Autora fala sobre solidão, saúde mental e os desafios invisíveis da maternidade
A maternidade, por muito tempo, foi retratada como um território quase intocável, cercado por idealizações de amor incondicional, plenitude e realização. No entanto, experiências reais têm revelado camadas mais complexas – e muitas vezes silenciadas – desse processo, atravessadas por exaustão, solidão e ausência de suporte. Em meio a esse cenário, narrativas que tensionam esse imaginário ganham força na literatura contemporânea, abrindo espaço para discussões urgentes sobre saúde mental, sobrecarga feminina e os papéis socialmente atribuídos às mulheres.
É nesse contexto em que se insere Não Me Chame de Mãe (2025). Na trama, enquanto a pandemia de Covid-19 se alastra pelo país, a mãe de uma menina é abandonada pelo companheiro e passa a enfrentar, sozinha, uma série de desafios. Entre dificuldades financeiras, o isolamento social e o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista da filha, essa mulher se vê diante da necessidade de reconhecer a própria força e tomar decisões difíceis, cujas consequências reverberam em todas as vidas ao seu redor.

A autora Adriana Moro é enfermeira, escritora e pesquisadora, com uma trajetória consolidada na área da saúde. Pós-doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com estágio doutoral no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal, ela também possui mestrado em Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas, além de especializações em áreas como cuidados intensivos neonatais, saúde mental e acupuntura. Na literatura, Adriana apresenta um olhar sensível sobre as complexidades da vida cotidiana, e seu romance de estreia se destaca pela força narrativa e pela capacidade de provocar reflexões profundas no leitor.
Em entrevista ao Clube do Entretê, Adriana Moro compartilhou detalhes sobre o processo de criação do livro, as inspirações por trás da protagonista e a importância de abordar temas como maternidade atípica, abandono e julgamento social na literatura.

Entretetizei: Como começou a sua trajetória no mundo da escrita e em que momento você percebeu que queria seguir também pela literatura?
Adriana Moro: Minha carreira na escrita começa na infância. Sempre gostei de escrever. Escrevo poemas e histórias desde que aprendi a escrever. Mas a escrita profissional acabou acontecendo por um impulso dado por meus alunos da graduação. Eu lecionei durante 15 anos, desde o ano de 2008, no curso de Enfermagem, e sempre ensinei muito por histórias, pois sempre amei ler e escrever.
Naquela época os alunos me diziam que eu devia escrever um livro com as histórias que eu contava. O que aconteceu em 2015, durante o período de doutorado sanduíche que fiz em Coimbra (Portugal). Lá, tive a oportunidade de cursar uma disciplina de escrita criativa e também ser incentivada por minha professora da época a transformar tudo aquilo que escrevia intimamente em um livro. Foi assim que surgiu meu primeiro livro de crônicas As Meninas que Nunca Perderam a Graça, lançado em 2016, em Portugal, pela editora Chiado.
Foi esse o pontapé para começar a contar as histórias que atravessam o meu fazer profissional na saúde. O romance surge em um momento mais maduro, após o término do pós-doutorado, quando tive a oportunidade de parar e me dedicar a uma história mais longa, cujo objeto seria um assunto que me dizia respeito em primeira pessoa. Além disso, precisaria ser em formato de livro, pois os artigos acadêmicos não alcançam o público que precisavam ler sobre a solidão da maternidade. Acho que a escrita desse livro foi estratégica no que concerne a colocar na mesa o que aconteceu com mães e suas crianças durante a pandemia e o quanto todos estão adoecidos por causa disso.
E: Sua carreira na área da saúde, especialmente ligada à saúde mental, influencia a forma como você constrói suas histórias? Qual é a importância de trazer essas realidades para a literatura?
AM: Influencia muito. Muitos dos leitores que optam por esse tipo de literatura, podem não ter contato com essa realidade ou têm e, talvez, não se dêem conta disso. Quando a escrita levanta o problema, promove a discussão e o início de possibilidade de mudança, tanto individual como coletiva, acredito que a leitura possa inquietar e esse já é um começo.
E: Seu mais recente romance, Não me Chame de Mãe, já provoca impacto a partir do título. O que motivou essa escolha e que reflexão você quis despertar nos leitores desde o primeiro contato com o livro?
AM: O título me saltou aos olhos quando eu estava escrevendo a cena em que a personagem grita para não a chamarem de mãe. Ela estava exausta e era exatamente isso que eu gostaria que o leitor sentisse: a exaustão daquela mulher. Não era o objetivo escrever um livro que falasse somente sobre mães de crianças atípicas, mas, sim, da complexidade que é a vida feminina em cenários de insegurança.
E: O romance mergulha na experiência de uma mãe que enfrenta a maternidade praticamente sozinha. Como foi construir essa protagonista e desenvolver uma narrativa tão atravessada por sentimentos de solidão e abandono?
AM: Foi inquietante no início. Há muita resistência em separar a divindade da maternidade daquilo que realmente a mulher sente e até tem vergonha de falar, pois agora ela é mãe e precisa ser forte. Como se no momento em que se ganha este bebê, se recebe um bastão de força absoluta.
A personagem foi construída em camadas e como, todas nós, tem suas nuances positivas e negativas. Nem todo mundo é bom o tempo todo e foi nessa máxima que eu a construí. A protagonista foi ganhando forma principalmente durante o meu próprio puerpério, cheio de amor, mas com várias dificuldades, emoções boas e ruins. Enquanto escrevia, sentia muitas das sensações que passei para ela. E quando pensei nas dificuldades que ela passaria com a ausência de um companheiro, de uma rede de apoio – o contrário do que eu tinha –, pensei em todas as mulheres nesta situação que atendi ao decorrer da minha carreira profissional de 24 anos atendendo no Sistema Único de Saúde brasileiro.
Mas posso dizer que tomei muito cuidado para transferir ao papel a compaixão que sinto pelo ser humano em sofrimento. Ela me ajudou a escrever aquilo que é necessário sem expor. Contar isso tudo que vivi e vi, por meio da escrita, foi como um compromisso da minha parte como mãe e mulher.
E: A história dialoga com temas como maternidade atípica, ausência de rede de apoio e julgamento social. Durante a escrita, houve algum aspecto dessa realidade que mais te marcou ou surpreendeu?
AM: O aspecto que mais me marcou é o forte sentimento de culpa que as mães que recebem o diagnóstico de qualquer alteração na saúde do filho têm. Elas acabam abandonando o seu próprio cuidado para dedicar-se ao filho. Esta personagem passa pelo duplo abandono, pois abandona a si mesma como pessoa merecedora de cuidados, assim como o abandono do companheiro, que não sabemos por quais motivos a deixou.
Apesar de ser ficção, é a dura realidade que verificamos no dia a dia nos acolhimentos de saúde mental. Lá em 2006, em uma pesquisa com mulheres que receberam o diagnóstico de um filho com Síndrome de Down, já percebemos isso. As mulheres entrevistadas relataram que alguns dos companheiros as abandonaram porque elas precisam dedicar-se mais aos cuidados do filho “especial”, assim como alguns até mesmo recusavam-se a reconhecer a paternidade alegando adultério pela condição diferente da face das crianças, olhos puxados e etc.
Parecem ser situações absurdas, mas ainda vemos coisas assim acontecendo. Quando a água começa a entrar, muitos companheiros pulam do barco, inclusive sem auxiliar financeiramente a mulher e, infelizmente, o Estado ainda não tem políticas públicas suficientes e eficazes para auxiliar no cuidado dessas crianças. Consequentemente, as próprias mulheres são esquecidas nas recepções dos consultórios médicos, sendo reduzidas apenas a ser “a mãe de fulano” e ainda se culpam por isso.
E: Embora seja uma obra de ficção, o livro ecoa experiências muito concretas vividas por muitas mulheres. Em algum momento você sentiu a responsabilidade de representar essas histórias com um cuidado especial?
AM: Sim. Existe o medo de que os leitores não entendam o personagem ou que as pessoas que vivenciam a situação não se sintam representadas. Como fiz muita pesquisa para compor a personagem, além da vivência de cuidadora dessas mulheres, não queria criar um estereótipo de mãe coitadinha. Fiquei muito receosa e, até depois do lançamento, perdurou a insegurança. Somente depois que o livro começou a ser lido e os feedbacks positivos começaram a chegar, principalmente de mulheres que têm filhos atípicos, passei a ter uma sensação de dever cumprido.
E: Em Não me Chame de Mãe, a maternidade aparece distante da visão idealizada que costuma dominar o imaginário social. Você acredita que a literatura pode ajudar a ampliar ou transformar esse debate?
AM: Certamente. No momento que as pessoas se deparam com uma personagem como a que descrevi, a tendência é que gere reflexão, assim também pode melhorar no cuidado, na forma como percebemos essas mulheres em todas as esferas da sociedade. As que passam por situação semelhante também podem se reconhecer no livro e ver que não estão só, estimulando a busca por ajuda. Ganham ambos os lados. É um dos objetivos: impactar socialmente e provocar reflexão e mudanças.
E: Depois de escrever esse romance e revisitar tantas histórias de solidão, cuidado e resistência, que reflexões você espera que os leitores levem consigo ao terminar o livro?
AM: O livro é uma crítica social à redução da mulher à maternidade. Dessa forma, acredito que este livro aponta pistas de como podemos ter um olhar mais empático com as mulheres em situação de maternidade. Lendo Não Me Chame de Mãe, todos teremos contato com a falta de políticas públicas de cuidado em relação à cuidadora, repensar a falta de olhar empático para um lugar que não conhecemos e além de não ajudarmos, julgamos. Também rever o papel do homem quanto pai e a sua responsabilização no cuidado, assim como exercitar a ética e moral quando formos falar de um corpo que não é o nosso.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana









