Autora revela como a vida na cidade, a poesia e a observação do cotidiano influenciam sua escrita
Para Fabiana Grieco, a poesia pode surgir em qualquer lugar: em um vagão de metrô, em um olhar trocado entre desconhecidos ou nas pequenas experiências que atravessam o cotidiano. É desse olhar atento para os afetos, os encontros e as transformações da vida que nasce a sua escrita.
Jornalista, escritora, professora universitária e mãe, Fabiana é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Sua produção literária transita entre a poesia, a literatura infantil e a comunicação, sempre guiada pelo interesse em compreender as relações humanas e as múltiplas formas de sentir e narrar o mundo.
É autora dos livros de poesia Bom Amar (2025), Aquela que Vejo pelo Espelho (2024) e Uma Mãe Melhor do que Eu (2023), obra traduzida para o espanhol. Também publicou cinco livros voltados à infância, entre eles Colar de Contas (2019), selecionado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo para integrar o acervo de escolas e bibliotecas da Rede Municipal de Ensino.

Na área acadêmica, é autora de obras dedicadas ao jornalismo e à comunicação contemporânea, conciliando a pesquisa, a docência e a criação literária. Em seus livros, temas como maternidade, desejo, identidade feminina e vida urbana aparecem com delicadeza e profundidade, revelando uma autora que encontra poesia tanto nos grandes acontecimentos quanto nos instantes mais simples do dia a dia.
Em entrevista ao Clube do Livro do Entretetizei, Fabiana falou sobre o processo de criação de Bom Amar, as inspirações por trás da obra, a influência da vida urbana em sua escrita e a forma como temas como maternidade e afeto atravessam sua produção literária.
Entretetizei: Bom Amar nasce a partir de encontros e observações no metrô de São Paulo. Em que momento você percebeu que essas experiências poderiam se transformar em poesia?
Fabiana Grieco: Comecei a escrever os poemas de Bom Amar logo após voltar da 22ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2024. Naquele momento, não escolhi cenário ou espaço físico. O metrô acabou despontando como um espaço do encontro de maneira quase inconsciente, pois, para mim, representa esse local dos encontros e desencontros da metrópole, com troca física e simbólica.
Ademais, gosto do metrô de São Paulo. Moro perto de uma estação de metrô da linha azul e, sempre que posso, utilizo esse transporte. Percebi que estava contando uma história pela poesia e, quando me dei conta, tinha escrito cerca de 80 poemas sob uma mesma perspectiva, tratando de um casal que se conhecia nesse meio de transporte.
E: A canção Fullgás, de Marina Lima, aparece como uma das inspirações para Bom Amar. O que nessa música conversa com a essência do livro?
FG: Fullgás tem tudo a ver com Bom Amar. Primeiro, existe uma relação direta com Antonio Cicero – importante poeta, filósofo e irmão de Marina Lima –, que faleceu em 2024, na Suíça, por meio de uma eutanásia. Tal acontecimento mexeu comigo, não somente pela ausência, mas pela lucidez e força das ideias em escolher partir com dignidade, tal como o próprio Cicero declarou.
Desse modo, prestei uma homenagem a ele: “Em memória do poeta Antonio Cicero/que viveu e morreu na liberdade e no amor”. Na esteira da morte do Cicero, brotou a música escrita por ele e por Marina, de modo que a canção embala os três atos do livro e, em um determinado poema, indico que o casal está sendo embalado pelo álbum homônimo da cantora: “na agulha Marina/eu não sei dançar tão devagar”. O título é um recorte de um trecho de Fullgás e esse diálogo com a canção vai além da escolha em termos de referência pessoal, mas propõe uma retomada do zeitgeist dos anos 80, período marcado pela redemocratização e busca pelas liberdades políticas e individuais.
E: A protagonista vive um momento de redescoberta afetiva ao decorrer dos poemas. Você acredita que a literatura ainda fala pouco sobre o desejo feminino depois da maternidade?
FG: Acredito que o desejo feminino, principalmente depois da maternidade, é um tema a ser explorado na literatura, como o é na sociedade. Apesar disso, a ideia de tratar o desejo depois da maternidade não busca preencher um lugar na literatura ou levantar uma bandeira sobre a necessidade de se falar do desejo feminino, pois não tive essa intenção no momento da escrita de Bom Amar. Os contornos da minha poesia são muito sutis e acabo escrevendo/trazendo pautas que me atravessam pela vivência como protagonista da minha história e pela escuta ativa de mulheres da minha faixa etária.
Vale dizer que a protagonista se permite viver um caso, que prefiro deixar em aberto para o público decidir se foi um caso vivido ou inventado ou, ainda, se foi um caso de amor ou desamor. A partir de determinados recursos que utilizo na poesia, deixo essa abertura para estimular o leitor a pensar nessa mulher que, muitas vezes, se ocupa integralmente da maternidade: o que acontece com o desejo daquela que se torna mãe?
E: Existe algum poema de Bom Amar que tenha sido especialmente difícil ou libertador de escrever?
FG: Não diria que tenham sido difíceis de escrever, mas os poemas do Ato II foram os mais desafiadores, porque fogem da maneira como costumo criar. Naturalmente, algo me acontece ou me atravessa de tal sorte que me leva a pegar o caderno de anotações ou o bloco de notas do celular, o que me leva a escrever os poemas. Com Bom Amar, não vivenciei essa experiência de escrever sobre fatos do cotidiano, pois a narrativa nasceu como ela quis, ininterrupta e irrecusável. Os poemas vinham em sequência, um atrás do outro, contando uma história que não era a minha, mas que eu precisava contar. Escrevi em pouco menos de uma semana cerca de 80 poemas que nasceram por pura insistência e sobre os quais não raciocinava muito. Por essa razão, retratar um casal que se bagunça entre lírios e orquídeas foi instigante e, de algum modo, incomum.
E: O metrô aparece não apenas como cenário, mas como espaço simbólico de conexão e imaginação. O que mais te fascina nos encontros anônimos da vida urbana?
FG: A vida na cidade grande me rende muita poesia. Vivo em São Paulo desde que nasci e gosto de andar pela cidade, conhecer lugares novos, explorar os estabelecimentos a pé e manter um senso de curiosidade de turista em minha própria terra. Reconheço que os encontros anônimos nesse cenário me causam absoluta fascinação. Cruzo com muitas pessoas com as quais troco olhares e palavras, em expressões corriqueiras como “bom dia” e “obrigada”, e, com outras, converso mais longamente por conta da situação. Nesse contexto de vivência na metrópole, o metrô é um dos espaços mais convidativos para trocar ideias sobre o cotidiano ou a vida. Aliás, durante o mestrado em Comunicação e Semiótica, que cursei entre 2005 e 2007, estudei o trabalho do antropólogo francês Marc Augé, que cunhou o termo não-lugar. A proposição de Augé me arrebatou, pois trata dos espaços marcados pela transição e rápida circulação, como nas estações de metrô, nos pontos de ônibus, nas salas de embarque e desembarque dos aeroportos. Esses encontros anônimos nos não-lugares, dos quais podem surgir amizades, amores ou nada disso, me estimulam.
E: Bom Amar é dividido em três atos – Despertar, Entrega e Conexão. Como você pensou essa estrutura e o crescimento emocional da personagem ao longo dos poemas?
FG: Publiquei três livros de poesia. Todos eles são organizados em três partes. Isso é curioso. Tenho uma atração natural pela ordem das três partes, o que dialoga com a ideia de que o três é um número mágico, ligado à harmonia e ao equilíbrio. Essa lógica se faz presente na tríade semiótica, na santíssima trindade, no “o início, o fim e o meio”, como diria Raul Seixas. Enfim, é uma construção corriqueira em diversas esferas. Nessa onda, o três conta da aproximação, do envolvimento e de um depois, que a gente não sabe se é um término ou permanência. O crescimento emocional ocorre ao longo dos poemas e o leitor só consegue compreender melhor a protagonista no Ato III, quando a aproximação já aconteceu e existe uma reflexão sobre o enlace e seus personagens. É como acontece, muitas vezes, na vida: o fenômeno e os protagonistas se mostram somente depois do fato. O que vem antes é uma suposição.
E: Referências literárias como Grande Sertão: Veredas aparecem ao longo da narrativa. Quais autores ou obras mais influenciaram a construção desse livro?
FG: Tudo o que escrevo tem a ver com o meu repertório. O que leio, o que escuto, o que vejo e o que vivencio transborda vividamente em minha produção textual. Grande Sertão: Veredas é a obra que alinhava esses leitores-protagonistas, pois ele já tinha lido e ela está lendo um exemplar daquele livro, que segura enquanto está no metrô. Para além dessas duas menções diretas, a obra de Guimarães Rosa e a canção de Marina Lima e Antonio Cicero, acredito que a escrita de Bom Amar traz a magia da qual fala Adélia Prado, minha poeta favorita, e a linguagem mais direta da Ana Cristina Cesar, por quem tenho profunda admiração. Por fim, creio que a produção poética do próprio Antonio Cicero, com seu ritmo e beleza para tratar dos afetos na vida urbana, tem bastante influência.
E: Como foi construir uma narrativa contínua dentro de um livro de poemas, mantendo, ao mesmo tempo, a autonomia de cada texto?
FG: Não me pareceu difícil escrever Bom Amar porque os poemas vieram com muita veemência. Ao mesmo tempo, percebi que havia neles um fio condutor que foi se estabelecendo logicamente. Veio o encontro de uma mulher com um rapaz, depois o lugar do encontro, a maneira como se deu o encontro, depois o romance e, na sequência, o desfecho. Escrevi com a liberdade da poesia e, ao mesmo tempo, havia uma cadência nas ideias que acabou contando uma história.
E: Sua trajetória passa pela poesia, literatura infantil e comunicação. De que forma essas diferentes experiências dialogam com a escrita de Bom Amar?
FG: Escrevo textos acadêmicos e histórias para crianças que exigem construções próprias, textos em formatos específicos e determinados níveis de linguagens. Contudo, a minha linguagem existencial é a poesia. Sempre escrevi poemas em cadernos e agendas e passei a buscar formas de publicar minha poesia somente em 2018, ano em que minha filha nasceu.
Nesse sentido, a poesia é uma forma de escrever, mas também uma maneira de ver o mundo. Vejo poesia em tudo e esse tudo em Bom Amar se traduz como o amor entre dois adultos que se conhecem por acaso e se aventuram em um lance que é um devir, um possível, um talvez. Acredito que Bom Amar tenha nascido porque queria dizer algo sobre o desejo feminino na maternidade, mas não só. A obra é um convite à experimentação, uma vez que os protagonistas não têm nome e qualquer pessoa pode vivenciar um acontecimento próximo ao que acontece no livro e, de algum modo, experimentar o sentir, que é, para mim, o grande propulsor da poesia.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana









