Ing Lee transforma a relação com o irmão em uma HQ direta, sensível e impossível de ignorar
Ing Lee, autora e artista, revisita a própria história em João Pé-de-Feijão para contar sobre o irmão mais novo, João, desde o nascimento até os primeiros anos após o diagnóstico no espectro autista. Mais do que organizar memórias, a HQ acompanha como essa relação vai sendo construída no dia a dia, entre descobertas, dúvidas e mudanças de percepção.
Logo nas primeiras páginas, dá para perceber que a HQ não tenta impressionar nem exagerar. Não tem drama forçado nem aquela sensação de que tudo precisa ser grande o tempo todo. O texto é simples, direto e natural, e isso faz com que a leitura flua fácil, quase como uma conversa. Em vários momentos, parece que a própria Ing está ali, dividindo com o leitor coisas que ela mesma ainda está tentando entender.
E é justamente aí que a HQ cresce. Enquanto apresenta João, a história também aproxima quem lê de uma realidade que muita gente ainda conhece pouco. Sem virar explicação ou aula, Ing Lee mostra como é conviver com uma pessoa no espectro autista no dia a dia, nos detalhes, nas pequenas situações que quase sempre passam despercebidas.
Aquilo que muita gente chama de “mania” ganha outro sentido. A leitura faz perceber que existem outras formas de ver o mundo, outros ritmos, outras necessidades, e isso aparece de um jeito muito natural, sem precisar parar a narrativa para explicar tudo.
Ao mesmo tempo, a HQ também faz pensar sobre o quanto o mundo ainda não está preparado. Seja na escola, em ambientes sociais ou até em momentos de lazer, fica claro como a falta de estrutura pode dificultar experiências simples. E como pequenas mudanças, como espaços com menos estímulos ou ambientes mais acolhedores, já fazem diferença.

No centro de tudo está a relação entre Ing e João, que não é idealizada nem dramatizada. É uma relação construída aos poucos, no convívio, com afeto, mas também com aprendizado. Existe troca, adaptação e crescimento dos dois lados.
Já se ouve falar bastante da Ing Lee como uma grande artista, e essa HQ só reforça isso. Ao mesmo tempo, fica evidente que o João também é um grande artista. No Instagram da Ing é possível ver alguns dos desenhos que ele faz de vez em quando. Durante o lançamento do livro na Livraria Aigoo, no Bom Retiro, ele desenhou nos vidros da livraria, deixando sua marca ali de um jeito bem direto.
No fim, João Pé-de-Feijão é simples no texto, no sentido de não trazer acontecimentos extraordinários. E é nisso que está a sua força. Acompanhar essa história prende pela forma como tudo é mostrado, no ritmo das coisas acontecendo, sem precisar exagerar.
E talvez o mais importante seja isso: a HQ termina, mas a história não. João ainda tem muito a viver, aprender e ensinar… não só para a Ing, mas para quem passa por essas páginas e sai pensando diferente.
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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj










