50ª Mostra Internacional de Cinema reúne grandes nomes da indústria cinematográfica para debater os caminhos para a internacionalização de títulos nacionais
O Encontro de Ideias Audiovisuais, realizado pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, promoveu na última quinta (15) uma roda de conversas com o tema Estratégias do Oscar e Distribuição.
A mesa aconteceu na sede desta edição da Mostra, o Solar Fábio Prado, e contou com a participação do diretor Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto, 2025), Vinicius Pagin, diretor-geral da distribuidora Diamond Films, Ryan Werner, Presidente de Cinema Global da NEON e dos produtores Emilie Lesclaux (O Agente Secreto) e Rodrigo Teixeira (Paper Tiger, 2026), além da mediação da jornalista Mariane Morisawa.

Os convidados discutiram a importância da participação dos filmes em festivais e a relevância do cinema brasileiro dentro do país e no mundo. Os filmes em foco na discussão foram O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Paper Tiger, dirigido por James Gray, filme de abertura da Mostra. Ambos têm em comum a distribuição internacional realizada pela NEON, a longa trajetória em festivais de cinema e a liderança brasileira na produção.
Presença em festivais
Para o representante da NEON, uma das principais estratégias utilizadas na campanha de O Agente Secreto foi “garantir que o máximo de críticos assistissem ao filme”. Nesse sentido, os participantes ressaltaram que antes mesmo de pensar sobre o Oscar, é preciso levar os filmes para os grandes festivais para que possam ser vistos e, possivelmente, cotados para premiações.
Emilie Lesclaux, produtora do filme brasileiro, explica que a presença e conquista do longa no Festival Internacional de Cinema de Cannes foi fruto de uma longa construção, que começou com o curta Vinil Verde (2004), primeiro filme de Kleber Mendonça Filho a ser exibido em Cannes.
“A gente recebe muitas vezes a pergunta: como faço pra colocar meu filme em Cannes? Eu não tenho a resposta pra isso, porque a nossa experiência é a nossa e veio de muito tempo de trabalho para conquistar esses espaços.” Lesclaux ressalta, ainda, como produtora, que a indicação de um de seus filmes aos curadores de festivais não é garantia de participação.

Na perspectiva da temporada de prêmios, é importante ressaltar que os votantes do Globo de Ouro e do Oscar incluem críticos que frequentam os grandes festivais. Assim, esses eventos funcionam como vitrines para apresentar os filmes àqueles que, antes mesmo do início das votações, podem alimentar a expectativa de indicações: o chamado Oscar buzz.
Filmes fora do eixo Europa-Estados Unidos
Apesar das conquistas recentes do cinema brasileiro no cenário internacional, impulsionadas pelas nomeações e vitórias de Ainda Estou Aqui (Walter Salles, 2024) e O Agente Secreto, a presença da América Latina no circuito global ainda enfrenta diversas barreiras. Afinal, o que é preciso, além de um bom filme, para que produções brasileiras e latino-americanas conquistem esses espaços?

Para o produtor Rodrigo Teixeira, fundador da RT Features e responsável por títulos como Frances Ha (2012), Armageddon Time (2022), Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e Paper Tiger, a resposta passa pela trajetória construída pelo diretor. Ou seja: para além da obra que está sendo apresentada ou negociada para exibição, o caminho percorrido até ali é determinante.
“Às vezes, o diretor realiza 200 projetos em um curto espaço de tempo e acaba se desvalorizando caso esses filmes não ‘entrem’ (no mercado, nos festivais). O festival não vai correr um risco com ele”, avalia Teixeira.
O produtor ressalta que priorizar a qualidade é uma característica altamente valorizada pelos curadores dos grandes festivais. Ele afirma, contudo, que essa escolha costuma ser um privilégio de quem possui liberdade e estabilidade financeira para não precisar produzir constantemente para “pagar uma vida”.
Essa seletividade é acentuada pela forte concorrência geopolítica da indústria. Teixeira explica que os festivais e premiações reservam um slot, um espaço bastante limitado, para obras fora do eixo principal.
Como consequência, produções latino-americanas, por mais diversas que sejam entre si, acabam competindo diretamente umas com as outras para ocupar o que, frequentemente, é a única posição concedida a toda a região.
Distribuição e data de lançamento: como um filme chega, ou não, ao cinema mais próximo?
As distribuidoras nacionais, como a Diamond Films, são responsáveis por promover o filme no mercado interno e garantir que ele chegue ao público através dos cinemas. Decidir assistir a um título nas telonas parece muito simples, mas há uma cadeia de trabalho e de estratégias por trás desse cenário.
Vinicius Pagin explica que o trabalho da distribuidora é fazer apostas em filmes. Em diversas ocasiões, a empresa entra em jogo ainda na fase de roteiro. Nesse caso, é preciso acreditar nas pessoas envolvidas.
Pagin ressalta ainda que o sucesso de um filme nas salas de cinema envolve um tripé de elementos formado pela “qualidade, nem sempre suficiente, data de estreia e o que mais está em cartaz nesse período”.
“Pode ter um excelente filme, mas se tem outra coisa em cartaz que chama um maior público, ou compete com o mesmo público, você perde o investimento”, esclarece o diretor-geral da Diamond Films.
Nesse sentido, as premiações e festivais se tornam aliados das distribuidoras, pois aumentam a procura e as chances de sucesso nas bilheterias. Afinal, o retorno financeiro do investimento realizado com marketing, promoção e negociação depende dos resultados dos primeiros dias após a primeira exibição nos cinemas.
Pagin reforça que é notável o impacto mercadológico quando o debate sobre cinema é ampliado.
“Quando Ainda Estou Aqui estava no Globo de Ouro, o número de buscas sobre Globo de Ouro foi quatro vezes maior. Isso faz com que todos os filmes indicados ao Globo de Ouro ganhem destaque.”

Além disso, os convidados enfatizaram a relevância da presença de nomes brasileiros em projetos nacionais e internacionais. Esse movimento gera um interesse maior do público em determinados filmes e chama a atenção do mercado estrangeiro para nomes nacionais.
Entre a presença em festivais, a corrida pelo Oscar e a necessidade de valorizar o cinema e os talentos nacionais, à frente e por trás das câmeras, o diálogo trouxe perspectivas otimistas sobre a ampliação da presença de filmes não estadunidenses nesses espaços.
Apesar de ser um processo lento, ele parece possível e conta com o apoio de um público engajado, pelo menos quando se trata do Brasil, como ressaltou Ryan Werner, representante da NEON.
“Há algo muito específico e especial no Brasil. Eu acho que cada filme é diferente e há sempre um conjunto diferente de estratégias. Você tem que virar obcecado pelo filme e aprender sobre todo mundo que o fez e de onde veio essa ideia para encontrar uma forma de transmitir isso ao público”, explica Werner.
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Texto revisado por Kalylle Isse










