Financiamento de produções do cinema nacional está em discussão, modelos de outros países mostram o caminho
O reconhecimento de filmes nacionais como Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) pela crítica internacional reforça o valor e a qualidade do cinema nacional, além do orgulho em ver histórias brasileiras celebradas ao redor do mundo. Entretanto, um desafio permanece para as produções do setor audiovisual: como financiar seus projetos?
“Conquistar incentivo público direto via leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, ou indireto via Lei do Audiovisual e Rouanet, é uma tarefa árdua e que exige uma expertise na construção de projetos, o que deixa muitas produtoras e artistas independentes de fora, por falta de acesso a essas informações”, explica Mab Vizeu, CEO da Noches Produções, que já desenvolveu projetos para a Disney, através do extinto canal NatGeo Kids, e que hoje busca investimento para o anime Genius!, cujo episódio piloto, lançado no ano passado, alcançou 4 milhões de pessoas em menos de um mês.

Mab acredita que é preciso pensar em alternativas complementares ao fomento público, uma vez que “atuamos em um sistema frágil, no qual mudanças políticas podem inviabilizar projetos já em andamento”. A empresária destaca como o investimento privado no mercado audiovisual japonês viabilizou grandes sucessos como Naruto (2002). “O Seisaku Iinkai é um modelo surgido entre os anos 70 e 80 de financiamento coletivo dos animes japoneses, e movimenta bilhões com produções como Demon Slayer e Attack on Titan. Estudando esse modelo, enxerguei como um caminho para reinventar o financiamento de filmes, séries e animações no Brasil”, aposta Mab.
Como funciona o Seisaku Iinkai?
A dinâmica é a seguinte: um consórcio de empresas divide custos e riscos de um projeto, recebendo em troca direitos sobre partes específicas da receita. Um caso emblemático é o de Demon Slayer (2019), que gerou US $2,7 bilhões (cerca de R$ 14,8 bilhões) em merchandising e licenciamento. “O segredo está na diversificação: transmissão, produtos derivados, trilha sonora e até turismo geram receitas complementares”, analisa Vizeu.

Segundo a empresária, a adaptação desse modelo ao Brasil poderia encontrar potenciais investidores. “O interessante do comitê de produção é que além de dividir os custos, cada membro do comitê fica responsável por gerenciar a fatia do produto da qual tem expertise. Uma plataforma de streaming ficaria responsável por gerenciar os direitos de exibição para outras janelas e territórios, uma empresa de figures gerenciaria os direitos de licenciamento de marca e personagem e poderia sublicenciar esses direitos para outras empresas, por exemplo”, explica.
Em um projeto hipotético de R$ 2 milhões, por exemplo, um streaming poderia aportar 25% em troca dos direitos de transmissão, enquanto uma fabricante de material escolar investiria 15% para licenciar personagens.
Obstáculo legal
Os desafios, porém, são significativos. “Precisamos de um marco regulatório claro para divisão de lucros e direitos autorais”, alerta Daniel Solis, advogado especializado em entretenimento do escritório Nelson Willians. Além disso, existe o obstáculo cultural: “Muitas empresas ainda veem o audiovisual como despesa, não como investimento”, lamenta Vizeu. Especialistas sugerem que incentivos fiscais, nos moldes da Lei do Audiovisual, unidos aos comitês de produção, poderiam acelerar a adoção do modelo.
O retorno, contudo, pode transformar a indústria. Além de reduzir a dependência de verbas públicas, o sistema fortalece a sinergia entre setores, tendo em vista que “uma série de sucesso impulsionaria vendas de produtos, streaming e até turismo nas locações”, projeta a empresária. Enquanto o Brasil debate seu futuro audiovisual, o mercado japonês oferece um caminho testado.
Inspiração estadunidense
Ryan Coogler, diretor estadunidense responsável por sucessos como Pantera Negra (2018), Creed (2015) e Judas e o Messias Negro (2021) fez um acordo inédito com a Warner Bros. para seu último projeto, o longa Pecadores (2025), em que manteve o controle criativo, garantiu a propriedade total do filme após 25 anos e teve participação no primeiro dólar bruto, ou seja, recebeu parte da receita bruta da bilheteria desde o dia de estreia nos cinemas. Esse modelo, raro até para diretores consagrados como Tarantino, protege a propriedade artística da obra, além de inspirar maior autonomia criativa na indústria.
Opções Made in Brazil
Já no Brasil, a solução de Marcelo Galvão, diretor do filme Colegas (2012), que arrecadou US$ 852 mil em bilheteria, e de O Matador (2017), primeiro original Netflix brasileiro, é um modelo de negócios que visa a experiência do investidor nos bastidores do filme como principal atrativo através de um aporte que será totalmente recuperado em até 18 meses, acrescidos de uma taxa de lucro acima do CDI. Só depois que o valor for pago o resto da produção começa a lucrar com o projeto.
A ideia é fruto de sua experiência em busca de investimentos para custear seus filmes nos Estados Unidos e o primeiro a apostar no negócio foi Giordano Biagi, que atuou como sócio de Galvão. Biagi foi creditado como produtor executivo e financiou 90% de Fourth Grade (2021), longa estadunidense dirigido pelo brasileiro e que foi filmado em oito dias.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










