Baahubali revela o coração trágico do heroísmo e a força espiritual do cinema indiano, transcendendo a fantasia enquanto fala da alma de um povo entre deuses, reis e homens
[Contém spoilers]
O cinema indiano está repleto de obras preciosas sobre poder, destino, sacrifício, glória e queda, e Baahubali, lançado em 2015, é uma delas. No ano em que a primeira parte da duologia completa 10 anos, nada mais justo que relembrar aos fãs e apresentar aos recém-chegados no universo do cinema hindi os principais pontos que fizeram dessa obra monumental um marco das produções indianas.
Embora encharcado de efeitos digitais e grandiloquência visual, Baahubali é essencialmente um mito. Um mito no sentido clássico, como os da Índia antiga, da Grécia ou da própria tradição cristã: uma narrativa que tenta expressar em forma dramática a estrutura da realidade, a hierarquia do ser, o conflito entre o dever e o desejo, entre o herói e a ordem cósmica.
O herói de Baahubali não é um rebelde moderno ou um anti-herói: ele é, ao contrário, um símbolo da vocação humana à realeza espiritual, o homem que aceita o peso do destino, o sacrifício pelo povo, a restauração da legitimidade.
Baahubali: The Beginning e Baahubali: The Conclusion
Em oposição à boa parte do cinema americano atual, o indiano ainda conserva, em obras como essa, a consciência mítica de que o poder é um dever e que a grandeza exige sacrifício.

No reino de Mahishmati, a rainha-mãe escolhe seu sobrinho adotivo em vez de seu filho para ser o novo rei, desencadeando a hostilidade inevitável entre os dois príncipes. Quando o rei escolhido rejeita o trono por amor, uma trama de manipulação e suspeitas mal interpretadas levam a seu assassinato cruel.
Escondido até a vida adulta, seu único filho e herdeiro retorna para resgatar sua mãe e vingar seu pai, o verdadeiro rei.
É a história do príncipe herdeiro de Mahishmati, Mahendra Baahubali Sivudu (Prabhas), que acompanhamos na primeira parte da história, Baahubali: O início (2015).
Já em Baahubali: A Conclusão (2017), finalmente conhecemos os acontecimentos que precedem o nascimento de Mahendra e a morte de seu pai, Amarendra Baahubali (também interpretado por Prabhas).
Quando Mahendra Sivudu descobre sua herança, começa a buscar respostas. Sua história é justaposta a eventos passados que se desenrolam no Reino de Mahishmati. O filme segue a rivalidade entre os irmãos Amarendra e Bhallaladeva (Rana Daggubati), este último conspira contra o primeiro, levando à sua morte por Kattappa, servo fiel do reino.
Ao descobrir que seu pai foi brutalmente assassinado por Bhallaladeva, Sivudu levanta um exército para derrotá-lo e libertar sua mãe do cativeiro e seu povo da tirania de seu tio.
Influências mitológicas
O diretor do filme, S. S. Rajamouli, já declarou em várias entrevistas que cresceu ouvindo e lendo o Mahabharata (um dos dois principais textos Smriti e épicos sânscritos da Índia antiga), o Ramayana (épico sânscrito reverenciado no hinduísmo) e as lendas de Shivaji (rei e herói fundador do Império Marata). Ele queria criar uma narrativa com a força moral e estética dos épicos, mas com personagens originais.

Assim, o filme não é uma adaptação direta de um conto específico da mitologia hindu, mas é profundamente inspirado pelo imaginário épico e mitológico da Índia. O longa não apenas conta uma história de poder, herança e amor: ele evoca a memória mítica de uma civilização inteira.
Cada personagem central na trama encarna um arquétipo dos dois maiores poemas épicos da tradição indiana.
Amarendra Baahubali é o herói virtuoso, sábio e compassivo, uma síntese de Rama (do Ramayana) e Yudhishthira (do Mahabharata).

Já Bhallaladeva é o irmão ambicioso e invejoso, eco de Duryodhana, o antagonista do Mahabharata.

Devasena é a figura feminina firme, devota, mas não submissa, lembrando Sita (do Ramayana), porém com maior autonomia.

E Sivagami, a rainha-mãe, remete às matriarcas desses poemas, mulheres de poder moral que, às vezes, erram ao tentar equilibrar justiça e afeto.

A ideia do filme se baseia em uma história aleatória que o pai de Rajamouli lhe contou sobre Sivagami, uma mulher que carrega um bebê nas mãos enquanto atravessa um rio, e alguns anos depois sobre Kattappa.
Seu fascínio pelos contos de Amar Chitra Katha (editora indiana de quadrinhos baseados em lendas religiosas, épicos, figuras históricas, contos populares e histórias culturais da Índia) e Chandamama (clássica revista infantil indiana que publicava histórias mitológicas e folclóricas) alimentou ainda mais seu interesse pela história.
Cenas emblemáticas na trama
A duologia possui várias cenas com simbologias que emocionam, e com razão, porque o espectador está vendo representado, ali, o drama da alma humana diante de algo superior.

Ainda no primeiro filme, uma sequência mostra uma estátua de Bhallaladeva sendo erguida pelos escravos. A imagem do povo exausto e da opressão sendo monumentalizada é quase uma pintura viva sobre o poder que se alimenta da servidão.
A forma como Rajamouli filma, a escala colossal, o uso da música (composta por M. M. Keeravani), o ouro da estátua refletindo o sol, transforma uma cena de ação em ato ritualístico e simbólico.
Quando Baahubali surge e ajuda a erguer a estátua com as próprias mãos, rompendo a lógica da dominação, é um momento de reversão mítica: o herói devolve ao povo esperança, ainda que de forma momentânea. O gesto, ajudando os oprimidos a erguerem o peso que os esmagava, é uma figura do rei justo, que não reina sobre os homens, mas com os homens.
A cena não é apenas bonita, é um tratado visual sobre autoridade, idolatria e libertação, quase uma crítica à divinização dos tiranos, algo recorrente na história da humanidade.

No segundo filme, a sequência da morte de Amarendra Baahubali é, talvez, o ápice trágico da saga, não por ser violenta, mas por ser plena de consciência moral.
Quando Kattappa, seu mestre e servo leal, é forçado a matá-lo, não há grito, não há revolta, há aceitação e nobreza. Ele não morre como vítima: morre como rei, um rei que nunca pôde sentar no trono que era seu por direito.
Ao se ajoelhar, apoiando-se na espada, ele cumpre o seu próprio ideal de reinado: servir Mahishmati até o último instante. A postura, o olhar sereno, suas últimas palavras, “Salve Mahishmati”, emocionam não por mostrar a queda de um herói, mas por mostrar a entrega daquele que se oferece em sacrifício para restaurar a ordem.
E o gesto de não culpar Kattappa ou a rainha-mãe é o que o coloca acima de todos: ele vence o ódio pela misericórdia.
A estética como linguagem espiritual
Baahubali é uma epopeia em forma de cinema, e o que o diferencia dos filmes ocidentais contemporâneos não é apenas a estética, é a alma. O que alguns chamam de exagero é o modo indiano de lidar com o sagrado: eles não o escondem sob o verniz psicológico ou o realismo burguês, eles o celebram.

Essa grandiosidade – as multidões, os gestos, as danças, as cores – é a expressão visível de uma hierarquia invisível. A Índia apresenta em muitas produções uma consciência, mesmo que difusa, de que o mundo visível é sustentado por potências espirituais. Seu cinema não imita a aparência da realidade, ele imita o drama do ser.
O filme é construído com uma reverência estética que beira o sagrado. Cada plano é pensado como um ícone: cores, tecidos, arquitetura, gestos, tudo é simbólico.
A música e a coreografia de batalha lembram o teatro-dança clássico indiano (Kathakali, Bharatanatyam), no qual cada movimento tem um significado moral.

Rajamouli trabalha com a ideia de que o cinema pode ser o novo templo, e o espectador, o novo devoto.
Baahubali – The Epic
Em celebração aos 10 anos de lançamento do primeiro filme, diretor e estúdio se uniram mais uma vez para lançar uma nova edição de Baahubali.
The Epic reúne The Beginning e The Conclusion numa edição única, revisitando a jornada que mudou o cinema indiano. O filme estreia nesta sexta-feira (31) em cinemas do mundo todo. Confira o trailer:
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz










