Escritor revela detalhes da trama, processo de escrita e relação com o teatro
Após o lançamento de O Primeiro Beijo Romeu (2021), Felipe Cabral está em vias de publicar o seu segundo romance: Nossa Grande Chance. Logo, se a sua primeira experiência no universo literário explorou o amor entre dois adolescentes gays, desta vez os seus personagens são adultos e, portanto, encaram outros desafios. Novamente com protagonismo LGBTQIA+, a obra seguirá uma história que perpassa duas gerações, conversando tanto com o público da geração Z quanto o millennial. Segundo o escritor, a narrativa tem muito da sua trajetória pessoal. “O livro mergulha nesse momento da vida, quando chegamos perto dos 40 e damos aquela espiada para trás, mas também respiramos para continuar a jornada”, reflete.
O livro, que chegará às livrarias no dia 9 de junho, conta como se dará o relacionamento entre Patrick — um roteirista de quase 40 anos que está sem perspectivas na carreira e com problemas financeiros —, e Junior, jovem ator de 23 anos que tem grandes sonhos.
Quando o único livro de Patrick, Os Meninos de Icaraí, recebe a proposta de ser adaptado para o teatro-musical, o autor enxerga uma oportunidade que não pode perder. A verdade é que ele precisa desta chance, já que recebeu a notícia de que a série na qual seria roteirista foi cancelada por ser “ousada demais”. Ou, em outras palavras, “viada demais”.
Em uma noite, ao utilizar um aplicativo de namoro, conhece Júnior, mas o encontro não termina bem. Acontece que Patrick já havia se envolvido com pessoas mais jovens antes, o que também não gerou bons resultados.
Então, ele opta por manter o caso no passado e não cometer o mesmo erro uma vez mais. O que o roteirista não esperava era que, nas audições para o musical, Júnior seria escalado para ser um dos protagonistas da peça. Agora, os dois estão atados e, envoltos a ensaios, saídas e produções, talvez não conseguirão escapar à faísca que centelha entre eles.
Entretetizei: Nossa Grande Chance fala sobre recomeços e crises pessoais e profissionais. O que te inspirou a escrever essa história?
Felipe Cabral: Esta história nasce do instante em que me vejo sem perspectivas futuras de trabalho e percebi que minhas economias estavam chegando ao fim. Um projeto do qual eu fazia parte foi cancelado, depois outro foi adiado, e tudo ficou sem previsão alguma. Foi duro perceber que depois de tanto tempo na estrada, eu não conseguiria mais pagar as contas e precisava pedir dinheiro emprestado aos meus pais novamente. Isso me bateu fundo na perda da independência e me soou como uma sensação de fracasso.
Patrick, um quase alter ego meu, está prestes a completar 40 anos e se vê sem dinheiro e sem perspectiva futura. Como seguir adiante? Como voltar a acreditar em si? Como sacudir sua carreira? Foi um mergulho nas minhas angústias e uma elaboração de como eu tinha chegado até aqui.
De um jeito muito surreal, tudo que escrevi no fim de 2023, quando montei a estrutura do romance, foi vivido em 2024, quase como se eu tivesse profetizado o meu futuro nessa escrita. A brincadeira entre amigos era para que eu chegasse logo na parte do final feliz para que eu também pudesse virar aquela página e celebrar a vida.
E: O protagonista Patrick está prestes a completar 40 anos e enfrenta dilemas típicos de uma geração que cresceu com outras expectativas. Como foi dar voz a esse momento da vida?
FC: Conforme escrevia, conversei com muitos amigos que estavam passando pela mesma situação. Voltando a morar com os pais, com dificuldade financeira, descrentes em suas profissões, se perguntando se precisavam tomar um novo caminho, se questionando sobre o que tinham feito de errado, inseguros e angustiados, frustrados e ansiosos. Foi triste, mas um prato cheio para a ficção, perceber que há uma geração de millennials com essas mesmas dores.
Não à toa, temos muitos livros e matérias e posts nas redes sociais sobre esse desgaste millennial, sobre essa geração do burnout. Eu brinquei com esses amigos que nem era marchan, mas que eu realmente gostaria que eles lessem meu novo livro porque a minha escrita tinha sido uma elaboração desse meu próprio momento de vida.
Eu sinto que precisamos falar mais sobre essa precariedade do mercado artístico e da cultura do país para além da ideia glamourizada que temos, que na realidade, são pouquíssimas pessoas que vivem. Os roteiristas hoje enfrentam cláusulas completamente abusivas, numa profissão com cada vez menos direitos trabalhistas, onde todo mundo é PJ e mal consegue se planejar para o futuro, quicando de um projeto para o outro, quando tem essa sorte.
E: A peça musical dentro do livro, Os Meninos de Icaraí, é uma adaptação de um livro de Patrick. Essa metalinguagem é proposital? Existe um paralelo com sua própria trajetória como roteirista e escritor?
FC: Quando comecei a falar com amigos ou em eventos literários sobre esse novo livro, quase todos me perguntavam “Mas o quanto isso é autobiográfico?”. De todo jeito, existe aqui um amor em comum com meu protagonista: o teatro. Foi onde comecei minha carreira e onde, inclusive, me aceitei enquanto um homem gay, lá em 2006, aos vinte anos.
O teatro mudou a minha vida e sempre foi um espaço onde pude contar minhas histórias com protagonismo gay. No teatro, ninguém vai censurar os meus beijos ou reclamar que tem muito personagem LGBT na história. O Patrick decide apostar tudo em sua nova peça porque ele sente que é ali que ele vai conseguir demonstrar todo seu potencial. E veja só, isso já aconteceu comigo. Em 2019, entrei em cartaz com um texto meu chamado 40 Anos Esta Noite, que veio de uma ideia original da atriz Gisela de Castro, e que se tratava de uma comédia romântica sobre famílias homoafetivas. Botei quase minha grana toda ali.
Então, o Fabio Porchat foi assistir uma sessão, adorou o meu texto e me convidou para escrever uma série e um longa-metragem com ele. Eu consegui o retorno do meu investimento, fiz novas parcerias e abri novas portas. Quando decido por colocar o meu protagonista investindo tudo que ele tem na sua própria história, sem depender de que alguma produtora invista nele ou que algum player queira produzir, é porque acredito que é desse movimento que novas portas se abrirão. Acreditando nas nossas histórias que conseguimos reforçar nossa potência. E isso abre portas para, com sorte, o dinheiro entrar.

E: Junior, o personagem mais jovem, representa uma geração diferente da de Patrick. Como foi construir esse contraste entre millennials e geração Z? Houve algum desafio ou surpresa nesse processo?
FC: Foi interessante misturar essas duas gerações na história porque na minha vida, sinto que convivo muito tempo com as duas. Sendo um millennial, estou cercado de amigos da mesma geração que, consequentemente, dialogam muito com as minhas questões. Ao mesmo tempo, eu convivo anualmente com jovens artistas, muitos da geração Z.
Assim, mais do que traçar um estudo sobre as duas gerações, quis colocar na história o que senti nesse convívio e nessa troca. No mercado de trabalho é curioso como essas gerações se comportam. Enquanto nós millennials, estamos burnoutados, mas ainda com algum orgulho de “eu dou conta!”, “eu vou cair atirando”, alguns gen Z já questionam de cara a natureza abusiva do ambiente de trabalho.
O que eu mais gostei nesse encontro dos dois personagens foi mais pelo momento de vida do que propriamente marcar as gerações. Junior está com vinte e poucos anos, cheio de gás para lutar pelos seus sonhos, enquanto Patrick já viveu muitos deles, mas agora está desacreditado em como seguir adiante. Esse contraste entre os dois é o que acaba transformando a relação da dupla e o que acaba proporcionando que ambos cresçam juntos.
E: A série de Patrick é cancelada por ser “viada demais”. Como você enxerga a relação da indústria audiovisual com histórias LGBTQIA+?
FC: Essa resposta daria uma tese (risos) e não dá para ser única. Se falarmos das séries e filmes norte-americanos disponíveis no streaming, por exemplo, o cenário e o debate é outro. São muitas opções. Mas vou olhar para o mercado brasileiro. No streaming, acho que estamos com pouquíssimo espaço, de verdade. Os projetos com protagonismo queer são em sua maioria estrangeiros e nem escutamos falar de produções nacionais LGBTs sendo produzidas.
Isso não significa que não tenhamos projetos e equipes lutando para que a gente tenha mais representatividade. Basta ver o destaque da personagem trans Camila, interpretada pelas atrizes Nila e Alice Marcone, em De volta aos 15 (Netflix, 2022), ou o romance entre os personagens de Samuel de Assis e Alejandro Claveaux em Rensga Hits (Globoplay, 2022). O público quer essa diversidade na tela e há muitas equipes trabalhando para isso.
Se formos para o cinema e os circuitos de festivais, a produção nacional com protagonismo LGBTQIAP+ é um arraso há muitos anos. Só recentemente tivemos Homem com H (2025), Sessão de Baile (2024), Baby (2024), Levante (2023), Corpo Elétrico (2017), As Boas Maneiras (2017), Sem Coração (2023), O Melhor Amigo (2013), e a lista é extensa, felizmente. Muitos destes longas, inclusive, são absorvidos para o catálogo de streaming depois que saem de cartaz, mas vale pontuar que nasceram fora deles, sem necessariamente um investimento na produção.
O caminho da produção via leis de incentivo me parece o mais promissor, e onde vemos o nosso cinema nacional com mais força e potência. Temos muitos artistas com vontade de contar nossas histórias e no cinema sinto que elas ganham o mundo com muita liberdade.
O que já muda de figura se nos voltarmos para a TV aberta e a luta constante pela representatividade queer na teledramaturgia. Beijos cortados, casais cujas tramas foram reduzidas, entre outros casos que mostram que a luta está longe de acabar. Que as equipes de roteiro escrevem tramas com personagens LGBTs, mas que muitas não conseguem ganhar o espaço e o destaque merecido por uma homofobia estrutural.

E: Música e dança parecem ter um papel importante no enredo. Qual foi a importância desses elementos para a narrativa — e para os personagens se reconectarem consigo mesmos?
FC: Eu diria que esses dois elementos estão combinados no universo do teatro musical, que é um dos corações da história. Patrick começou sua carreira como ator, aos vinte anos, e foi se frustrando com o mercado audiovisual e sua homofobia. Quando o dinheiro aperta, ele decide retomar sua paixão pelo teatro para tentar se reinventar novamente.
E é no teatro onde ele vai se apaixonar mais uma vez, pela vida e por Junior, seu jovem protagonista. O senso de equipe e o fato de que Patrick precisa reunir um time de amigos para levantarem o musical na raça, desloca um pouco sua preocupação financeira para as alegrias de se investir na sua paixão. Os ensaios e os encontros diários desses personagens no ambiente teatral reforçam a importância da arte e da cultura para o fortalecimento das redes afetivas nas nossas vidas.
E: Há sempre um toque de humor nos seus romances. Como você equilibra a leveza com temas mais densos, como frustração, solidão e insegurança?
FC: Humor e emoção para mim andam juntos. Até porque eu me vejo como uma pessoa engraçada, irônica e sensível. Faço graça para quebrar climões, ao mesmo tempo que passo horas refletindo sobre as angústias da vida. Minha forma de contar histórias, seja como ator, roteirista ou escritor, sempre foi através do humor. Eu acredito que podemos falar sobre tudo se soubermos dosar o peso com a graça.
Neste novo livro, o Patrick encara muito as suas inseguranças. Sim, vai ter um momento em que ele sofre, mas vai ter na sequência uma cena em que ele quer levantar a poeira, se encara no espelho e diz frases icônicas da Nazaré Tedesco para se sentir melhor. Eu gosto de brincar com o sorriso e a lágrima. Com o choro e o riso, como as máscaras do teatro indicam.

E: Você costuma escrever pensando já em uma possível adaptação, como série ou filme? Nossa Grande Chance parece já nascer com um pé no palco.
FC: Honestamente, não. A literatura tem sua própria linguagem e é muito libertador sentar diante daquelas páginas em branco e escrever meus personagens gays sem pensar se algum player vai contratar ou como vender aquela história para o mercado audiovisual, a priori.
Claro, seria uma alegria ver minhas histórias literárias ganhando as telas e possíveis adaptações, mas o mercado audiovisual tem outro tempo e são outros quinhentos. Eu me permito escrever o livro mergulhando na história e naquela linguagem. Mas sim, Nossa Grande Chance traz a adaptação teatral para o centro da narrativa.
Quando me propus a inserir um musical dentro da trama, queria que os leitores tivessem a sensação de que aqueles ensaios estavam mesmo acontecendo, até para que pudessem torcer para que os personagens conseguissem estrear a peça. Assim, eu – que nunca escrevi músicas – me meti de escrever as letras das músicas do espetáculo, a montar o primeiro e o segundo ato, e quando dei por mim, tinha o esqueleto de uma peça na minha frente. Então, sim, eu penso em levantar uma adaptação teatral do livro ou, pelo menos, tirar do papel Os meninos de Icaraí, que já está praticamente com todas as músicas prontas.
E: Como foi escrever este livro em comparação com O Primeiro Beijo de Romeu? Houve alguma mudança na sua maneira de criar?
FC: Foi uma experiência completamente diferente, na verdade. Eu escrevi O Primeiro Beijo de Romeu em 2020 e 2021, então foi uma escrita com o isolamento provocado pela pandemia. Os desafios de concentração eram outros. Além disso, era minha primeira incursão na literatura, após anos escrevendo roteiros e peças no teatro. De lá para cá, me senti muito mais à vontade e nesse novo livro, ao invés de separar as caixinhas da escrita, resolvi juntar tudo.
Minha forma de estruturar o novo livro e de escrever cada capítulo foi totalmente inspirada em como escrevíamos as novelas das quais fui colaborador. Ou seja, olhava minha estrutura, decidia quais eram os principais acontecimentos naquele capítulo. Depois, via quantas cenas eu precisava escrever naquele capítulo, dividia as cenas pelos dias da semana e corria para cumprir a meta diária de cenas escritas.
A história envolve o universo do teatro e do roteiro, então eu também quis mesclar essas linguagens no livro. Inserir trechos da peça, colocar cenas só com diálogos e brincar com a ideia de corte. Com uma cena se conectando à próxima de uma forma humorada, onde o leitor se sentisse pulando de um cenário para outro, sem perder o fio da meada.
E: Patrick desconta suas frustrações em encontros casuais. Como você enxerga essa busca por afeto e validação?
FC: O que mais me chama atenção hoje nas notícias e podcasts que falam sobre esse tema, é como estamos lidando com uma epidemia da solidão. Como o uso desenfreado das redes sociais transformou nossa visão de mundo e nosso modo de se relacionar. Mesmo com milhares de amigos nas redes, nos sentimos cada vez mais sozinhos.
Buscamos essa validação e esse afeto nas redes sociais, e quando mergulhamos nos aplicativos de pegação, o buraco ainda pode ser mais fundo. Porque temos a ideia de que temos muitas opções, então ficamos em busca do ideal. Não gostamos, bloqueamos. Se fomos rejeitados, bloqueamos também. É um modo muito torto de se buscar afeto e validação.
Claro, também pode ser apenas uma busca por sexo pelo sexo, e tudo ótimo. Pessoalmente, tenho preferido investir meu tempo cada vez mais nos encontros pessoais e no resgate de relações mais olho no olho, questionando mesmo o meu modo de me relacionar pelas redes sociais.
E: Qual foi a maior chance que você, Felipe, já teve na vida — e agarrou?
FC: Sem sombras de dúvida, quando recebi o telefonema da Rosane Svartman, em 2015, me perguntando se eu gostaria de integrar a equipe de colaboradores da Totalmente Demais. Mesmo com experiência no audiovisual, seria minha primeira novela, um desafio novo.
Mas um convite desses é irrecusável e, de fato, mudou minha vida. O aprendizado nesta novela e, depois, em Bom Sucesso (2019), foi a minha grande escola de roteiro. Além disso, me botou em contato com inúmeros profissionais talentosos do mercado e abriu portas na minha carreira.
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Texto revisado por Laura Maria Fernandes de Carvalho









