Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: reprodução/Topázio Cinema

Crítica | Quinze Dias prova que histórias LGBTQIAPN+ também merecem finais felizes 

Filme dirigido por Daniel Lieff adapta o best-seller de Vitor Martins em uma narrativa sensível sobre amor, autoestima e coragem para ser quem se é

[Contém spoiler]

Adaptado do romance homônimo de Vitor Martins, Quinze Dias acompanha Felipe (Miguel Lallo), um adolescente gordo que vê nas férias escolares uma oportunidade de escapar do bullying e passar alguns dias em paz com seus livros, filmes e séries. Seus planos, porém, mudam completamente quando Caio (Diego Lira) vai passar 15 dias hospedado em sua casa. O que começa como um pesadelo logo se transforma em uma jornada de autodescoberta, amizade e amor.

Em um momento no qual tantas narrativas LGBTQIAPN+ ainda são construídas a partir da dor, da rejeição ou da tragédia, Quinze Dias escolhe um caminho diferente. O filme não ignora a gordofobia, a homofobia ou as inseguranças que acompanham seus protagonistas, mas se recusa a fazer delas o destino final da história. Há algo profundamente bonito em assistir a personagens queer simplesmente vivendo, descobrindo quem são e se permitindo ser felizes.

Foto: reprodução/Papo de Cinema

Grande parte desse encanto está na forma como Daniel Lieff traduz o universo interno de Felipe para a tela. A narrativa frequentemente mergulha em sua imaginação, utilizando referências cinematográficas e momentos lúdicos que transformam seus pensamentos em parte da linguagem visual do filme. Essas escolhas não existem apenas para embelezar a narrativa, elas ajudam o público a compreender quem Felipe é quando ninguém está olhando. Através das fantasias românticas, devaneios e referências à cultura pop, o filme constrói um retrato afetuoso de um adolescente que encontra na ficção um refúgio para suportar uma realidade muitas vezes cruel.

E a realidade realmente foi cruel com Felipe. O roteiro acerta ao mostrar que as feridas deixadas pelo bullying permanecem mesmo quando os agressores não estão por perto. As constantes piadas autodepreciativas feitas pelo protagonista revelam alguém que internalizou muitos dos insultos que ouviu durante anos. Felipe não apenas acredita que os outros o enxergam de forma negativa, ele próprio passou a repetir essas ideias para si mesmo, ainda que faça terapia com a personagem de Olivia Araujo

Foto: reprodução/AdoroCinema

É justamente por isso que a relação com Caio funciona tão bem. O romance é construído com delicadeza, humor e uma sensação constante de descoberta. Não se trata apenas de dois garotos se apaixonando, mas de dois jovens aprendendo a enxergar a si mesmos de outra maneira. Aos poucos, Felipe começa a perceber que pode ser mais do que as palavras cruéis que ouviu durante toda a vida. Ao ser visto com carinho por alguém que admira, ele passa a questionar a imagem negativa que construiu de si mesmo.

Já Caio vive uma jornada diferente, mas igualmente emocionante. Enquanto Felipe busca acreditar no próprio valor, Caio precisa encontrar coragem para existir plenamente. O personagem carrega o peso de permanecer escondido dentro do armário, reprimindo partes importantes de quem é por medo da rejeição dos pais, interpretados por Mariana Santos e Silvio Guindane. Conforme sua relação com Felipe se fortalece, ele começa a compreender que alguns sentimentos são bonitos demais para serem escondidos. O amor deixa de ser algo a ser temido e se transforma em motivo para enfrentar seus próprios receios.

Miguel Lallo e Diego Lira sustentam essa trajetória com uma química extremamente natural. Os dois convencem tanto nos momentos de romance quanto nas cenas mais leves e engraçadas, criando uma dinâmica divertida, carismática e genuinamente encantadora. O filme entende que o amor adolescente é feito de olhares demorados, constrangimentos, piadas bobas e descobertas inesperadas, e seus protagonistas conseguem transmitir tudo isso com enorme autenticidade.

Foto: reprodução/Omelete

Outro aspecto interessante do roteiro é a maneira como ele brinca com as aparências. Durante boa parte da história, Felipe acredita conhecer exatamente quem Caio é. Popular, leitor de fantasia, jogador de futebol, fã de videogames e aparentemente seguro de si, ele parece se encaixar perfeitamente no estereótipo do garoto hétero inalcançável

No entanto, conforme a convivência avança, novas camadas começam a surgir. Caio ouve Lady Gaga, demonstra interesse por moda, mantém uma amizade com suas amigas lésbicas Beca (Mika Soeiro) e Melissa (Bel Moreira), e exibe pequenas características que desafiam a imagem que Felipe havia construído dele. Quando a revelação finalmente acontece, ela funciona como um importante ponto de virada para a narrativa e para o próprio Felipe, que percebe o quanto havia reduzido Caio a uma série de suposições. 

O filme lembra que pessoas raramente cabem nos rótulos que criamos para elas. E, de forma bastante simbólica, Felipe – que passou a vida sendo julgado pela própria aparência – acaba percebendo que também estava enxergando Caio através de estereótipos. 

Foto: reprodução/AdoroCinema

A excelente trilha sonora entende exatamente quem são seus personagens. Nomes como Jão, Duda Beat, Marina Sena, ANAVITÓRIA e Billie Eilish estão presentes, fazendo com que a trilha sonora acompanhe cada etapa da aproximação entre Felipe e Caio com uma naturalidade impressionante. Ao mesmo tempo, a presença de artistas como Pabllo Vittar, Liniker e Johnny Hooker e Romero Ferro e Reddy ajuda a construir um universo cultural reconhecível para muitos espectadores LGBTQIAPN+, o que fortalece a sensação de pertencimento que permeia toda a narrativa. Não são músicas escolhidas apenas para preencher silêncios: elas dialogam com os sentimentos dos personagens e ajudam a transformar momentos já emocionantes em cenas memoráveis. 

A marcação dos dias é um dos recursos mais criativos do longa. Surgindo nos lugares mais inesperados, a contagem do tempo se integra ao tom leve e imaginativo da narrativa sem jamais parecer artificial. Mais do que situar o espectador, ela reforça uma ideia que atravessa toda a história: não é o tempo que determina a importância de uma relação, mas a intensidade com que ela é vivida. Afinal, para algumas mudanças, 15 dias bastam. 

Foto: reprodução/Omelete

Se existe uma ressalva, ela está no desenvolvimento do núcleo familiar de Caio. A presença da homofobia através da figura de sua mãe e a indiferença do pai estabelece um conflito importante para a narrativa, mas acaba recebendo menos aprofundamento do que merecia. A resolução relativamente rápida dessa questão transmite a sensação de que faltaram algumas camadas para explorar um tema tão complexo. 

Se o núcleo familiar de Caio deixa a sensação de que poderia ter sido mais explorado, o mesmo não pode ser dito da relação entre Felipe e sua mãe. Débora Falabella entrega uma Rita carismática, divertida e extremamente afetuosa, construindo uma personagem que foge dos modelos tradicionais de maternidade sem perder o acolhimento característico da figura materna. Mãe solo, artista e cheia de personalidade, Rita incentiva o filho a ocupar o mundo sem pedir desculpas por quem é.

Foto: reprodução/O GLOBO

Mais do que uma mãe, ela se apresenta como uma parceira de vida para Felipe. Os dois compartilham piadas internas, confidenciam segredos e cultivam tradições que ajudam a tornar a casa um espaço de pertencimento. Das quartas-feiras dedicadas aos musicais ao hábito de interpretar as mensagens deixadas pela avó através dos biscoitos da sorte, o filme constrói um ambiente doméstico repleto de afeto. 

Em um longa que fala tanto sobre encontrar lugares seguros para existir, a casa de Felipe se torna uma das representações mais bonitas dessa ideia. Não apenas pelos cenários aconchegantes ou pelos objetos que revelam a personalidade de seus moradores, mas pela relação genuína de carinho, respeito e amizade construída entre mãe e filho.

Portanto, a maior qualidade de Quinze Dias é entender que histórias LGBTQIAPN+ não precisam provar sua relevância através do sofrimento. Existe valor em narrativas sobre resistência, mas também existe valor em histórias sobre felicidade. Ao colocar dois jovens no centro de um romance doce, divertido e repleto de afeto, o filme oferece ao público algo que ainda é raro: a oportunidade de sonhar.

Quinze Dias deixa o coração quentinho porque entende que representatividade não é apenas mostrar pessoas queer sobrevivendo ao mundo. É também permitir que elas amem, sejam amadas e tenham finais felizes. E, às vezes, isso é exatamente o que precisamos ver.

O filme estreia nos cinemas brasileiros em 18 de junho

Pretende assistir esse filme no cinema? Compartilhe com a gente através das nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se você gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!

 

Leia também: Quinze Dias ganha trailer e promete emocionar os fãs do livro

 

Texto revisado por Kalylle Isse

plugins premium WordPress

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!