Com o crescimento do consumo das novelas e da cultura turca, o olhar do Ocidente para essa região aumenta a cada ano. Que tal discutirmos sobre a influência da política e da cultura no avanço da moda turca?
Por Anna Mellado e Shay Roiz
A Moda Turca é um tema que vem despertando cada vez mais atenção ao redor do mundo, com modelos e peças que encantam e inspiram. Com uma trajetória histórica, que se inicia nos tempos bíblicos, com os kaftans otomanos (as famosas túnicas marroquinas) até peças contemporâneas – compostas por linho, alfaiataria e outros tecidos europeus -, a Turquia torna-se um símbolo de diversidade, memória e atualidade, quando o assunto é: Moda. Mas, num país marcado por questões governamentais… será que a Moda Turca também é política? Ou até mesmo, religiosa?
Entendendo a Cultura Turca
Para começar, em qualquer lugar do mundo, a moda acompanha a sociedade em que está inserida. Sendo assim, ela está relacionada às questões de poder, classe social, identidade e cultura. Pensando nisso, quanto mais ditatorial e autoritário o país, mais político será todo o meio envolvido.

No caso da Turquia, também há toda a questão religiosa, já que, por mais que seja um país laico, sua população é predominantemente muçulmana, principalmente do lado asiático, o que certamente traz diversas discussões envolvendo Política X Moda X Religião.
Com o passar dos anos, e devido à emigração da Ásia para a Anatólia, a integração de culturas provocou diversas mudanças na moda e na cultura turca. De 1923 para cá, com a proclamação da República, o país se modernizou em todos os âmbitos, inclusive, na moda.
Hoje, vemos uma Turquia muito mais aberta e conectada com o mundo e, no caso da moda, peças que encontramos nos desfiles de Paris, por exemplo, e em modelos americanas e europeias, também são diariamente notadas dentre as mulheres turcas – principalmente entre as atrizes, muito influentes no país.
Com isso, podemos observar que o país vem se atualizando cada vez mais. Na metrópole Istambul, por exemplo, vemos uma imensa quantidade de peças no estilo ocidental (do lado europeu).
Quando visitamos o lado asiático, voltamos a notar a presença, em massa, de peças mais tradicionais, por se tratar de uma região com maior presença de muçulmanos. Isso nos leva a questionar: como é então o dia a dia na Turquia, de uma pessoa que vive na cultura e trabalha com moda?
Moda e política: uma visão profissional

Marcela Carrasco é uma empresária, modelo brasileira e influenciadora de moda que enfatiza em seus vídeos postados no YouTube que moda é política, expressão artística e história. Comportamentos e símbolos são refletidos em tendências, desde roupas até acessórios. A Turquia não está entre os principais países no mercado global da moda, mas é preciso falar sobre a relação entre política e moda no país.
“A moda é, antes de tudo, linguagem. Em países como a Turquia, onde convivem tradições conservadoras e influências liberais, o vestir se torna uma forma silenciosa — ou barulhenta — de afirmação pessoal. A mulher turca que escolhe usar um lenço de maneira estilizada ou a que mistura referências ocidentais com símbolos locais está, conscientemente ou não, moldando novas narrativas sobre si mesma. E isso é poder. A moda, nesse contexto, não é só estética: é resistência, é adaptação, é identidade. O que me interessa aqui é como o ato de se vestir, nessas regiões tensionadas entre tradição e modernidade, vira um campo de disputa simbólica. É aí que mora o empoderamento’’, declarou Marcela.
O mercado de luxo turco: um ponto estratégico

O mercado de luxo turco é uma ponte estratégica entre Ásia e Europa. O crescimento da classe média e a inauguração de novos shoppings e hotéis de alto padrão impulsionam esse setor. A Turquia está frequentemente entre os dez países mais visitados do mundo e, em 2024, recebeu mais de 18,6 milhões de turistas estrangeiros. Marcas como Raisa Vanessa vestem celebridades internacionais, e Dice Kayek é conhecida por misturar minimalismo europeu com elementos otomanos.
A classe alta turca continua consumindo marcas de alto ticket, apesar da instabilidade econômica no país; enquanto designers emergentes buscam exportar sua identidade para mercados internacionais e investidores ficam de olho nas oportunidades favorecidas pela demanda interna e grande fluxo de turistas.
Quando questionada sobre como expandiria seus negócios para o país, Marcela Carrasco, fundadora da EORA EYEWEAR — marca brasileira de óculos exclusivos —, respondeu:
“Entrar no mercado turco com uma marca como a EORA exige mais do que uma boa peça — exige leitura cultural e respeito à complexidade local. A Turquia é um ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente, então a estratégia precisa refletir isso. Eu pensaria em coleções cápsula que dialoguem com os códigos visuais locais, mas sempre mantendo o nosso DNA brasileiro de sofisticação solar. A cor, o brilho, o metal — tudo pode conversar com a estética turca sem perder a identidade da EORA.

“Agora, do ponto de vista regulatório, o país tem uma política protecionista em alguns setores, o que exige um cuidado logístico e jurídico maior. Eu buscaria um parceiro turco local que entendesse tanto o mercado de luxo quanto o comportamento de consumo das mulheres turcas. Mais do que vender óculos, a gente entraria pra contar uma história — e isso, no universo do luxo, vale mais do que qualquer campanha.”
A Turquia e seu papel crescente na moda internacional
A Turquia está solidamente estabelecida na indústria da moda global, com designers de renome e uma reputação de produtos de alta qualidade. As indústrias têxtil e de vestuário, há décadas, são pilares da economia do país, que atualmente ocupa a posição de quinto maior exportador mundial de têxteis e segundo maior fornecedor desse setor para a União Europeia.

Algumas das principais estilistas turcas são mulheres, com nomes de destaque como Zeynep Kartal, Özlem Süer, Arzu Kaprol e Nihan Peker. No cenário masculino, designers como Hakan Yıldırım, Raşit Bağzıbağlı, Cemil İpekçi e Atıl Kutoğlu também se destacam no mercado internacional.
Recep Tayyip Erdogan e moda
“Não vamos obedecer, não vamos ficar em silêncio, não vamos ter medo. Vamos ganhar através da resistência”, foi recitado pelas mulheres em um protesto ocorrido em 2017, após uma mulher sofrer agressão em um ônibus, pois a vítima estava usando um short durante o Ramadã.
O atual presidente Recep Tayyip Erdogan promoveu uma agenda conservadora que influenciou diretamente a maneira como as mulheres se vestem e são vistas pela sociedade. O número de ataques a mulheres que vestem roupas consideradas “inapropriadas” para os conservadores turcos aumentou durante o seu governo.
Parque Gezi e a moda como resistência
Moda também é sinônimo de protesto e um dos maiores exemplos atuais, é o de 2013, nas manifestações do Parque Gezi, onde diversas mulheres protestaram com roupas ousadas e coloridas, num ato contra a repressão do governo.
No dia a dia, é possível notar tamb00ém a presença de mensagens políticas em peças/coleções de designers independentes, que usam suas peças como forma de expressão.

Nesta época, uma figura ficou fortemente marcada, após participar dos protestos e receber gás lacrimogêneo em seu rosto. A “Mulher do Vestido Vermelho” circulou pelo mundo e ficou caracterizada como um símbolo de resistência.
Revista Âlâ e moda conservadora

Istambul vem se consolidando como a capital da moda islâmica, refletindo as transformações da sociedade turca sob o governo islâmico do presidente Recep Tayyip Erdoğan. Unindo religiosidade e sofisticação, a revista Âlâ é conhecida como a “Vogue do véu”, tornando-se uma referência entre a burguesia islâmica na Turquia.
Primeira revista de moda voltada para mulheres muçulmanas conservadoras, Âlâ foi criada por dois publicitários e traz conteúdos que vão além da moda, incluindo dicas de saúde, viagens, entrevistas com celebridades e ativismo islâmico. Suas páginas exibem modelos vestindo lenços na cabeça e vestidos longos que cobrem braços e pescoço, promovendo um estilo elegante e modesto.
O crescente mercado de moda conservadora também impulsionou iniciativas como o Zeruj Port, o primeiro shopping center do mundo voltado exclusivamente para mulheres conservadoras. Localizado em Zeytinburnu, Istambul, o espaço abriga mais de 150 lojas focadas nesse público.
Marcas internacionais também têm investido nesse segmento: em 2016, a Dolce & Gabbana lançou uma linha de abayas, e em 2017, a Nike desenvolveu um hijab esportivo, reforçando o impacto e a expansão da moda islâmica no cenário global.
Revistas ocidentais
Com cerca de 60% da população abaixo dos 35 anos, a Turquia tem uma juventude altamente conectada e antenada nas tendências globais. Revistas de moda renomadas, como Vogue, Harper’s Bazaar, ELLE e Marie Claire, têm edições voltadas para o mercado turco, refletindo a influência internacional no estilo de vida do país.

A Vogue Turquia, lançada em março de 2010, é uma referência no universo da moda e do lifestyle. Assim como em outras partes do mundo, a revista aborda temas como beleza, cultura, comportamento e desfiles de passarela, trazendo o melhor da moda internacional e local.
A ELLE Turquia, por sua vez, segue a tradição da marca francesa, sendo uma das maiores revistas de moda do mundo. Com foco em tendências, beleza, saúde, decoração e entretenimento, a edição turca mantém um olhar sofisticado e atualizado para atender ao público jovem e moderno do país.

A integração dessas revistas globais ao mercado turco, aliada ao uso de atores e influenciadores digitais como embaixadores de marcas, fortalece uma estética mais voltada para a moda europeia e ocidental. Esse movimento caminha na contramão da moda conservadora, que também possui forte presença no país.
Em contrapartida a todas as questões que atrasam o avanço da moda turca, eventos como a Mercedes-Benz Fashion Week Istanbul, são destaque no país, atraindo olhares para a nova geração de designers turcos. Isso traz uma clara divisão: enquanto algumas marcas apostam na sofisticação e na globalização, com peças e acessórios que podem ser vistos em outros países da Europa e até no Brasil, outras reforçam uma estética tradicionalista, mais alinhada com o governo.
Mesmo assim, estilistas desafiam as normas culturais, enfrentam desafios e, mesmo com a liberdade criativa mais limitada, seguem fazendo seus trabalhos da melhor maneira possível, com dois grandes aliados: os jovens, que consomem a moda turca em massa, e as redes sociais, que seguem sendo grandes aliados dos turcos, que sonham com dias melhores e de paz.
A cultura pop e o fenômeno das novelas turcas: o que isso impacta na moda turca?
As novelas turcas já são um sucesso dentro e fora da Turquia. Suas histórias e personagens carregam histórias e detalhes notáveis, envolvendo, também, a moda.

Enquanto algumas novelas trazem personagens mais ocidentais e “modernos”, com peças de roupas mais curtas e diversificadas, outras ainda resgatam a história da Turquia; inspirando-se na realeza otomana, com presença de bordados, cortes e tecidos desta época. Isso fortalece o soft power (expressão usada na teoria das relações internacionais para descrever a habilidade de um corpo político) da Turquia no mundo árabe.

O avanço das produções turcas, e a globalização das mesmas, tem colaborado para entendermos que a moda turca acompanha o mundo ocidental, com peças que as mulheres brasileiras, latinas e americanas também usam em seu dia a dia; ao mesmo tempo que nos explicam suas origens, quando falamos de séries e filmes de época, que contam a história de uma Turquia antiga, mas que se mantém viva até os dias de hoje, seja no uso de um hijab, ou num vestido mais comportado.
Diferentemente do estilo nórdico fashion, repleto de cortes retos, tons claros e tecidos como algodão e linho, os turcos são mais versáteis no guarda-roupa, com composições elegantes no outono-inverno e roupas leves, estampadas e coloridas nos dias de calor — bem parecido com o que vemos no Brasil.
Independentemente do uso do hijab, as mulheres turcas, especialmente as mais jovens, chamam atenção por saberem misturar tradição e tendências globais, criando um estilo único que conversa tanto com suas raízes quanto com o agora.
Isso reforça o papel da Turquia como um elo entre Oriente e Ocidente — não só na geopolítica, mas também na estética e na forma como a moda se expressa nas ruas, nas telas e no mundo.
Qual a sua opinião sobre essa conexão entre moda, cultura e política na Turquia? Conta pra gente e siga o Entretetizei nas redes sociais — Facebook, Instagram e X — para mais informações sobre o mundo turco.
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Texto revisado por Kalylle Isse









