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Foto: divulgação / Lorena Mossa

Entrevista | Alex Andrade fala sobre a importância da literatura entre crianças e jovens

Com um projeto de levar a leitura para escolas municipais, Alex Andrade explica como é escrever livros infanto-juvenis

Escritor e arte-educador, Alex Andrade acredita que é por meio da literatura que crianças e jovens podem compreender o mundo e a si mesmos. Além de se aventurar como escritor de livros infantis e adultos, o autor também participa de um projeto que fomenta arte, cultura e literatura em escolas municipais do Rio de Janeiro. Em 2025, Andrade mostra aos leitores a sua primeira obra juvenil: Tudo para Amar Você, cujo lançamento se dará em junho na Bienal do Livro Rio

No livro, o leitor acompanhará três jovens amigos — André, Murilo e Marcela — que estão à procura de amor e pertencimento. O protagonista, André, sente que não se encaixa em lugar algum, notadamente no campo amoroso. É aí que chega Murilo, que ostenta uma personalidade misteriosa e autêntica, causando um verdadeiro rebuliço nos sentimentos de André. Tudo se complica com a adição de Marcela, menina enérgica que provoca desejo e conflito. 

A obra celebra o amor LGBTQIAPN+, além de tratar de temas como medos, pressões sociais e descobertas. Em entrevista, Alex Andrade nos conta sobre as suas inspirações para escrever a história, e como transita entre diferentes públicos. Confira: 

Entretetizei: Qual a sua história como autor? Por que decidiu entrar no mundo da literatura?

Alex Andrade: Minha história como autor começa muito cedo, desde a infância. Sempre fui uma criança ouvinte de histórias. E como eu conto aos meus alunos, a primeira coisa que fiz ao ver um livro foi aprender a ver, para depois aprender a ler. Nesse processo, também aprendi a ouvir. Ouvi muitas histórias da minha mãe, da minha prima, e principalmente na escola. As professoras tiveram um papel muito grande em me incentivar a gostar de literatura, a imaginar como se criava uma história ou um livro.

Na adolescência, por volta dos 13 anos, comecei a rabiscar poesias, criar histórias em cadernos escolares, colando figuras e fotos de revistas para ilustrar meus textos. Ainda de forma imatura, claro, mas já era um processo criativo em desenvolvimento. Esse foi o início do meu caminho como escritor, que se misturava à minha vivência com as histórias contadas pela minha mãe e pelas professoras.

Ser escritor, para mim, é algo de suma importância. Sempre estive envolvido com livros, literatura, histórias. Hoje trabalho com educação infantil, dou aula para crianças e meu foco em sala de aula é justamente arte e literatura. Escrevo tanto para crianças, que estão ao meu redor, quanto para adultos, por meio de contos e romances. 

E: Você transita entre literatura adulta, infantil e juvenil. Como é adaptar sua escrita para diferentes públicos?

AA: Transitar entre os diferentes mundos da literatura é um processo muito comum entre os escritores. Temos escritores clássicos, como Clarice Lispector, que escreveu tanto romances adultos profundos quanto livros infantis. 

Escrever para crianças é bem difícil. Elas são um público exigente, atento, e os temas são muito sérios. Escrever para adultos também exige muito, assim como estou descobrindo agora ao escrever para o público juvenil, com o livro Tudo para Amar Você, que fala sobre um adolescente de 17 anos. Foi um convite da Editora Pé de Palavra, escrever sobre as complexidades dessa galera, e foi uma experiência incrível.

Eu acho que quando escrevemos conseguimos direcionar o público. Claro que envolve vocação também: gosto de escrever para adultos, crianças, jovens. Consigo transitar bem e fazer trabalhos distintos, com as suas peculiaridades e as importâncias que cada nicho necessita.

E: Como nasceu a ideia de Tudo para Amar Você? Houve alguma inspiração específica que motivou a escrita?

AA: A ideia nasceu de um desejo da Editora Pé de Palavra, que queria ampliar seu público para uma galera jovem, e que tivesse também uma temática LGBTQIAPN+. Eu achei bem interessante porque tem muita procura. Precisamos que esses jovens tenham espaço, sejam vistos, para que a gente consiga derrubar essa invisibilidade.

Comecei a pensar nas complexidades da adolescência, um período cheio de descobertas, sobre a sexualidade e aceitação. Um processo mais interno do que externo, que nem todos percebem. É um turbilhão de ideias, de imagens. Isso me inspirou bastante. Convivo com muitos jovens, então pesquisei, ouvi histórias, observei, estudei. 

Então surgiu essa ideia do André, um garoto de 17 anos, prestes a terminar o ensino médio, tentando sobreviver às adversidades dessa fase da vida. E no meio da companhia dos amigos e das pessoas que colocam tudo em setores — o masculino, o feminino — onde fica aquela pessoa que não se encaixa nem em um, nem em outro?

Tudo para Amar Você fala sobre identidade. Quem são essas pessoas invisíveis, como elas sobrevivem, o amor que elas sentem, porque elas não podem expressar o seu desejo. Um livro que fala sobre a descoberta do amor, seja ele qual for. É também uma história muito reflexiva. Escrever para mim foi como um resgate do passado, quando eu era jovem pensava que era único no mundo.

E: Esse livro é voltado para o público juvenil. O que você acredita que os jovens leitores vão encontrar ou sentir ao ler essa história?

AA: Acredito que os jovens vão se identificar com as questões que permeiam a juventude. Embora tenhamos avançado em muitos aspectos, ainda há uma onda que vem contra isso tudo. 

O livro fala com todos, sendo ou não LGBTQIAPN+. Ele trata do sentimento do mundo, da garotada que está se procurando. Traz personagens como a Marcela, uma menina livre e independente, mas julgada pelos próprios amigos. E aí a gente faz o público refletir: por que julgamos quem é livre e independente? Será que é porque eu tenho esse desejo também?

É uma reflexão, permeada por aventuras e diversão, não tudo tão sério. É uma leitura para ser saboreada. E acho que pode até te tornar uma pessoa melhor. 

Foto: divulgação / Lorena Mossa
E: Há algum personagem em Tudo para Amar Você que você sente ser mais próximo de você? Por quê?

AA: Sim, tem vários personagens no livro que representam o Alex adolescente e perdido. Acho que o André é um personagem muito forte, tem muito de mim. Um menino que gostava de ler, diferente do irmão mais velho. E todas as angústias que o André vive, tem muito do jovem que fui, tentando descobrir o mundo, tentando acertar e, ao mesmo tempo, errando pra caramba. 

Eu acho que a gente acaba, como escritor, trazendo muita coisa da nossa vida, mas a gente transforma de outra maneira. Nada é tão verídico assim como o leitor imagina. Então, a história não é sobre mim, é sobre o André, mas o André tem muito de mim. Talvez o Murilo também tenha muito de mim, talvez a Marcela também tenha muito do que eu gostaria de ter sido: um cara mais independente, mais livre, mais dono de si. 

Então, cada personagem traz um pouco do autor, do desejo do autor. Cada personagem tem a sua personalidade e o autor está ali só para narrar a história. E como dizia Clarice Lispector, depois que o livro é publicado e chega na mão do leitor, a autoria se torna total de quem lê. Então, acho que a partir daí, os leitores se tornam autores dessa história e vão criar, e vão imaginar, e vão ler o livro da forma deles.   

E: Como foi o processo de construção dos personagens? Você buscou referências reais, ouviu histórias de adolescentes?

AA: Eu fiz uma pesquisa muito grande, principalmente com jovens com quem eu convivo e também com as histórias que eu já conhecia, as histórias que vivi. Eu fui atrás desses jovens, fui conversar, fui perceber o sentimento, fui observando cada característica, como cada um é diferente.

E vou te falar: essa geração de hoje é uma geração muito para frente. Muito mais livre do que a minha. Então eu juntei esses dois olhares, e eu consegui trazer para dentro do livro um apanhadão de tudo isso. Esses personagens estão aí porque com as pesquisas, os estudos, as observações, e a experiência da vida, conseguimos levar-los para a história. 

Foto: divulgação / Lorena Mossa
E: Você desenvolve projetos de incentivo à leitura em comunidades e escolas. Qual tem sido o impacto mais marcante desse trabalho?

AA: Temos a Praça da Leitura, onde a gente faz uma imersão dentro da escola pública — geralmente são escolas ligadas a comunidades do Rio de Janeiro. É um público carente de literatura, de arte e, principalmente, de conversa. De bate-papo mesmo.

Quando a gente entra ali na escola e ocupa o espaço onde essa garotada se reúne — seja na hora do recreio, para jogar bola, ou até mesmo quando tem aula vaga, quando falta professor — a gente monta estandes, tendas, com gente contando histórias, uma biblioteca cheia de livros, atividades com literatura… e aí você percebe que, num primeiro momento, eles têm uma reação meio adversa. Como se a gente estivesse invadindo o espaço deles. 

Quando eles começam a participar, começam a perceber o carinho, a dedicação que a gente tem por aquilo, entendem que a gente está ali para somar — não para tirar nada deles. No terceiro encontro já é diferente. A gente já é recebido com outro olhar, com sorriso. A gente começa a ouvir: “Gostei daquele livro”, “Adorei aquela história”, “Tenho um livro em casa, comecei a ler”.

Aí você percebe que o livro, a arte, a cultura precisam estar mais presentes na vida deles, porque o que geralmente chega até eles são a violência e a tecnologia. É dessa forma que a gente conquista esse público. E essa sementinha que a gente planta, pode ser que nem todo mundo entenda agora. Mas muita gente vai perceber lá na frente. 

Isso para mim é grandioso. Eu aprendo muito com eles. Quando eu vejo o brilho no olhar dessa garotada, eu penso: “Tô no caminho certo”. Isso é tudo para quem trabalha com arte, cultura, literatura — principalmente num país onde o livro ainda não é visto como algo importante. Mas a gente segue no trabalho de formiguinha, com as escolas, com os professores, nas bibliotecas.

E: Como é o processo de criação dos seus livros infantis?

AA: É uma delícia! Porque tem muita coisa boa já feita, né? Autores incríveis como Ruth Rocha, Ilan Brenman, Eliardo França, Ana Maria Machado… Então a gente precisa buscar um outro jeito de contar as histórias.

Em meu livro novo, O Gato que Lê, que vai sair agora em julho pela Editora Mireveja, surgiu de uma proposta de escrever algo para crianças pequenas. Aí eu pensei: “Pô, vou escrever sobre um gato leitor”. Eu fui voltando nessa ideia que sempre falo para os alunos pequenos: antes de ler, a gente aprende a ver.

Então o gato anda pela casa de madrugada, quando tá tudo em silêncio, e ele sobe na estante, derruba os livros, e os livros se abrem para ele. E ele começa a ver as imagens, as figuras. Ele começa a olhar. Então primeiro ele vê, depois ele lê. A leitura é feita pelo olhar.

E ali ele encontra personagens — a Cuca, o Saci, Dom Quixote… e tantos outros personagens clássicos. Nessa proposta do Gato que Lê, a gente incentiva a criança a ler, a perceber que podemos observar, brincar com as imagens. A resposta das crianças é incrível. 

Elaborar as histórias é um processo delicado, denso e necessita muita pesquisa. A linguagem, a forma. 

O lançamento vai ser dia 12 de julho, na Livraria Alento, no Flamengo, aqui no Rio. E depois também vai estar na Bienal. 

E: Alguns dos seus contos foram traduzidos para outros idiomas. Como você enxerga essa recepção internacional da sua obra?

AA: Alguns contos meus foram traduzidos para o inglês, mandarim e o espanhol. Era um projeto de traduzir autores brasileiros contemporâneos em revistas internacionais. Para mim foi um presente, uma super divulgação do meu trabalho.

Mas o mais legal foi o processo de tradução. Eu trabalhei com uma tradutora americana que morou no Brasil, então ela falava português bem, mas mesmo assim a gente teve que conversar bastante por Skype. Porque tem palavras e situações do Brasil que para eles são completamente diferentes. A gente teve que mexer em algumas coisas. E isso foi muito legal porque descobrimos a cultura do outro povo, percebemos que o mundo é múltiplo. 

E: Para você, qual é o papel da literatura na formação de identidade e no desenvolvimento da empatia, especialmente entre os jovens?

AA: Eu acredito que a literatura tem uma importância enorme na formação da nossa personalidade, da personalidade do jovem. Eu vejo que mesmo com tudo o que se diz, que ninguém lê, vejo muito jovem lendo, procurando livros. O jovem está procurando sempre descobrir. E a literatura, ela é um leque que se abre para nós. 

A literatura está cada vez mais chegando perto desse jovem, eu fico super feliz. Essa galera está vindo com uma fome muito grande de leitura, é uma vontade muito grande de entender a si próprio e o mundo. A literatura te dá essa possibilidade de compreender as coisas ao nosso redor, ou pelo menos tentar entender. 

Viva a cultura, viva a arte e viva os jovens que estão aí sempre à procura de novidades. Leiam bastante, é o meu conselho para os jovens, para as crianças e para os pais dessas crianças. Solta um pouquinho o celular, pega um livro. A gente precisa de um país de leitores.

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Texto revisado por Simone Tesser

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