Autor utiliza tragédia real para refletir sobre luto, identidade e o valor da vida
Na década de 1960, um acidente no Rio Turvo, interior de São Paulo, ceifou a vida de 59 jovens. Na época, um ônibus escolar que levava estudantes músicos de uma fanfarra caiu da ponte – tornando-se o maior acidente em número de mortes do estado. Foi a partir desse triste acontecimento que o escritor e palestrante Mario Salerno Junior construiu a narrativa de Entre Vidas, romance espírita publicado pela editora Ipê das Letras em 2025.
Na obra, o leitor acompanhará a jornada de Júnior, adolescente de 17 anos que começa a ser atormentado com sonhos extremamente vívidos. Pouco a pouco, ele descobre que os sonhos na verdade são lembranças de uma outra vida. Em uma existência anterior, Júnior fora Valdir, uma das vítimas do Rio Turvo. É então que o jovem passará a trilhar um caminho de autodescoberta, conflitos emocionais e questionamentos sobre identidade, destino e vida após a morte.
A narrativa de Entre Vidas se alterna entre passado e presente, apresentando Valdir antes do acidente: sua família, vínculos afetivos e o cotidiano no interior paulista. Por outro lado, há Júnior, que precisa lidar com as consequências de revisitar a própria morte. O livro, embora tenha inspirações no espiritismo, busca trazer uma história com reflexões universais sobre laços familiares, escolhas, propósito e a busca por sentido após o luto.
Em entrevista ao Entretetizei, Mario Salerno Junior comenta como a sua vivência em casas espíritas influenciou a sua literatura, além da importância da arte para refletirmos sobre temas sensíveis. Confira.

Entretetizei: Como foi o processo de pesquisa para reconstruir esse episódio histórico e transformá-lo em romance?
Mário Salerno Junior: Diferente do que muitos imaginam, meu processo de pesquisa não foi externo — foi interno. Eu não comecei em arquivos, jornais ou documentos históricos. Eu comecei dentro de mim. As memórias vieram de forma vívida, emocional, quase sensorial. Não eram apenas informações… eram vivências. Eu escrevi a partir do olhar de quem estava dentro do ônibus — não de quem leu sobre o acidente depois. Isso muda tudo. Porque uma coisa é reconstruir um fato histórico. Outra completamente diferente é narrar o que se sentia ali dentro.
O medo. A confusão. A surpresa. A interrupção brusca de sonhos que estavam apenas começando. Meu compromisso não foi apenas contar o que aconteceu. Foi permitir que o leitor vivenciasse comigo. Que ele sentasse naquele banco. Que ele sentisse a estrada. Que ele percebesse o clima da viagem. E que, quando o acidente acontecesse, ele não estivesse observando de fora — mas vivendo por dentro. Claro que, posteriormente, busquei confirmar dados históricos, datas e registros para respeitar os fatos.
E: Na sua opinião, qual a importância de refletirmos sobre a morte? Como a arte pode ajudar nisso?
MSJ: O livro é um instrumento poderoso. Ele atravessa fronteiras, rompe barreiras e alcança pessoas que talvez eu nunca encontrasse pessoalmente. Escrever sobre essa experiência foi uma forma de levar essa reflexão a muita gente. A morte é a única certeza verdadeiramente universal. Ninguém duvida que ela vai acontecer. Mas, ainda assim, nós evitamos falar sobre ela. E talvez o problema não esteja na morte em si… Mas na forma como entendemos a vida. Mais do que falar sobre morrer, eu acredito que precisamos falar sobre viver.
E: De que maneira sua vivência nas casas espíritas influencia sua literatura?
MSJ: Eu nasci no espiritismo. Essa foi a base que moldou minha forma de enxergar o mundo. E acredito que cada pessoa interpreta a vida a partir das experiências que viveu e das referências que recebeu. Frequentar as casas espíritas me trouxe um olhar mais amplo sobre a existência. Me ensinou a enxergar além do imediato, além do material, além do visível. Essa base espiritual não me deu respostas prontas — mas me ensinou a fazer perguntas mais profundas. E isso naturalmente se reflete no que eu escrevo, no que eu falo e até no que eu penso. Minha literatura nasce desse olhar: um olhar que entende a vida como algo maior do que um único capítulo.
E: Como é seu processo de escrita?
MSJ: Eu comecei a escrever quase por necessidade, porque sofria de insônia. Todos os dias acordava às três da manhã — e o sono só voltava às cinco e meia, justamente quando eu precisava levantar. Era um tempo que eu sentia que estava desperdiçando. Até que um dia, ao acordar, eu decidi fazer diferente. Levantei, fui para outro ambiente da casa… e comecei a escrever. Sem filtro. Sem preocupação estética. Sem julgamento. Eu deixo tudo fluir.
Ainda escrevo no método antigo: papel e caneta. Existe algo no movimento da mão que conecta pensamento e emoção de uma forma muito orgânica. Depois eu passo para o computador — já lapidando, organizando, estruturando. E então vem a terceira etapa: reescrever. Dar forma. Dar ritmo. Dar cadência. Porque escrever, para mim, é primeiro permitir que a alma fale… e depois convidar a razão para organizar.
E: Quais foram as maiores dificuldades ao revisitar uma tragédia real?
MSJ: A maior dificuldade desse processo foi que as lembranças não vieram apenas como pensamentos. Elas vieram com emoção. Com uma carga muito intensa. Era um peso grande para um adolescente de 17 anos. Não era só saber o que aconteceu. Era sentir. Sentir as conexões, os vínculos, as interrupções. Se eu não tivesse tido a base espírita que tive desde criança, talvez tivesse sido muito mais difícil organizar tudo isso dentro de mim. Mas, ao longo do tempo, fui acomodando essa história na minha própria história.
E: Que tipo de reflexão você espera que o leitor experimente ao finalizar a leitura?
MSJ: Eu espero que o leitor não apenas leia a história — mas que a vivencie. Que ele seja conduzido pela narrativa, que sinta as emoções, que caminhe junto comigo em cada etapa. Embora o livro tenha como pano de fundo a reencarnação e vidas passadas, ele não é um livro restrito a uma crença. Ele pode — e deve — ser lido por pessoas de qualquer religião, ou até sem religião. Porque a reflexão central não é sobre como morremos.
É sobre como estamos vivendo. O que estamos fazendo com essa oportunidade que recebemos? O que estamos construindo com o tempo que nos foi dado? Estamos conscientes das nossas escolhas? Essa é uma pergunta que eu mesmo preciso revisitar todos os dias. E se o leitor terminar o livro com esse questionamento ecoando na mente… então a obra já cumpriu seu propósito.
E: Como você lida com a responsabilidade de tratar de temas sensíveis como morte e espiritualidade?
MSJ: Eu encaro isso como um dever. O livro me deu uma oportunidade: permitir que minha voz ecoe através da escrita, alcançando lugares onde talvez eu nunca pisaria fisicamente. Falar sobre morte, espiritualidade e continuidade da vida não é algo opcional para mim. É necessário. Nós falamos pouco sobre isso. E quando falamos, muitas vezes falamos com medo. Eu acredito que essa conversa precisa ser ampliada. De hoje até o último dia da minha existência, eu quero estar comprometido com essa missão — levar essa reflexão por onde eu passar.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









