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Especial | Por que mulheres se apaixonam por homens literários? 

Mais do que fantasia, o fascínio pelos chamados book boyfriends está ligado ao desejo de ser vista, ouvida e emocionalmente considerada

Desde que a adaptação de Off Campus (2026) chegou às telas, uma pergunta voltou a circular entre as leitoras nas redes sociais: por que tantos personagens fictícios parecem entender mulheres melhor do que muitos homens reais? A discussão não é nova. Há décadas, leitores se apaixonam por protagonistas masculinos da literatura romântica. De Mr. Darcy, em Orgulho e Preconceito (1813), aos fenômenos contemporâneos que dominam o BookTok, os chamados book boyfriends (tradução livre: namorados literários) acumulam fãs, vídeos, edições e declarações apaixonadas. Mas o que explica esse fascínio?

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A resposta talvez esteja menos na fantasia e mais na forma como esses personagens são construídos. Quando as leitoras falam sobre seus favoritos, raramente destacam apenas a aparência física ou os elementos extraordinários da trama. O que costuma aparecer são aspectos muito mais cotidianos.

Os homens literários percebem coisas que muitas vezes passam despercebidas. Notam quando algo está errado mesmo antes de ouvir uma explicação. Lembram de conversas antigas, reconhecem mudanças de comportamento, respeitam limites e demonstram interesse genuíno pela pessoa que amam. Mais do que parceiros idealizados, são personagens que fazem suas protagonistas se sentirem vistas.

O homem ideal escrito por mulheres

Durante séculos, a literatura foi dominada por perspectivas masculinas. Em muitas narrativas, os protagonistas homens eram definidos pela coragem, riqueza, inteligência ou capacidade de conquista. O amor existia, mas nem sempre ocupava o centro da história. 

Com o crescimento do romance escrito por mulheres, especialmente a partir do século XIX e, mais recentemente, com a expansão dos gêneros romântico e new adult, surgiu outro tipo de protagonista masculino, um personagem cuja atratividade não depende apenas do que conquista, mas da forma como se relaciona.

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Não por acaso, muitos dos homens mais amados da literatura compartilham características semelhantes: eles observam, escutam, demonstram vulnerabilidade, respeitam a autonomia da parceira e estão dispostos a crescer ao longo da narrativa. Isso não significa que sejam perfeitos. Muitos carregam defeitos, traumas e comportamentos questionáveis. A diferença é que a história frequentemente os apresenta como homens capazes de refletir sobre seus erros e amadurecer emocionalmente.

O fenômeno pode parecer recente por causa das redes sociais, mas está longe de ser novidade. De Jane Austen às autoras contemporâneas que dominam as listas de mais vendidos, gerações de leitoras demonstram interesse por personagens que oferecem algo além da atração romântica: a sensação de parceria.

Muito além da fantasia

Existe uma ideia recorrente de que mulheres se apaixonam por personagens fictícios porque eles representam fantasias impossíveis, mas talvez essa explicação simplifique demais a questão. Poucas leitoras acreditam que encontrarão um vampiro centenário, um príncipe feérico ou um magnata bilionário disposto a atravessar continentes por amor. O encanto não está necessariamente nesses elementos extraordinários, mas sim no comportamento que eles simbolizam.

Esses personagens fazem perguntas e se importam com as respostas. Prestam atenção ao que a protagonista gosta, teme ou sonha. Demonstram interesse por sua vida interior. Permitem-se ser vulneráveis e enxergam o relacionamento como algo que merece dedicação.

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Ao mesmo tempo, os romances potencializam essa entrega por meio de grandes gestos. É daí que nasce a popularidade da fantasia do “he would burn the world for her” (tradução livre: ele queimaria o mundo por ela), expressão que se tornou comum entre leitores nas redes sociais. Mas a força dessa ideia não está na destruição do mundo em si, está na escolha, na disposição de agir e na certeza de que aquele personagem considera o amor importante o suficiente para lutar por ele.

No fundo, a fantasia não é encontrar alguém capaz de derrubar impérios, é encontrar alguém que considere o relacionamento uma prioridade.

O que os grandes romances têm em comum?

Quando observamos alguns dos personagens mais populares entre as leitoras, um padrão começa a surgir.

Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito (1813), continua sendo um dos protagonistas masculinos mais admirados da literatura mais de dois séculos após sua criação. Embora sua posição social tenha importância na narrativa, o que conquista gerações de leitoras é sua capacidade de reconhecer os próprios erros, rever atitudes e amadurecer emocionalmente.

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Poucas décadas depois, outro personagem conquistou admiradores por razões semelhantes. Na série de livros Anne de Green Gables (1908), Gilbert Blythe se destaca não apenas pelo afeto que desenvolve por Anne, mas pela forma como respeita sua inteligência, incentiva seus sonhos e a enxerga como igual em uma época em que isso nem sempre era esperado das mulheres.

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Em gêneros completamente diferentes, a lógica permanece parecida. Em Jogos Vorazes (2008), Peeta Mellark tornou-se um dos personagens mais queridos do universo da distopia juvenil por sua empatia, sensibilidade e capacidade de apoiar Katniss sem tentar controlá-la ou diminuir sua força. Já Augustus Waters, de A Culpa é das Estrelas (2012), conquistou leitores por sua disposição em ouvir, compreender e compartilhar vulnerabilidades com Hazel.

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No mangá Um Sinal de Afeto (2019), Itsuomi desperta admiração por seu interesse genuíno pelo mundo de Yuki. Para se comunicar melhor com ela, aprende língua de sinais e busca compreender experiências diferentes das suas, transformando atenção e esforço em demonstrações concretas de afeto.

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Os cenários mudam. Os séculos mudam. Os gêneros literários mudam. O que permanece é a valorização de personagens que enxergam o amor como algo digno de esforço, atenção e presença.

A construção social do amor

Essa diferença também pode ser observada fora da literatura. Historicamente, mulheres foram incentivadas a desenvolver habilidades emocionais. Aprenderam a cuidar, acolher, ouvir e sustentar vínculos afetivos. Já os homens, durante muito tempo, foram socializados para priorizar desempenho, independência e controle emocional.

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Embora essas dinâmicas estejam mudando, seus efeitos ainda aparecem em muitos relacionamentos contemporâneos. Talvez por isso personagens literários despertem tanta identificação: eles oferecem algo que muitas mulheres aprenderam a oferecer aos outros, mas nem sempre recebem na mesma medida.

Mais do que parceiros apaixonados, são personagens que observam, escutam, acolhem e participam ativamente da construção da relação. Em outras palavras, personagens que demonstram reciprocidade emocional.

O padrão ficou alto ou o mínimo ficou raro?

Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar brincadeiras nas redes sociais sobre homens literários terem “estragado” os relacionamentos reais. A frase costuma soar exagerada, mas talvez revele uma questão interessante. 

Afinal, o que torna esses personagens tão desejados? Na maioria das vezes, não são feitos extraordinários, são atitudes cotidianas: demonstrar interesse, respeitar limites, lembrar de detalhes importantes, apoiar projetos pessoais, comunicar sentimentos e investir tempo na construção da intimidade. Nenhuma dessas características deveria ser excepcional. Pelo contrário, elas fazem parte da base de qualquer relação saudável.

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Talvez a popularidade dos book boyfriends não indique que as expectativas românticas ficaram altas demais. Talvez ela revele que muitas mulheres passaram a reconhecer a importância de aspectos que antes eram tratados como secundários.

O que os homens literários realmente representam?

No fim das contas, o sucesso dos homens literários talvez diga menos sobre a busca por parceiros perfeitos e mais sobre um desejo profundamente humano: ser visto. Leitoras sabem que vampiros não existem. Sabem que reinos mágicos não existem. Sabem que boa parte das situações retratadas nos romances pertence ao campo da fantasia. O que elas também sabem é que atenção, cuidado, escuta e parceria existem.

Talvez seja justamente por isso que tantos personagens continuam conquistando corações dentro e fora das páginas. Não porque representem uma realidade impossível, mas porque lembram que o amor não se sustenta apenas em atração ou grandes declarações. Ele também se constrói na capacidade de perceber o outro, valorizá-lo em sua complexidade e escolher permanecer.

Foto: reprodução/Papo de cinema

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Texto revisado por Laura Maria Fernandes de Carvalho @lauramariaheart

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