No livro de M. A. Bennett, quatro jovens artistas são convidados à Villa Diodati para recriar o verão que marcou a literatura gótica
Imagine ser um jovem artista e receber um convite para passar o verão na mesma mansão onde Mary Shelley concebeu Frankenstein (1818) e John Polidori escreveu O Vampiro (1819) – obra que mais tarde influenciaria Drácula (1897) e ajudaria a consolidar a literatura gótica como conhecemos. É a partir dessa premissa irresistível que se constrói a narrativa de Jovens Malditos, da autora inglesa M. A. Bennett, publicado no Brasil pela Plataforma21.

É nesse contexto que conhecemos os quatro selecionados para o programa. Vindos de trajetórias e linguagens artísticas distintas, eles chegam à Villa Diodati carregando ambições, inseguranças e visões muito particulares sobre o que é o horror e sobre o que desejam criar.
Eve é uma booktuber conhecida por discutir morte e luto com franqueza desconcertante. Griffin é um rapper que transforma violência e exclusão em versos potentes. Hal comanda um canal dedicado ao cinema de horror. Já Ren é ator e performer, obcecado por narrativas vampirescas. Cada um ocupa um quarto que homenageia figuras históricas como Polidori, Lord Byron e o casal Shelley, enquanto uma equipe enigmática garante que tudo funcione sob regras pouco claras. Rapidamente, o retiro artístico revela brechas inquietantes: há algo nas paredes, nos corredores e no silêncio constante que sugere vigilância e manipulação.

A tensão atinge outro nível durante a leitura de Fantasmagoriana, jogo criativo promovido pela Fundação Diodati que desencadeia visões perturbadoras, manifestações físicas inexplicáveis e experiências que parecem materializar medos íntimos, culpas e traumas. Quando uma visitante inesperada surge e morre misteriosamente nos arredores da mansão, a atmosfera se torna sufocante. Segredos vêm à tona, ciência e ocultismo se entrelaçam, e os jovens passam a suspeitar que o verdadeiro objetivo da Fundação talvez nunca tenha sido estimular a criação artística, mas algo muito mais sombrio.
Com uma atmosfera tempestuosa e estética marcada pelo dark academy, o romance dialoga com a tradição gótica ao mesmo tempo em que incorpora elementos do horror contemporâneo. Ao explorar temas como identidade, pertencimento, sexualidade, culpa e trauma, Bennett transforma o medo em linguagem e o corpo em território de disputa simbólica, usando o terror como ferramenta de reflexão sobre aquilo que insistimos em silenciar.

Jovens Malditos é o primeiro volume de uma duologia e é indicado para leitores que buscam narrativas intensas, personagens moralmente ambíguos e histórias que transitam entre o sobrenatural e o psicológico. A trama conversa com o público que se envolveu com produções como Wandinha (2022) e Stranger Things (2016-2025), convidando o leitor a atravessar os portões da Villa Diodati com a certeza de que, depois disso, nada e ninguém sairá ileso.
Sobre a autora

A. Bennett nasceu em Manchester, filha de mãe inglesa e pai veneziano, e cresceu em Yorkshire, região associada à tradição do gótico inglês. Estudou em quatro universidades, incluindo Oxford e Veneza, e também se dedicou às artes, atuando como designer, atriz e crítica de cinema. Atualmente, vive em Londres com o marido, dois filhos e três gatos. Seus livros já foram traduzidos para mais de 20 idiomas.
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Texto revisado por Kaylanne Faustino









