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Imagem: reprodução/Instagram @daianabroniczak

Entrevista | Daiana Broniczak explica como os K-dramas influenciam a moda e o consumo

Daiana Broniczak analisa como os figurinos, personagens e produtos dos K-dramas transformam referências culturais em desejos de consumo

Deixando de ocupar apenas um espaço de nicho e passando a fazer parte do cotidiano, a cultura sul-coreana vem tomando espaço ao redor do mundo com suas músicas, séries, beleza e moda. Entre o sucesso dos K-dramas e K-pop, a moda coreana chamou atenção do público pelo seu estilo cotidiano que se expressa através das roupas.

Esse impacto também pode ser percebido no Brasil. Além de acompanhar as produções, o público também se inspira e se influencia pelo estilo, tendências de consumo e produtos usados pelos artistas e personagens.

Para entender mais sobre a relação entre moda e Hallyu (a chamada Onda Coreana), o Entretê conversou com Daiana Broniczak, uma especialista em cultura sul-coreana e sua influência no consumo, para entender melhor como essa tendência vem se tornando uma referência de moda.

Foto: reprodução/Instagram @daianabroniczak
Entretetizei: Para começar, gostaria de saber o que te atraiu para consumir o Hallyu e como isso te influenciou depois?

Daiana Broniczak: O primeiro passo foi a curiosidade quando namorei um coreano, ele me mostrou mundo, e mesmo tendo também descendência asiática, junto com polonesa e alemã, depois virou um caminho sem volta.

O Hallyu tem essa capacidade de apresentar uma cultura de um jeito muito visual, muito envolvente. Você começa pelo K-drama, vai reparando nas roupas, na maquiagem, nos lugares, na música… Quando percebe, está pesquisando uma marca coreana às duas da manhã. No meu caso, isso também mudou meu olhar para a moda: passei a enxergar o styling como uma forma de demonstrar personalidade e contar uma história, e não só de “estar bem vestida”.

E: Como você definiria a expansão da Hallyu e a influência dos K-dramas para a moda cotidiana?

Day: Eu acho impressionante que a Hallyu deixou de ser uma tendência de nicho e virou uma linguagem global. E os K-dramas têm uma participação enorme nisso, porque colocam a moda dentro da narrativa de uma maneira muito natural. Você não está vendo um catálogo de roupas, está vendo um personagem vivendo e isso faz a gente pensar: “Eu preciso dessa blusa para viver essa experiência também”. Aos poucos, elementos que pareciam muito específicos da estética coreana começaram a entrar no cotidiano de pessoas do mundo inteiro.

 

E: Para você, qual foi o personagem de K-drama que mais te impactou, não só pela história, mas também pelo seu visual?

Day: Essa é uma pergunta perigosíssima para quem ama K-drama, porque escolher um só é quase uma prova de resistência emocional. Mas a Ko Moon-young, da série Tudo Bem Não Ser Normal tem um figurino com muita personalidade e que ajudava a reforçar quem ela era: poderosa, excêntrica, sofisticada e completamente dona de si. Eu gosto quando a roupa não está ali só para deixar a personagem bonita, mas funciona quase como uma extensão da sua personalidade.

O que mais me impacta nela é justamente o fato de não tentar ser “normal”, e eu me identifico muito com isso. Seu estilo é ousado, marcante, cheio de personalidade e impossível de passar despercebido. Mesmo quando trabalhei como modelo, sempre tive uma relação muito forte com esse lado mais fashionista e provocador da moda. Gosto de roupa que comunica alguma coisa, que chega antes de você e diz: “Sim, eu escolhi estar assim”. A Ko Moon-young tem essa liberdade de não se vestir para agradar, e acho isso muito poderoso. Afinal, se é para ser lembrada, que seja pelo look também, né?

 

E: Como o figurino dos personagens é usado pelos K-dramas para construir todo o enredo dele?

Day: O figurino é praticamente outro personagem. Ele pode mostrar uma mudança de fase, uma transformação emocional, uma posição social ou até uma relação de poder sem precisar de uma única fala. Às vezes você percebe que o personagem está diferente antes mesmo dele perceber. E isso é muito inteligente visualmente. A roupa conta uma história paralela e, muitas vezes, a gente está tão entretido com o drama que nem percebe o quanto está sendo conduzido por ela.

Foto: reprodução/ Instagram @daianabroniczak
E: Qual gênero de K-drama você acha que traz mais impacto para a moda? Por quê?

Day: Acho que os romances e os dramas contemporâneos têm um impacto enorme, porque existe muita identificação. Você olha para a personagem e pensa: “Isso eu usaria para sair, trabalhar, encontrar minhas amigas… ou pelo menos gostaria de usar”. Já os dramas de época têm uma influência mais estética e conceitual. Mas o contemporâneo consegue transformar uma tendência em desejo de consumo com muita facilidade.

 

E: Como funciona a relação entre moda e entretenimento sul-coreano para o público internacional?

Day: Funciona porque existe uma integração muito forte entre entretenimento, beleza e moda. O público não consome apenas uma série; ele acaba entrando naquele universo. Quer saber quem é a marca da roupa, qual é a maquiagem, qual produto a atriz usou, onde comprar… É uma experiência muito mais ampla. E as redes sociais potencializam tudo isso, porque uma cena pode virar referência de moda em questão de horas.

 

E: E como esse efeito está chegando ao Brasil?

Day: O brasileiro é muito receptivo a referências culturais que conseguem criar conexão emocional, e a Hallyu fez isso muito bem. Aqui, a gente já percebe influência nos looks, na maquiagem, nos cuidados com a pele, nos cabelos e até na forma de consumir conteúdo. E tem uma coisa muito brasileira nisso tudo: a gente pega a referência coreana e dá o nosso tempero. Não é simplesmente copiar; é adaptar para a nossa realidade.

 

E: Quais tendências de moda ou beleza coreana você percebe que ganharam mais força entre os fãs brasileiros nos últimos anos? 

Day: Na beleza, os cuidados com a pele ganharam muita força, principalmente essa ideia de olhar para skincare como parte da rotina e não apenas como algo feito quando a pele “dá problema”. Na maquiagem, vejo bastante interesse por uma aparência mais leve e luminosa. Na moda, peças mais minimalistas, sobreposições, alfaiataria e acessórios delicados também conquistaram espaço. E claro: tudo que aparece em um K-drama corre o risco de virar objeto de desejo.

Imagem: reprodução/Instagram @daianabroniczak
E: Você acredita que um produto usado por um personagem pode gerar mais desejo de consumo do que uma publicidade tradicional? Por quê?

Day: Com certeza, porque existe uma diferença enorme entre alguém dizer “compre isso” e você ver aquele produto inserido na vida de um personagem que você gosta. A narrativa cria desejo antes mesmo da publicidade acontecer. Você cria uma conexão emocional com aquela personagem e, de repente, o produto passa a carregar um pouco daquela personalidade. É quase uma publicidade que entra pela porta dos fundos e quando você percebe, já está pesquisando onde comprar.

 

E: Para quem começou a se interessar pela moda através da Hallyu, o que você recomendaria como dica? Seja K-drama, influencers, ou coisas nesse estilo.

Day: Eu diria para começar observando, e não tentando reproduzir tudo imediatamente. Assista aos K-dramas prestando atenção nos detalhes: styling, acessórios, cabelo, maquiagem, combinação de cores. Depois, procure criadores de conteúdo que falem sobre moda e cultura coreana. E principalmente: adapte as referências para quem você é. Moda é repertório, não uniforme. Você pode amar uma estética coreana sem precisar sair de casa parecendo que acabou de desembarcar de Seul.

 

E: Além das roupas, quais elementos do visual dos personagens mais influenciam o público: acessórios, cabelo, maquiagem ou cuidados com a pele?

Day: Acho que cabelo e maquiagem têm uma influência muito imediata porque são elementos que conseguimos incorporar mais facilmente no nosso dia a dia. Mas o skincare ganhou um espaço enorme porque mudou a conversa sobre beleza: existe uma valorização maior do cuidado e da preparação da pele. E os acessórios são aquele detalhe perigoso, você vê um personagem usando um brinco ou uma bolsa e, cinco minutos depois, já está procurando algo parecido.

 

E: Se você tivesse que explicar por que os K-dramas conseguem influenciar o modo de se vestir e o consumo do público, o que diria?

Day: Porque eles não vendem apenas uma roupa ou um produto; eles vendem uma história, uma personalidade e uma sensação. A gente se identifica com os personagens, acompanha suas transformações e começa a incorporar pequenas partes daquele universo na nossa própria vida. Acho que esse é o grande segredo: a moda aparece dentro de uma experiência emocional. No fim, você não quer apenas o casaco que a personagem usou, você quer um pouquinho da confiança, da atitude e da vida que aquela personagem parecia ter usando aquele casaco. E aí a Hallyu ganhou o jogo.

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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