Entre minúcias da sociedade italiana e das transformações sociais e econômicas da Segunda Guerra, Elena Ferrante expõe a condição social da mulher
[Contém spoiler]
Neste último Dia Internacional da Mulher (8), mais do que nunca, questionou-se sobre o papel que nós, mulheres, estamos ocupando no mundo. Elena Ferrante, escritora italiana, é conhecida justamente por tratar em suas obras a condição e a posição social das mulheres, sendo que a narrativa mais famosa que aborda esse tema é a da série A Amiga Genial.
Também conhecida entre os leitores como a Tetralogia Napolitana, o conjunto de quatro livros retrata a história da amizade entre Elena Grecco (Lenu) e Raffaella Cerullo (Lina), nascidas na periferia de Nápoles, na Itália, nos anos 1950.
Ao longo da narrativa, desbravamos o relacionamento complicado das amigas em todas as fases da vida: infância, adolescência, quando estão adultas e, por fim, quando estão mais velhas. Mas, mais profundo que isso, Elena Ferrante expõe de forma crua um ponto crucial: o papel social que as duas personagens, enquanto mulheres, ocupam na sociedade.

Em A Amiga Genial, o primeiro livro da série, lemos o início da amizade das duas contextualizada em um ambiente machista, misógino e opressor. As mulheres são criadas para serem donas do lar, casarem e terem filhos. Elas não devem seguir com os estudos e não devem, em hipótese alguma, questionar.
Entretanto, Lina desvia do comum. A filha mais nova da família Cerullo sempre fora descrita como uma mulher diferente de todas as outras. Ela era aquela que desafiava os poderosos do bairro, a que queria ajudar financeiramente a família, a que tinha sonhos, a que falava o dialeto feio, a que queria trabalhar.
Lina, na verdade, só era diferente porque ia contra aquilo que esperavam que ela fosse enquanto mulher.
“Ela era assim, rompia equilíbrios somente para ver de que outro modo poderia recompô-los.”
Ainda no primeiro livro e seguindo para História do Novo Sobrenome, acompanhamos o casamento de Lina com Stefano Caracci, um homem que inicialmente se mostra generoso e, depois, desempenha o papel do ideal da masculinidade: a submete a diferentes tipos de abusos, não permite que ela tenha opinião, desdenha de quem ela é. Lina se apaga e se perde de todos os seus sonhos.
“Tínhamos crescido pensando que um estranho não podia sequer nos tocar, mas que o pai, o noivo e o marido podiam nos encher de tapas quando quisessem, por amor, para nos educar, para nos reeducar.”

Em contrapartida, Lenu, a amiga genial, segue com os estudos até se formar na faculdade e, ainda, se torna escritora. Mesmo conseguindo o diploma e um trabalho, algo tão difícil para mulheres e para pessoas na sua condição social naquela época, ela é sempre comparada com a amiga: “Lina tem a vida feita, ela é casada.”
Em nenhum momento na narrativa Ferrante deixa de se questionar através de Lenu: Qual o papel que eu ocupo? Qual papel eu deveria ocupar? Eu deveria mesmo ser tratada de forma inferior?
É mais detalhadamente no terceiro livro, História de Quem Foge e de Quem Fica, que acompanhamos mais de perto o desabrochar dos questionamentos de Lina e Lenu sobre suas condições perante a sociedade enquanto mulheres.
Lenu, já sendo financeiramente independente devido a sua carreira como escritora, se casa com um homem rico, tem filhos e se muda para Florença. Mesmo seguindo o que se esperava de uma mulher, ela encara o machismo dentro da sua própria casa através da descredibilização do marido e do trabalho unicamente seu de criar os filhos.
Lina, rompendo com qualquer ideal, trai o marido, se separa de Stefano, cria o filho sozinha e trabalha em péssimas condições em uma fábrica de embutidos. A partir daí, ela é vista como uma mulher que ninguém deveria chegar perto, como uma péssima influência.

Entre muitos momentos conturbados (que vale a leitura para saber mais), Lenu e Lina conseguem se tornar mulheres bem sucedidas e que despertam respeito. Entretanto, nessa jornada, sofrem inúmeros abusos apenas pelo fato de não serem homens. Não importava o quão longe fossem, no final elas seriam “apenas mulheres”.
Lenu, devido ao movimento feminista que surgia naquela época, consegue finalmente traduzir o que sentia. Ela exprime o pensamento de que, no meio acadêmico, para ter credibilidade, ela deveria pensar como um homem, dizer o que um homem acharia interessante de ouvir.
Por um momento, ela abandona seu trabalho, a escrita, em função de ser mãe, e percebe que além de ser “apenas mulher”, ela também passa a ser “apenas mãe”.
“(Deveria) Indagar sobre minha condição como mulher. Tinha me excedido, fizera um enorme esforço para adquirir capacidades masculinas. Acreditava que devia saber tudo, tratar de tudo. O que me importava a política, as lutas? Queria fazer bonito diante dos homens, estar à altura. À altura de que? Da razão deles, da mais irracional […]”
E, abordando a negação da masculinidade, devemos falar sobre a relação de ambas com Nino Sarratore, o “galã” da Tetralogia. Para Lenu, ele era seu amor ideal; para Lina, foi seu amante, que a abandonou.
Nino conquistava todas as mulheres por um simples motivo: ele as humanizava. Lenu expressa em muitos momentos que só se mostra crente de seu valor quando Nino a valida. Ele parece a antítese dos homens violentos do bairro, mas, no fundo, a violência dele é psicológica e igualmente destrutiva para ambas. Mais uma comprovação de que o homem era visto como uma figura superior mesmo quando era “bom”.

No final, em A História da Menina Perdida, entendemos que, mesmo por percursos distintos, as amigas deram os passos necessários para resistir à sociedade. Uma negando o feminino e lutando contra ele diariamente; a outra, mesmo entre tantos conflitos, tentando acolhê-lo.
Lina é vista como extraordinária por não se contentar em ser apenas mulher. Lenu é vista como a amiga genial por ocupar um lugar que mulheres, naquele momento, ainda não ocupavam.
Elena Ferrante enreda um romance histórico disfarçado de uma narrativa de amizade. Ao contar de forma tão real e explícita a vida das mulheres naquela época, a escritora coloca muitas instituições na parede, inclusive o patriarcado. E, dessa maneira, ela denuncia o que foi e o que é ser uma mulher no mundo.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana









