Atriz que interpreta Vanessa na série comenta sobre os desafios da personagem, a importância da valorização profissional e os projetos dos quais fez parte ao longo de sua carreira
Raquel Villar está brilhando em sua carreira! A atriz está em sua melhor fase depois de trabalhos que passaram pela televisão, streaming, cinema e teatro, e assume um dos papéis centrais de Emergência 53, nova série médica original do Globoplay: Vanessa, uma enfermeira bastante competente e dedicada que sonha em ser médica.
Em uma trama que mistura drama, adrenalina, relações profissionais e os desafios da rotina de uma emergência móvel, a atriz constrói uma personagem repleta de camadas, que assume a autoridade no meio de conflitos e que tenta construir uma carreira em meio ao caos de sua vida pessoal, profissional e estudos constantes para o vestibular. Em entrevista ao Entretetizei, Raquel Villar conta sobre a repercussão da série, os desafios da personagem e a experiência de interpretar uma profissional de saúde.
Raquel nasceu na Zona Norte do Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1987 e começou a sua carreira na TV Globo, onde também passou por novelas como Araguaia (2010), Gabriela (2012) e Amor à Vida (2013). Ganhou projeção nacional ao viver Jasmin na série Dom da Prime Vídeo, papel que lhe rendeu indicação ao Prêmio Platino Ibero-Americano de Melhor Atriz Coadjuvante.

Entretetizei O ambiente de uma emergência coloca os personagens diante de situações-limite. O que você acha que a série revela sobre as pessoas quando elas são colocadas sob esse tipo de pressão?
Raquel Villar: No caso da série, essas pessoas são profissionais treinados para ter o controle da situação. Então, seja lá o que estiver acontecendo com você internamente, pessoalmente, isso é guardado e deixado de fora. Isso é a profissão. Um socorrista do SAMU faz essa diferenciação com maestria, pois também entra a situação da ocorrência, na qual você precisa ter controle e calma para tomar as decisões certas em tempo recorde. Na série, a ficção entra do nosso lado, então ali ficamos mais vulneráveis a essas questões para poder ter um desenvolvimento das histórias. Claro, as pessoas são humanas, falhas também, e isso em qualquer lugar, seja na ficção ou na realidade.
E: Qual foi a cena mais difícil de gravar e por quê?
R: O episódio 4, que é o “Feliz Aniversário”, é o episódio da Vanessa, minha personagem, e nele tinha uma ocorrência difícil. Na primeira versão, era na chuva, depois tiraram, pois senão seria mais complicado ainda. Éramos eu e Valentina tentando socorrer duas pessoas quase mortas no meio da rua. Nós tínhamos um texto mais pessoal das personagens acontecendo enquanto, ao mesmo tempo, fazíamos massagem cardíaca, tentando reanimar cada uma, cada uma com o seu ferido. Foi tensa, pois eu tinha que, em algum momento, entrar no estado de quem já estava ali há uns 20 minutos massageando, tentando, e ainda por cima procurando motivar a outra enfermeira a não desistir, pois senão eu não ia dar conta dos dois sozinha, e a novata precisava de incentivo. Foi uma cena intensa e, no final, sem dar spoiler, tinha um momento misto de lidar com algo que pode ser corriqueiro na vida desses profissionais, mas que não deixa de abalar emocionalmente, ainda mais sendo o seu aniversário, como era o aniversário da Vanessa. O resultado ficou muito bonito.
E: Sua personagem vive o dilema entre continuar na enfermagem, profissão com a qual se identifica, e buscar a Medicina diante da desvalorização da área. Como foi construir essa ambiguidade e como você enxerga essa busca dela por melhores condições e reconhecimento profissional?
R: Lendo o roteiro, eu fui entendendo que o desejo de ser médica vem primeiramente de quando ela era criança. Ela assistiu a uma série médica e teve um encontro com a profissão. O desejo persiste com ela até a fase adulta, ela não desiste dele. Não sei por que ela começa o caminho pela enfermagem, talvez, em um primeiro momento, por conta da grana. Mas, na enfermagem, ela se torna uma excelente profissional. Não à toa, ela é a melhor enfermeira da Unidade 53, nas palavras da Dra. Irene. Acho que as idealizações com a profissão médica vão se remontando também conforme ela vai vivendo o dia a dia como enfermeira e se deparando com os diferentes desafios que cada profissão tem, e com as diferentes áreas em que essas profissões trabalham especificamente. E é claro, também, com a desvalorização do trabalho que ela exerce naquele momento. Ela, como enfermeira, entende exatamente o valor do seu trabalho dentro da área da saúde. A saúde é composta por diferentes áreas e profissionais, e a enfermagem é uma parte fundamental desse sistema. Quando justamente esse núcleo, que tem um papel tão crucial no funcionamento da saúde, é desvalorizado, isso acaba pesando muito. A personagem tem senso de justiça e percebe esse desequilíbrio. Por isso ela questiona, por isso ela procura dar limites também. Eu acredito que, caso ela se torne médica, ela vai ter um bom diferencial, pois será uma médica com a perspectiva de quem trabalhou na enfermagem e conhece bem outros lados.

E: Sua personagem também acompanha de perto o transtorno bipolar do Pedro, interpretado por Emílio Dantas. Como foi construir essa relação e representar os desafios de conviver com alguém que enfrenta essa condição?
R: Entendendo que ela já convive com o Dr. Pedro há muito tempo – mais de oito anos, ela diz –, eu tentava ter um olhar mais clínico sobre a situação e não me deixar contaminar tanto pela loucura do outro. Quando alguém próximo está doente, é muito difícil a gente não ficar também, nem que seja psicologicamente. E, no caso dele, era exatamente onde a doença entrava. No momento que a gente assiste na série, a Vanessa já está mais calejada dessas situações, ela o conhece bem. O difícil para ela é conseguir organizar a própria vida, que está em um momento tenso: final de faculdade, muito trabalho, parceiro em crise. Acho que ela fica confusa com tudo. Ela não divide muito com outras pessoas, me parece, e, em momentos conturbados assim, quando precisamos fazer escolhas importantes ou estamos em um momento decisivo da vida e temos alguém doente precisando da gente também, acho que é muito importante procurar dividir, buscar apoio familiar, apoio dos amigos ou alguma forma de colocar para fora as questões e não deixar tudo só na sua cabeça, para não sobrecarregar.
E: Qual foi o maior desafio para você ao interpretar uma personagem que atua na área da saúde, especialmente dentro da rotina intensa das unidades móveis?
R: Tem o desafio inicial, que é adentrar esse outro mundo, o da área da saúde pública e privada no Rio de Janeiro, se familiarizar com os dilemas com os quais a personagem vive dentro desse mundo e com os seus próprios dilemas e desafios pessoais também. Em cena, existe a precisão da profissional que a minha personagem tem. Eu vivia com instrumentos cirúrgicos na bolsa para pegar o costume do manuseio. E procurava entender esse olhar de compreensão e controle dentro das dinâmicas de atendimento, que uma pessoa acostumada com aquele dia a dia desafiador e surpreendente tem.
E: Você viveu em Berlim por boa parte da sua vida. Como foi para você voltar ao Brasil e adaptar sua atuação à dramaturgia brasileira?
R: Vivi por oito anos, mais ou menos, e em uma fase importante em que eu saí de casa, fui morar sozinha e fui desenvolver a minha independência. Então eu vivenciei tudo isso em uma outra cultura completamente diferente. Eu não tinha nenhum amigo lá no início, nem ao menos sabia a língua. Foi puro acaso, não foi algo anteriormente planejado, simplesmente aconteceu. Quando eu comecei a ensaiar uma volta, ela começou aos poucos. Eu tinha uma saudade forte da minha cultura, dos símbolos, das referências, da piada e da sensação de pertencimento. Eu aprendi muito como atriz na Alemanha. Os elementos que são pensados, trabalhados e controlados individualmente, como corpo, voz, intenção. Acho que falar por muito tempo em alemão me deu uma forma diferente de falar, articulando mais. Isso fui tirando aos poucos aqui. São outros métodos, todos enriquecem o trabalho. As experiências de vida também.
E: Como você lidou com um ambiente tão controlado e, ao mesmo tempo, com a responsabilidade de transmitir autoridade durante as cenas de ação?
R: As cenas de atendimento que a Unidade 53 faz são em ambientes completamente sem controle, né? Pois não são dentro de um hospital, o que diferencia a nossa série das outras séries médicas, por exemplo. A equipe vai até o local onde foi pedida a ajuda, e isso, por si só, é fora do controle. Mas é exatamente o trabalho que esses profissionais com experiência têm: o controle no descontrole. Sendo a Vanessa uma excelente enfermeira, ela lida muito bem com esses ambientes. Da porta para fora da ambulância, existe todo um protocolo que eles cumprem para entender o que fazer e ser assertivos. Isso demanda um controle interno absurdo e saber onde atuar e como fazer para o atendimento dar certo. Não tem espaço para dispersão, ao mesmo tempo em que é pura adrenalina. No final, quando dá certo, mora uma certa alegria, uma satisfação, pois conseguimos ajudar uma pessoa, salvar uma pessoa.
E: Como foi, para você, mergulhar em três universos tão distintos ao mesmo tempo, com Emergência 53, Impuros e Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba? O que cada trabalho trouxe de diferente para você como atriz?
R: Esses trabalhos não foram filmados ao mesmo tempo. Mas, quando eu filmei Impuros, eu estava fazendo outro filme, que ainda não lançou, que era sobre uma criança que tinha que lidar sozinha com a mãe recém-diagnosticada com uma doença psiquiátrica, e eu era essa mãe. Então tinham cenas sensíveis e difíceis. Ao mesmo tempo, em Impuros, a minha personagem estava destruída por dentro, todas as cenas eram terríveis. As duas equipes, tanto do filme quanto da série, eram maravilhosas, amorosas, generosas. Eu me sentia em casa. Porém as personagens estavam psicologicamente transtornadas, as duas. Então eu convivi por algumas semanas com elas. Éramos nós três e um caos dentro de mim, pois o personagem fica orbitando em minha volta, igual a um fantasma. Enquanto não termino, ela fica comigo. Às vezes até fala por mim. Fica uma mistura. E, dependendo da personagem, isso pode demandar muita energia, pode ser cansativo. Aí depois a personagem vai embora, dá um alívio de dever cumprido e, às vezes, bate a saudade. É engraçado.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz











