Autora independente constrói histórias leves e emocionantes
Alessa Boreggio acaba de publicar seu mais novo romance contemporâneo: A Um Voo de Você. A escritora, que já recebeu uma menção honrosa no International Latino Book Awards (Califórnia), acumula mais de meio milhão de leituras no Kindle Unlimited. Para Boreggio, as narrativas literárias podem ajudar mulheres a enfrentarem momentos de dificuldade com coragem e leveza. Além disso, suas obras trazem histórias que acolhem, deixando a mensagem de que segundas chances são possíveis.
Em A Um Voo de Você, spin-off da série Irresistível Tentação, o leitor conhecerá Elle, uma mulher determinada e que já tem a vida toda planejada. Elle prefere levar uma vida baseada em escolhas seguras, mesmo que não sejam exatamente de acordo com seus desejos. Seu oposto é Beck, o carismático guitarrista da banda de sucesso BFour. No entanto, o rapaz usa uma máscara no palco para agradar o público, mas essa expectativa toda pode cobrar um preço muito alto.
O destino dos dois se cruza durante o Carnaval no Rio de Janeiro, dando início a um relacionamento breve, mas intenso. Elle e Beck acabam seguindo rumos diferentes, mas a ligação entre eles ultrapassará anos e fronteiras. Tempos depois, em uma cidade no interior da Itália, os dois se reencontram, mas terão que enfrentar as próprias crenças e inseguranças para viver esse amor.
“O leitor vai mergulhar na cultura italiana, em um vilarejo fictício e idílico chamado Valle di Luce, inspirado nas pequenas cidades da Toscana. É uma cidade produtora de azeite, com vida pacata, poucos habitantes, personagens icônicos, engraçados e cheios de personalidade – daqueles que parecem ter vida própria. Um lugar onde todo mundo se conhece, com seus conflitos, afetos e dinâmicas típicas de cidade pequena”, pontua a escritora.
Em entrevista ao Entretetizei, Alessa Boreggio fala um pouco mais sobre a carreira literária, desafios como autora independente e principais inspirações. Confira abaixo.

Entretetizei: Em que momento você percebeu que escrever não era apenas um hobby, mas uma possível carreira?
Alessa Boreggio: O primeiro livro que escrevi nasceu como um hobby delicioso. Era uma comédia romântica inspirada na minha própria história, sem grandes pretensões ou estrutura definida – basicamente tirar tudo da cabeça e colocar no papel de forma leve e divertida. Escrevi muito rápido, mostrei para a minha família, eles amaram, e resolvi publicar na Amazon quase como uma brincadeira.
Quando começaram a surgir os primeiros leitores e os feedbacks, algo mudou. Eu pensei: “E se eu escrevesse um livro de verdade, com planejamento, personagens bem construídos e uma intenção clara por trás da história?” Foi assim que nasceu Perfeitamente Imperfeitos, meu primeiro romance estruturado – ainda sem nenhuma expectativa de carreira.
A virada aconteceu aos poucos, conforme comecei a receber mensagens de leitoras dizendo que o livro tinha acolhido, abraçado, aquecido o coração e até ajudado a curar feridas. Ali eu entendi que a escrita podia ir além do entretenimento. Percebi que podia tocar mulheres através das jornadas dos personagens, ajudá-las a se enxergar, se fortalecer e se curar também – assim como, um dia, outras autoras fizeram por mim.
Mas a certeza absoluta de que eu estava no caminho certo veio quando Perfeitamente Imperfeitos recebeu Menção Honrosa no International Latino Book Awards, um concurso americano. Aquilo foi um divisor de águas. Não apenas pelo reconhecimento, mas por validar que uma história escrita aqui, com a minha voz e a minha sensibilidade, podia atravessar fronteiras e emocionar leitores fora do país.
A partir desse momento, escrever deixou de ser apenas um hobby e passou a ter propósito. Não era mais só sobre publicar livros ou ganhar dinheiro com isso, mas sobre o impacto que essas histórias podiam causar. Foi um caminho muito natural: a escrita foi crescendo, eu fui amadurecendo como autora, até se tornar, de fato, uma carreira – e, hoje, é algo que faço com absoluta paixão. Se eu pudesse, dedicaria 100% do meu tempo a isso.
E: Houve um livro, uma autora ou uma experiência específica que funcionou como gatilho para você se assumir como escritora?
AB: Sim, houve um livro muito específico: Leitura de Verão, da Emily Henry.
Até aquele momento, eu era uma leitora voraz – cheguei a ler mais de 80 livros em um único ano – e a leitura já tinha um papel muito importante na minha vida, inclusive para lidar com questões pessoais. Eu entendia o poder da leitura como leitora, mas ainda não como autora.
Quando li o livro da Emily, algo virou uma chave dentro de mim. Pela primeira vez, eu percebi que escrever não era um dom inalcançável ou algo reservado a “gênios da literatura”. Pelo contrário: os autores também travam, também têm dificuldades e também constroem histórias aos poucos. Através da jornada da própria protagonista do livro, eu entendi que qualquer pessoa que tivesse algo a dizer poderia tentar escrever.
Aquilo me deu coragem. Eu pensei: “Talvez eu também consiga”.
E quando me arrisquei a escrever o meu primeiro livro, a escrita simplesmente fluiu. Foi muito natural. Ali, eu percebi que existia, sim, um talento. Até então, minha relação com a escrita sempre esteve muito ligada ao mundo organizacional: escrevi TCCs, dissertação de mestrado, artigos acadêmicos… sempre com muita facilidade, mas nunca ficção, nunca romance. Quando escrevi minha primeira história, muito influenciada pela Emily Henry, foi libertador.
Depois dela, outras autoras passaram a moldar e inspirar minha escrita, como Brittainy C. Cherry, Abby Jimenez e também o lado mais leve e picante da Elle Kennedy. Cada uma contribuiu para que eu encontrasse minha própria voz como autora – emocional, acolhedora e muito conectada com quem lê.
E: Como sua trajetória pessoal influencia as histórias que você escolhe contar hoje?
AB: A minha trajetória pessoal e profissional sempre esteve profundamente ligada ao universo das pessoas. Atuei por mais de 20 anos na área de Recursos Humanos, trabalhando diretamente com comportamento humano, gestão de pessoas, crenças, valores e os fatores que moldam nossas escolhas e atitudes. Sempre estive interessada em entender o que as pessoas sentem, o que as move, o que as trava e por que repetimos certos padrões – inclusive os que nos machucam.
Ao longo dessa caminhada, fui reconhecendo muitos desses padrões não só nos outros, mas também em mim. Nos meus próprios desafios enquanto mulher, esposa, profissional, mãe, alguém que tenta equilibrar carreira, família, sonhos e expectativas. Essa vivência pessoal, somada à experiência organizacional, acabou se tornando um olhar muito natural dentro da minha escrita.
Por isso, meus livros não são apenas romances no sentido clássico. Eles não falam só de química entre personagens, nem apenas de reflexão emocional. É tudo junto e misturado. O amor está ali, claro, mas ele não é o único motor da transformação. Antes mesmo de começar a escrever, eu penso muito na jornada de cada personagem: quais são seus medos, suas crenças limitantes, o que eles precisam aprender, quais dores carregam e quais escolhas vão precisar enfrentar.
Ao longo da história, eles aprendem – e aprendem através do amor, mas principalmente através de si mesmos. Porque, no fundo, a transformação nunca vem do outro. A força já existe dentro de cada um de nós. O amor apenas ilumina esse caminho. É exatamente isso que eu busco trazer para as minhas narrativas: histórias que emocionam, mas que também fazem o leitor se enxergar, refletir e sair da leitura um pouco mais inteiro.
E: Quais escritores ou escritoras mais influenciam sua escrita?
AB: Hoje eu sou influenciada por algumas autoras que amo profundamente e que moldam minha escrita de maneiras diferentes. Cada uma delas contribui com um aspecto muito específico da forma como eu conto histórias.
A Brittainy C. Cherry tem um papel decisivo na profundidade emocional dos meus personagens. Eu costumo, inclusive, escrever enquanto estou lendo os livros dela – é quase como entrar no mesmo estado emocional. Ela me inspira a ir fundo, a não ter medo da dor, da vulnerabilidade e das camadas emocionais.
A Abby Jimenez me inspira muito pela forma como equilibra profundidade com leveza. Ela consegue tratar temas sensíveis com humor, afeto e humanidade, e isso influencia diretamente o tom das minhas histórias – eu gosto desse respiro emocional, desse sorriso no meio do choro.
Quando penso em química entre personagens, sou muito influenciada pela Elle Kennedy. A jovialidade, a troca rápida, o desejo e a naturalidade dos diálogos dela me inspiram demais nesse aspecto.
Já em termos de trama, de ritmo e de prender o leitor do começo ao fim, eu amo a Lisa Kleypas. Ela tem uma habilidade incrível de construir histórias que fisgam e não soltam.
No meu romance mais recente, A Um Voo de Você, tive uma influência muito forte da Rebecca Yarros – especialmente na estrutura narrativa que alterna passado e presente, e na forma de trabalhar Um Caso Improvável com muita carga emocional. Sou completamente apaixonada pela escrita dela, e essa inspiração aparece bastante nesse livro. Costumo dizer que escrevo cercada por essas vozes. Ler essas autoras enquanto escrevo me ajuda a manter o coração aberto, a mente criativa e a narrativa viva.
E: Quais são, na sua opinião, os maiores desafios – e as maiores vantagens – da publicação independente para autoras de romance?
AB: O maior desafio hoje para autoras independentes é, sem dúvida, a visibilidade. Você concorre diretamente com grandes marcas, grandes nomes e, principalmente, com autores internacionais já consolidados. Quando você começa de forma independente – publicando na Amazon, no Wattpad ou em outras plataformas – você praticamente não existe para o mercado. É preciso furar o algoritmo, construir público do zero e fazer com que o boca a boca aconteça aos poucos.
Nesse cenário, o autor acaba ficando muito dependente das redes sociais para ser visto. É um caminho mais lento, que exige constância, resiliência e muita paciência. As pessoas demoram mais para te conhecer, para confiar no seu trabalho e para recomendar seus livros.
Por outro lado, a publicação independente também traz vantagens enormes. A principal delas é a autonomia. O autor decide quando publica, quando retira um livro do ar, ajusta preços, muda capas, testa estratégias e promove da forma que acredita. Essa liberdade dá velocidade ao processo criativo e à carreira como um todo.
Eu vejo a jornada independente como um grande laboratório. Você erra rápido, aprende rápido e melhora rápido. A curva de aprendizado é muito acelerada justamente porque todas as decisões passam por você. Isso amadurece o autor não só artisticamente, mas também profissionalmente.
Ao mesmo tempo, acredito que, para escalar uma carreira e alcançar um público ainda maior, em algum momento é importante entrar no mercado editorial tradicional. A visibilidade que uma grande editora oferece ainda é muito relevante.
Eu sinto que hoje estou exatamente nesse ponto da minha trajetória: vindo da independência, com muito aprendizado acumulado, buscando dar o próximo passo para que minhas histórias cheguem a ainda mais leitores.
E: A Um Voo de Você trabalha com tropes muito queridas pelos leitores, como strangers to lovers, second chance e he falls first. Como você decide quais tropes usar em cada história?
AB: Na verdade, eu não começo uma história pensando nas tropes. Primeiro vem a narrativa, os personagens, o que eu quero contar e sentir com aquela história. As tropes surgem depois, quase naturalmente, a partir do que foi construído.
Como leitora voraz de romances contemporâneos, acho que a gente acaba absorvendo muito do que funciona emocionalmente nas histórias. Quando você lê bastante, passa a entender – quase de forma intuitiva – o que gera conexão, expectativa e envolvimento. E, no fim, aquilo que emociona a gente como leitora costuma emocionar outras pessoas também.
Então, meu processo é muito guiado pelo interesse genuíno: eu penso na história que mais me instiga naquele momento, escrevo com liberdade e, quando o livro está pronto, consigo identificar claramente quais tropes fazem parte daquela jornada. Elas já estão ali, só precisam ser nomeadas.
Acho que isso fica mais difícil quando alguém escreve romance sem ter esse repertório de leitura, porque pode acabar focando só na química ou só na reflexão e deixando o enredo em segundo plano. No meu caso, como consumo muito romance comercial e contemporâneo, essa estrutura acaba vindo de forma bastante natural.
Também tento não escrever olhando apenas para tendências de mercado. Meu foco ainda é escrever histórias que façam sentido para mim, que tenham verdade emocional e que eu teria prazer em ler. Depois disso, as tropes entram como uma forma de organizar e comunicar melhor essa história para o leitor – e, quando isso acontece, tudo se encaixa de maneira muito orgânica.
E: Para você, qual a maior vantagem das tropes literárias, e como escrevê-las sem cair no clichê?
AB: Eu vejo as tropes literárias quase como um norte. Elas ajudam a entender o que costuma gerar conexão com o leitor, aquilo que desperta interesse, conforto e expectativa. Mesmo eu não partindo das tropes para escrever uma história, gosto de ter esse olhar para não me perder dentro da minha própria narrativa.
A grande vantagem das tropes é justamente essa: elas criam uma espécie de linguagem comum entre autor e leitor. O leitor sabe mais ou menos o tipo de emoção que vai encontrar ali. O desafio é usar essa estrutura sem cair no óbvio.
E, para mim, a principal forma de não cair no clichê é repertório. Ler muito, consumir muitas histórias, observar o que já foi feito – inclusive dentro do próprio gênero. Eu mesma já li livros, às vezes até do mesmo autor, em que tive a sensação de estar lendo a mesma história de novo. Isso costuma acontecer quando falta repertório ou quando a narrativa segue sempre a mesma “receita de bolo”.
Eu gosto de pensar assim: se a base é a mesma, por que não mudar o recheio? Ou a cobertura? Ou até a forma do bolo? O clichê não está na trope em si, mas em repetir os mesmos caminhos, as mesmas soluções e os mesmos conflitos.
O que me move é criar aquele efeito de surpresa no leitor – o “uau, eu não esperava por isso”. É quando alguém termina o livro sentindo o mesmo calor no coração, a mesma energia positiva, mas sem a sensação de déjà vu. Eu nunca quero que o leitor pense “isso parece outro livro que já li”. Quero que ele reconheça a emoção, mas sinta que aquela história só poderia ser aquela.
No fim, acredito muito que a chave para isso está em consumir aquilo que você escreve. Ler romances, estudar o gênero e, ao mesmo tempo, se permitir ser criativo dentro dele.
E: O que você considera mais importante na construção de um romance romântico?
AB: Para mim, um romance romântico que realmente marca o leitor não é só aquele que tem química ou uma história de amor bonita – é aquele que acompanha uma jornada de transformação. Eu gosto de histórias em que os protagonistas precisam atravessar desafios reais, internos e externos, e em que o amor surge como uma força que acolhe, cura, sustenta e dá coragem.
Não acredito muito em romances que existem apenas pela química, nem em histórias focadas só no sofrimento ou na superação sem conexão emocional. O que me move é justamente o equilíbrio entre essas duas coisas. O amor precisa existir, ser intenso e verdadeiro, mas também precisa servir como um apoio para que os personagens descubram a própria força interior.
Quando estou construindo uma história, sempre penso: o que essa personagem precisa aprender? E, a partir disso, entendo qual é o papel do amor naquela jornada. Para mim, o romance não vem para salvar ninguém. Ele não é a solução mágica. Ele é o pano de fundo que fortalece, que cicatriza feridas, que oferece acolhimento – mas a transformação real acontece dentro do próprio personagem.
Eu acredito muito nisso também na vida: não podemos esperar que o outro nos salve. A força já está dentro de nós. O amor apenas ilumina esse caminho. É essa mensagem que eu sempre busco deixar nos meus livros: histórias que emocionam, mas que também devolvem o leitor para si mesmo, um pouco mais forte do que antes.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura









