Gabriela Zambiazi fala sobre Durou um Momento, Não Teve Fim, seu romance de estreia, e revela como transformou traumas geracionais, violência contra a mulher e memórias familiares em literatura
Apaixonada por livros, Gabriela Zambiazi começou a escrever ainda na adolescência. O ofício da escrita, no entanto, ficou paralizado por cerca de dez anos, já que a autora, formada em Direito, optou por outros caminhos profissionais. Nos últimos anos, Zambiazi voltou para a literatura e finalizou seu primeiro romance: Durou um Momento, Não Teve Fim, que será publicado no dia 6 de julho pela editora Todavia.
Zambiazi, que aborda violência doméstica e traumas familiares em seu romance de estreia, destaca a importância da literatura para nomearmos dores e romper silêncios. “A literatura é, em primeiro lugar, esse estudo do que é humano em toda a sua profundidade. Então, a partir do momento em que a gente entra em contato com aquilo que é um espelho, isso nos permite ver várias possibilidades de futuro sem que tenhamos que necessariamente vivenciá-las”, explica.
Qual é a história de Durou um Momento, Não Teve fim
Durou um Momento, Não Teve Fim é um livro ambientado entre o interior e a capital de Minas Gerais. A obra se desdobra sobre a história de três gerações de mulheres: avó, mãe e filha. Desse modo, o livro discorrerá sobre as consequências de décadas de violência, bem como as cicatrizes compartilhadas entre membros de uma mesma família.
Nele, o leitor conhecerá a jornada de Magda, jovem ambiciosa que, na década de 1970, vive no vale do Jequitinhonha e almeja mudar-se para Belo Horizonte. Ao conhecer César, médico e 20 anos mais velho, acredita que um casamento será a concretização de seus sonhos. Pouco a pouco, porém, o marido mostra-se um homem possessivo e controlador. Anos depois, Amélia precisa enfrentar a verdade sobre a sua família enquanto enfrenta o luto pela mãe, Iraci. Iraci, logo antes de morrer, deixa um único pedido: Magda, avó de Amélia, estava proibida de comparecer no funeral.
Em entrevista ao Entretetizei, Gabriela Zambiazi comenta sobre os caminhos que a levaram ao seu primeiro romance, principais referências literárias e detalhes sobre a construção narrativa. Confira:
Quem é Gabriela Zambiazi? Conheça a autora de Durou um momento, não teve fim
ENTRETETIZEI: Qual a sua trajetória como autora e com a literatura?
Gabriela Zambiazi: É interessante porque não é uma trajetória, eu acho, muito comum. Eu escrevi desde criança mesmo, principalmente na adolescência – aquela fase em que você é super dramático e precisa fazer muitos poemas sobre o quanto o seu crush não te ama de volta. E a literatura em si, começando um pouco antes, porque eu acho que tudo começa dela: eu leio desde que eu me entendo por gente.
Eu acho que essa é a minha característica principal. A Gabriela é aquela que está com o livro debaixo do braço andando para todos os lados. E a escrita veio muito como uma extensão disso, uma vontade de brincar também, como: “Eu também quero fazer parte disso, eu também quero inventar”. E quando eu estava na minha adolescência, eu tinha muita certeza de que eu ia ser escritora. Eu escrevia contos de ficção científica, umas coisas muito loucas.</span>
Acabou que, na época da faculdade, eu fiz Direito e me afastei totalmente. Foi uma coisa que eu acabei colocando nessa caixinha do “era um sonho de infância, é uma coisa que não é possível, que não é para mim”. Eu ainda lia, ainda continuei com essa paixão muito grande pela literatura, mas muito nesse lugar do que a literatura é para mim, que também é um fugir da realidade, é uma dissociação: “Eu preciso ir para outro lugar”</span>. E o livro sempre foi para mim esse outro lugar, esse escudo entre eu e o mundo. E a escrita é o contrário: a escrita é um aterramento, é um estar muito dentro de você mesmo, que era uma coisa que passou a me assustar demais.
No início de 2024, me veio essa coisa muito intensa de “é agora, eu preciso colocar para fora”. Estava passando por várias questões pessoais e profissionais. Enfim, eu acho que tudo ao redor também foi me direcionando para isso, para essa necessidade de permitir que isso saísse de mim finalmente. E aí eu escrevi o livro, foi a primeira coisa que eu escrevi.
E: E quais foram as leituras e autores que mais te formaram como escritora e que talvez tenham ecoado no primeiro livro?
GZ: Eu não sei o quanto diretamente outras leituras ecoaram, mas indiretamente eu consigo ver ali, na fiação da minha escrita, muito daquilo que eu amava ler. Eu adoro Madame Bovary, de </span>Gustave Flaubert, então certamente tem alguma coisa disso ali.
Jane Austen, com essa coisa dos personagens e o cotidiano deles, e como por debaixo tem toda uma questão social que você vai entendendo a partir da leitura. Mas brasileiros, eu diria Carla Madeira, com certeza. Eu me lembro de ler primeiro Tudo é Rio, mas depois os outros, e pensar que eu queria voltar a escrever.
Quando um escritor lê outro, pelo menos a minha experiência, existem duas reações. Uma é pensar que nunca vou escrever, porque eu nunca vou conseguir acessar isso que essa pessoa está fazendo. Eu não sou boa o suficiente. Mas também tem um outro tipo de admiração, que é quando você lê algum outro escritor e pensa: “Eu também quero”. Me tocou num lugar tão gostoso que eu também quero participar com você. Para mim, a Carla Madeira foi isso.
E: E a Carla Madeira chegou a ler o seu livro. Como foi isso para você?
GZ: Completamente louco. Parece muito que estou vivendo um filme. Não esperava que fosse uma possibilidade. Na época da editora, de a gente pensar em quem queria ler, eu falei: “Não vou nem falar o nome dela, quem sou eu na fila do pão?”. E a minha editora sugeriu e acabou que deu certo. Ela é de Belo Horizonte também e eu sou de BH; o livro se passa fortemente em BH. Então, além dessa questão de eu ter sentido que a escrita dela convocou a minha escrita, tem também uma questão geográfica que para mim foi muito importante.
Eu lembro que ficava sem dormir enquanto ela estava lendo, pensando: “Gente, talvez nesse exato segundo a Carla Machado esteja lendo o meu livro”, e com muito medo de ela não gostar. Mas eu acho que ela gostou.
E: E a questão da paisagem influencia também na história?
GZ: Com certeza. Eu gosto de brincar que sou a eterna viúva de BH, porque sou mineira, de Belo Horizonte, mas saí da cidade pela primeira vez quando tinha 13 anos, quando saí da casa da minha mãe e fui morar com os meus avós no sul da Bahia, em Itabuna. Foi uma época em que senti muita falta de Belo Horizonte. Volto aos 15 e, logo que me formei na faculdade, vou embora de novo. Essa saudade, essa coisa com BH está muito latente em mim, e acho que é por isso que continuo escrevendo histórias lá, porque é uma maneira de continuar na cidade.
Eu fiz muita questão de trazer a cidade para dentro das personagens. Tem uma personagem específica, que é a Magda, que é de Capelinha, uma cidade do Vale do Jequitinhonha, e ela se muda para BH; ela tinha muito essa vontade de capital. Então, a cidade vista pelos olhos dela é uma coisa que eu gostei muito de trabalhar, que foi muito divertida para mim, porque é a forma como eu continuo vendo BH também, através desse olhar de criança meio apaixonada e que sente falta de tudo isso.

E: E como nasceu a primeira ideia do livro?
GZ: Por um lado, eu escrevi o livro de uma vez, muito rápido, porque sinto que estava escrevendo ele muito tempo antes de ele ser escrito. Tem todo esse meu contexto pessoal que acho que foi sedimentando a história em mim, mas, de forma mais explícita, lembro que era Natal de 2023, eu estava na fazenda da família do meu marido e estava tendo uma crise de ansiedade. Eu estava com o celular na mão e me veio a cena dessa personagem, que é a Amélia, uma das personagens, e é uma cena muito forte do livro. Ela é uma criança passando por uma situação intensa ali, e eu escrevi essa cena, uma cena pequena. Daí o livro nasce, porque comecei a me perguntar como algo como isso pode acontecer com essa criança, o que precisaria ter acontecido para que essa cena que me veio fosse possível.
O livro inteiro é essa investigação de tudo que vem antes, de tudo que dura um momento, mas que não termina e que acaba desabando muito intensamente nessas outras gerações. Achei que o livro era sobre a Amélia no primeiro momento, mas não consegui escrevê-la. Tive que começar lá atrás. Apesar de a primeira personagem que se apresentou para mim ter sido ela, nesta cena intensa, eu escrevi totalmente de forma cronológica. Começo com a Magda, que é a avó, nos anos 70, e tive que ir me contando mesmo, descobrindo essa história a partir da Iraci, que é a mãe, para poder chegar nessa neta e entender enquanto escrevia: “Foi por isso que isso aconteceu”, ou “Foi nesse contexto que foi possível que algo como isso acontecesse”.
E: E o que você sentiu quando percebeu que a história agora era um livro de verdade, que não era só uma ideia, que as pessoas iam consumir e ler o que você tinha escrito?
GZ: Desespero. Não, eu sou dramática, perdão. Muito feliz, claro. Tem essa coisa do objeto livro como algo que você segura nas mãos, que consegue ver, folhear e tocar, que é a consolidação do sonho. É pensar em mim, essa criança que fugia muito para a literatura, que precisava desabar na palavra muito nova, e entender que foi possível que ela conquistasse isso.
Mas, para mim, é uma sensação muito ambivalente, porque junto com esse prazer, tem um medo muito grande de estar no mundo. O meu livro existe para além de mim, essa história agora não está mais sob o meu controle. Essas personagens vão estar no mundo, vão ser pegas por outras mãos, vão ser lidas com outros olhos e vão se transformar em muitas coisas que não necessariamente são o que eu criei. E eu quero ver isso, mas também tenho um medo, porque vou ser vista através disso.
E: E o romance acompanha três gerações de mulheres, gerações que foram marcadas pela violência, pelo silêncio. Para você, por que era importante contar essa história a partir dessa perspectiva tanto familiar quanto feminina?
GZ: Eu acho que diz muito do meu lugar como pessoa no mundo mesmo. Eu venho de um contexto familiar feminino muito intenso e que passou por questões muito violentas e fortes. Mas, na verdade, quando comecei a olhar para o mundo, percebi que não era uma questão minha. Conversando com a minha mãe, com a minha avó, mas também com as minhas amigas, com as mães das minhas amigas, com toda essa rede de mulheres ao redor, é uma experiência coletiva nossa. A forma como a mulher existe na sociedade mudou e tem mudado há muito pouco tempo, e não deixa de ter efeitos na gente.
Então, acho que passe dessa coisa muito pessoal, da experiência de vida que eu tive sendo uma mulher crescendo na família em que cresci, com as situações específicas pesadas pelas quais nós passamos, mas também ao olhar ao redor e pensar: “Opa, isso não diz só de mim, isso diz, na verdade, de todas nós”. E enquanto a gente não reconhecer que essas coisas continuam acontecendo e que a gente carrega muito do que as nossas mães viveram e do que as nossas avós viveram, eu acho que vai ser muito difícil de a gente conseguir passar para essas próximas gerações o quanto isso ainda está perto e, na verdade, o quanto isso ainda está presente.
Especificamente no momento em que estamos agora, em que tem se romantizado muito uma certa versão do que é ser mulher, do que é ser feminino e do papel que a gente tem que ter, se a gente por um segundo parar de olhar para tudo isso que veio antes, é muito fácil se deixar tomar por essa fantasia que nunca foi real.</span>
E: Você fala bastante de dor, de sofrimento, mas também há essa possibilidade de rompimento de ciclo. Eu queria saber se você acredita que a literatura tem esse poder de ajudar as pessoas a nomearem certos tipos de violência, talvez até imaginar alguma saída?
GZ: Eu acho que a literatura tem todos os poderes e, ao mesmo tempo, nenhum, no sentido de que depende muito da pessoa que está fazendo a leitura. A literatura é, em primeiro lugar, esse estudo do que é humano em toda a sua profundidade. Então, a partir do momento em que a gente entra em contato com aquilo que é um espelho, isso nos permite ver várias possibilidades de futuro sem que tenhamos que necessariamente vivenciá-las. E isso certamente abre portas para que a gente repense, e eu espero que o livro faça isso também.
Nessa ambivalência que, acho que o próprio título diz muito: Durou um Momento, Não Teve Fim, pode ser um trauma, pode ser esse momento violento que ecoa e se perpetua, mas pode ser também a cura, isso que permanece e que pode ser retransformado e ressignificado de várias outras formas. Então, eu acho que sim, ela pode. Ela não vai fazer isso sozinha nunca; depende muito de quem está olhando e de como estamos olhando para isso.
E: E qual foi a parte mais desafiadora de publicar o seu livro?
GZ: Engraçado, acho que vou dar uma resposta que não é muito esperada. Escrever a história foi difícil pessoalmente, mas não diria que foi desafiador, porque foi uma coisa que eu precisava fazer. Difícil seria não ter escrito a história naquele ponto; ela se impôs muito a mim. E até o processo de conseguir a editora, surpreendentemente – não é o normal –, aconteceu com muita tranquilidade. Foi muito uma coisa que “era para ser“, aparentemente, sem querer trazer para o misticismo, porque eu sei que não é isso.
O mais difícil foi a espera, porque eu assinei com a editora em abril ou maio do ano passado, e o meu livro foi definido só para o segundo semestre deste ano. Então, eu passei mais de um ano com essa coisa que eu sabia que ia acontecer, mas que não estava ainda acontecendo. Passei muito tempo escrevendo muito intensamente, muito loucamente essa história, vivendo com essas personagens.
Eu não estava esperando por essa “parada”, o que foi ótimo, na verdade, porque me permitiu existir com essas personagens num parêntese que era só a gente ali. Consegui pensar muita coisa mentalmente, comecei a trabalhar em um outro projeto, mas foi a parte mais difícil para mim. Eu sou muito ansiosa, gosto muito de que as coisas aconteçam rápido, não tenho muita paciência para os resultados acontecerem, e foi um exercício mesmo de paciência muito grande até agora.
E: E você não é escritora em tempo integral. Você tem outras frentes de trabalho. Como foi conciliar a escrita do romance com esses outros lados da sua vida profissional?
GZ:<span style=”font-weight: 400;”> Eu não conciliei. Aqui também é uma coisa que eu sei que foi um privilégio muito grande. Como eu disse, eu escrevi o livro em um momento em que estava passando por várias turbulências pessoais, decidi sair do escritório e parei de trabalhar com Direito, então passei realmente o ano focada no livro. E isso só foi possível porque sou casada, meu marido é maravilhoso, ele sabia que era um sonho, uma vontade minha muito grande, e acreditou muito antes de mim. Ele tinha certeza de que ia dar certo enquanto eu achava que estava doida.
Eu parei de trabalhar com o Direito nesse ano, muito nessa ideia de que seria um sabático, de que eu estava me afastando para viver isso, porque precisava viver isso, para a minha saúde mental. Mas, assim que acabei o livro, me veio esse segundo projeto no ano passado, acabei emendando e, este ano, com o lançamento, foi quando me permiti reconhecer que, na verdade, não pretendo voltar para o Direito. Estou nessa entre-fase, não sei como vou vivenciar as coisas, até porque não se vive de literatura hoje no Brasil, a gente sabe disso. Mas tenho tido esse privilégio de viver essa experiência muito intensamente, o que não é a realidade da maior parte das pessoas. Tem sido gostoso e muito louco, porque aí eu fico completamente obcecada com esse outro mundo o tempo em dia.
E: Já que é a sua estreia na ficção, o que essa experiência te ensinou sobre você mesma como autora?
GZ: Acho que me ensinou que eu sou uma escritora. Eu não sabia disso antes, não tinha como saber. Era essa vontade muito nesse lugar de “é um sonho de infância”, e, a partir do momento em que escrevi e que as coisas foram acontecendo, percebi que está tudo bem eu me permitir e sonhar coisas completamente absurdas, porque pode ser que dê certo, e, se não der, tudo bem também. Me ensinou a ter uma coragem que eu nunca tinha tido na minha vida. Eu não tinha ainda tomado as rédeas das minhas decisões até o momento em que decidi escrever esse livro.
Eu diria que não tive muita escolha em relação ao meu curso, ao meu trabalho, ao que fiz, até o momento em que aceitei que, na verdade, eu era uma escritora e que precisava colocar essas histórias no mundo, e que teria que bancar isso para o bem ou para o mal. Dando certo ou dando errado, era uma coisa que eu precisava fazer. E o livro me ensinou que tudo bem bancar isso. Quando você está em contato com aquilo que entende que é o seu propósito, quando não está o tempo todo resistindo à própria vontade para atender à vontade do outro, as coisas na verdade ficam mais leves – não mais fáceis, nunca mais fáceis, mas definitivamente mais leves.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









