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Crítica | Muito Mais que Trinta Dias e o encanto de se apaixonar

Em sua estreia, Mika Serur combina romance LGBTQIA+, humor e autodescoberta em uma história ambientada em Roma

Alguns romances são feitos para serem lidos com pressa. Não porque a história seja acelerada, mas porque existe sempre a vontade de saber o que acontece na página seguinte. Muito Mais que Trinta Dias (2026), de Mika Serur, é um desses casos. A narrativa é fluida, confortável e bem-humorada, mas encontra sua principal força na maneira como constrói personagens pelos quais é fácil torcer. Quando a história começa a se aproximar do fim, fica aquela sensação de que ainda caberiam mais algumas páginas ao lado de Julian e Luca.

A trama acompanha Julian, um jovem que chega a Roma depois de abandonar o curso de Audiovisual, tentando entender o que pretende fazer da própria vida. Enquanto trabalha como fotógrafo em uma escola de música durante o intercâmbio, ele espera aproveitar o período na Itália para se afastar dos problemas e esquecer o ex-namorado. O plano, entretanto, começa a mudar quando conhece Luca, um músico italiano e professor da escola. Enquanto Julian tenta descobrir o próprio caminho, Luca tem objetivos mais definidos, mas também precisa lidar com inseguranças, traumas e questões pessoais que tornam a aproximação entre os dois mais complicada do que parecia a princípio.

É nesse encontro que Muito Mais que Trinta Dias realmente se destaca. O romance entre Julian e Luca é bonito justamente porque não parece existir apenas para chegar ao felizes para sempre. O sentimento floresce aos poucos, através de situações inesperadas, desventuras e diferenças de personalidade que fazem a relação ser tão divertida quanto sincera. Quando estão juntos, os dois arrancam suspiros e risadas; quando estão separados, deixam aquela angústia que faz torcer para que o reencontro aconteça logo.

Imagem: divulgação/Intrínseca

Parte desse efeito vem da construção dos protagonistas. Julian é extremamente sincero e quase não consegue esconder o que pensa, enquanto Luca possui um charme mais misterioso. A diferença entre os dois funciona muito bem e rende algumas situações engraçadas no livro, principalmente quando narradas por Julian.

A escolha dos pontos de vista também contribui para a dinâmica. Embora a narrativa seja majoritariamente conduzida por Julian, alguns capítulos apresentam a perspectiva de Luca. A mudança é indicada por uma alteração na fonte, recurso simples, mas bastante criativo, que permite reconhecer imediatamente quando a narração passa para o outro protagonista. É mais um dos pequenos cuidados que ajudam a dar personalidade à edição.

Imagem: reprodução/Instagram @omelhorqueli

Julian, por sinal, é um personagem cuja sensibilidade ultrapassa a fotografia. Seu olhar para pessoas, espaços e momentos acompanha a própria dificuldade de entender o que deseja para o futuro. O protagonista se vê pressionado a escolher um caminho, definir quem quer ser e ter respostas que ainda não possui. A frustração diante dessas expectativas é tratada de maneira bastante natural pela narrativa, afinal, não ter certeza sobre o futuro também é uma experiência bastante comum.

Luca parte de um lugar diferente. Ele sabe que quer ser cantor e está disposto a construir uma carreira na música, mas ter um objetivo definido não significa estar seguro sobre todo o resto. O personagem carrega experiências difíceis e inseguranças, além de viver um processo de descoberta da própria sexualidade. A temática LGBTQIAPN+ está, portanto, integrada à trajetória de Luca sem resumir sua personalidade a ela. O romance também ganha força justamente porque os dois personagens chegam a essa relação carregando questões que ainda precisam compreender.

A ambientação ajuda a tornar essa experiência ainda mais envolvente. Roma é descrita com atenção e aparece em diferentes momentos da história de maneira bastante orgânica. As ruas, os espaços e os lugares frequentados pelos personagens são construídos com detalhes suficientes para criar uma imagem clara da cidade, sem transformar as descrições em pausas na narrativa. O resultado é uma ambientação que contribui para o clima da história e faz a passagem de Julian pela Itália parecer ainda mais especial.

O uso do italiano, contudo, merece uma ressalva. Alguns diálogos aparecem no idioma sem tradução, o que pode dificultar a leitura para quem não o domina. A escolha também pode ser compreendida como um recurso interessante, já que Julian não fala italiano e frequentemente fica perdido diante da língua. Dessa maneira, a dificuldade do leitor pode acabar se assimilando à experiência do próprio protagonista. Ainda assim, a inclusão de traduções seria bem-vinda, especialmente por tornar esses trechos mais acessíveis sem necessariamente eliminar o efeito narrativo.

Imagem: reprodução/Instagram @omelhorqueli

Se a história consegue criar um universo tão particular, o projeto gráfico acompanha essa proposta. A capa, produzida pela própria Mika, é um dos destaques da edição, e conhecer o processo de criação torna o resultado ainda mais interessante. O cuidado aparece também no interior do livro, especialmente nos desenhos que antecedem os títulos dos capítulos. Criativos e cheios de personalidade, eles são pequenos detalhes que demonstram o quanto a identidade visual foi pensada em conjunto com a história.

Essa expansão do universo também aparece na música. Mika compôs e gravou Wonderful Mistake, relacionada ao livro e disponível nas plataformas digitais. A canção faz parte de um projeto que vai além da narrativa principal e reforça a presença da música na história, especialmente pela relação de Luca com a carreira artística. A edição publicada pela Intrínseca ainda acrescenta conteúdos inéditos, incluindo passagens do diário de Luca e cifras de músicas.

E, embora Julian e Luca sejam o centro da trama, o entorno deles está longe de ser mero coadjuvante. Os personagens secundários são bem construídos e integrados à narrativa, contribuindo para que a relação entre os protagonistas pareça ainda mais natural. O grupo de amigos e a irmã de Julian garantem algumas das melhores cenas coletivas, enquanto Greg se destaca por dar os melhores/piores conselhos. São presenças que acrescentam humor e afeto à história sem disputar espaço com o casal.

Imagem: reprodução/Instagram @omelhorqueli

No fim, o grande acerto de Muito Mais que Trinta Dias está justamente em fazer com que todos esses elementos trabalhem a favor da história de Julian e Luca. O romance é o ponto central, mas a jornada individual dos protagonistas, as amizades, a ambientação e o cuidado visual fazem com que a leitura tenha mais a oferecer do que apenas um casal apaixonante.

É o tipo de leitura que conquista pelo romance, mas também pelo cuidado dedicado a cada parte da obra. Da construção dos personagens aos detalhes gráficos, passando pela ambientação em Roma e pela relação entre Julian e Luca, Mika Serur entrega uma história cheia de personalidade e carinho. Mais do que acompanhar o início de um relacionamento, a narrativa encontra beleza justamente no processo de duas pessoas que, sem procurar pelo momento perfeito, descobrem aos poucos o encanto de se apaixonar.

Para quem procura um romance LGBTQIA+ leve, divertido e capaz de provocar suspiros e boas risadas, a estreia de Mika é uma ótima pedida. É uma daquelas histórias que fazem companhia durante a leitura e deixam aquela sensação gostosa quando chegam ao fim – além da vontade de passar mais alguns dias ao lado de Julian e Luca.

Imagem: divulgação/Mathilde Missioneiro

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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