HQ permanecem relevantes. Em um cenário em que representatividade ainda costuma ser associada a narrativas de dor, a obra reafirma que personagens LGBTQIAPN+ também merecem viver romances leves, esperançosos e repletos de ternura. A mensagem parece simples, mas continua necessária: pessoas LGBTQIAPN+ têm o direito de ocupar histórias sobre felicidade, amor e futuro.

Visualmente, a adaptação encontra uma identidade própria graças ao trabalho de Bruno Freire. Os traços possuem um charme acolhedor que combina perfeitamente com o tom da narrativa. As expressões dos personagens transmitem emoção sem excessos característicos desse tipo de formato, enquanto os cenários e enquadramentos ajudam a construir uma atmosfera confortável, quase nostálgica. Existe um cuidado evidente em preservar a delicadeza da obra original sem transformar a HQ em uma simples reprodução quadro a quadro do filme.

Na entrevista presente ao final da edição, Bruno comenta que aproveitou a adaptação para atualizar alguns elementos visuais da história. As roupas dos personagens ganharam um visual mais contemporâneo e objetos que denunciavam a época do longa, como os celulares com teclado, foram substituídos por modelos semelhantes aos utilizados atualmente. São mudanças discretas, mas que ajudam a aproximar a narrativa de novos leitores sem comprometer a essência da obra que conquistou o público há mais de uma década.

Foto: reprodução/O Mundo Autista

Para quem já conhece a história, algumas diferenças chamam atenção. Certos momentos precisaram ser condensados e alguns personagens tiveram participação reduzida ou foram removidos da adaptação, como a avó de Leonardo, presente no longa-metragem. Ainda assim, essas alterações não comprometem a experiência. Pelo contrário: a narrativa permanece coesa e consegue manter intacto o coração da história.

Já para quem nunca assistiu ao filme, a HQ funciona como uma excelente porta de entrada. A leitura é rápida, envolvente e extremamente fluida. Em poucas horas, é possível percorrer toda a trajetória de Leonardo e Gabriel sem sentir que algo foi apressado ou perdido no caminho. Muito desse mérito está na adaptação do roteiro feita por Daniel Ribeiro, que demonstra compreender exatamente quais elementos tornam a obra tão especial.

A mesma entrevista presente ao final da edição reserva ainda outro momento interessante para os fãs. Nela, Daniel Ribeiro comenta sobre o desejo de revisitar esses personagens no futuro e reconhece a curiosidade do público em relação ao que aconteceu com Leonardo e Gabriel após o desfecho da história. Não deixa de ser interessante notar que a publicação recebe o título de Volume 1, um detalhe que inevitavelmente desperta especulações sobre uma possível continuação.

Enquanto esse futuro permanece incerto, a HQ cumpre com sucesso sua missão de apresentar – ou reapresentar – uma das histórias de amor mais delicadas do audiovisual brasileiro. Mais de dez anos depois, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho continua lembrando que ser amado é, acima de tudo, ser visto por inteiro.

Foto: divulgação/Editora Seguinte/Entretetizei

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz

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