Baseado em um massacre real que aconteceu na Turquia, o longa mostra como o medo e a fé podem ser gatilhos para a violência
Em 2009, a Turquia testemunhou uma tragédia quando uma família invadiu um casamento e assassinou 44 pessoas com armas de fogo. Entre as vítimas do massacre, crianças e mulheres também foram mortas. Segundo a mídia local, o motivo do sangrento ataque era uma rixa entre vilarejos.
Rivalidades que chegam a ser fatais não são algo incomum no sudeste da Turquia. Mas, vendo um caso tão extremo, o diretor, cineasta e doutor em história, Emin Alper, se perguntou: “Como as pessoas podem agir coletivamente dessa maneira?”
Foi buscando essa resposta que começou o roteiro de Salvação. O longa chegou aos cinemas brasileiros na última quinta, 2 de julho, com distribuição da Pandora Filmes, e mostra os mecanismos por trás de um massacre motivado politicamente no núcleo de um clã na Turquia.

Reconhecido no Grande Prêmio do Júri na Berlinale 2026, o filme explora como a violência se escala até se tornar um evento trágico. Aqui, partimos da visão do grupo terrorista desde o começo do conflito, mostrando que um massacre se inicia nos pequenos detalhes: rumores, trocas de farpas, brigas por terras.
Hazeran e Bazeri são vilarejos vizinhos que vivem em constante tensão. Por meio de boatos e conversas clandestinas, os moradores de Hazeran passam a acreditar que a comunidade vizinha está planejando invadir suas terras, e o medo começa a se espalhar pelo povoado.
À medida que o terror coletivo toma conta da região, o sheik que lidera Hazeran se mostra incapaz de conter as emoções da população e acaba perdendo a credibilidade diante de seus seguidores. Enquanto sua liderança é colocada em xeque por não conseguir proteger o vilarejo, ao menos na percepção dos moradores, seu irmão, Mesut, passa a ser enxergado pelo vilarejo como um enviado divino, destinado a conduzir e proteger a comunidade.
Salvação funciona porque não apenas mostra os gatilhos que levam um povo a acreditar que é certo cometer tal atrocidade. O longa leva o espectador a adentrar nos devaneios mais profundos e obscuros do vilarejo, usando elementos místicos, sonhos e contatos com o sobrenatural. Esses detalhes são importantes, pois mostram que as justificativas pela violência surgem e se fortalecem no campo imaginário.

Quando o filho de um dos aldeões começa a agir de maneira estranha, a comunidade passa a acreditar que a criança foi possuída para transmitir a voz do divino ao povo. Além disso, o diretor aposta constantemente em elementos sombrios para construir a atmosfera do filme: sustos, uma fotografia escura, além de uma trilha sonora que alterna entre o silêncio e sons inquietantes. O conjunto desses recursos cria, em quem assiste, uma sensação permanente de tensão e medo.
Isso é importante porque são justamente essas emoções que motivam os personagens e vão tirando a sua humanidade até que eles entendam que conseguem, e devem, assassinar uma aldeia inteira. Acompanhar essa história pela perspectiva do grupo responsável pelo massacre revela como um líder com boa oratória, a fé dos seus seguidores e o medo do grupo inimigo podem levar pessoas comuns a acreditar profundamente nas ideias mais extremistas.
O líder, retratado quase como um salvador da pátria, consegue conquistar o povo de tal maneira que, em muitos momentos, não é possível entender o que é real e o que é influência dele no psicológico das pessoas. Os sonhos coletivos, por exemplo, realmente aconteceram ou são apenas uma projeção dos sonhos de Mesut? O filme nunca oferece uma resposta definitiva, sugerindo que a força da crença coletiva pode ser suficiente para transformar uma visão individual em uma verdade compartilhada.

Vivido por Caner Cindoruk, Mesut consegue liderar uma comunidade apenas por meio de palavras, declarações, rezas. A religião une os moradores e, graças às pregações do protagonista, transforma-se em um instrumento de incentivo à violência.
A espiritualidade aparece no longa como um elemento central. O filme mostra o poder que a fé tem de levar as pessoas para lugares extremos, acreditando estar seguindo uma orientação sagrada. Por isso, a religiosidade é mais presente do que as próprias cenas de violência: o foco de Salvação não está no massacre em si, mas na construção do pensamento coletivo que se espalha entre os personagens e torna o horror possível.
Tanto que, na cena final, quando de fato é mostrado o massacre, a cena até assusta. É um excesso de brutalidade que se distingue do resto do filme justamente por chegar nessa extremidade. É o ápice da radicalização construída ao longo da narrativa.
Apesar de situado em uma região remota da Turquia, Salvação reflete um cenário atual e global. É possível enxergar aqui um discurso que continua a se propagar em diversas regiões do mundo até hoje. Justamente por isso, a obra se mostra tão contemporânea e facilmente identificável pelo público, que reconhece nela conflitos e tensões ainda presentes na sociedade.
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Texto revisado por Luana Chicol










