Em conversa com o Entretê, o autor conta como fantasia e realidade se misturam enquanto dois pais precisam lidar com o luto
Cinema e literatura sempre andaram juntos e, nesse momento, se tornaram uma ótima dupla para falar sobre um assunto tão importante: a infância.
Recentemente, a obra Elefante foi publicada pela Editora Patuá e logo chamou a atenção por conta de uma coincidência. Tanto as páginas do livro quanto as cenas presentes no filme que representará o Brasil no Oscar 2027 possuem dois garotinhos negros e chamados Gugu como protagonistas.
Em Feito Pipa (2026), filme que participará da corrida para o Oscar, Gugu é um menino que vive com a avó Dilma no sertão cearense. Mas quando a saúde da avó se fragiliza, surge a possibilidade de que ele precise deixar aquela vida e morar com o pai. A partir disso, o público acompanha sua rotina diante da ameaça de perder o cotidiano, os vínculos e o lugar que reconhece como casa.
Já o Gugu de Elefante tem apenas sete anos e, apesar de viver uma infância atravessada pelo afeto familiar ao lado de POC, seu elefantinho imaginário, nada disso é suficiente para impedir a violência urbana que ocorre em seu entorno. A história do livro se desenvolve entre o mundo concreto e uma floresta onde fantasia e realidade se encontram, permitindo que a imaginação se transforme em uma forma de elaborar aquilo que nem sempre pode ser compreendido pela razão: a infância interrompida para uma família que vai ter de lidar com essa dor.
São histórias diferentes, mas ambas mostram como a infância não é uma experiência única. Há crianças que enfrentam a possibilidade de perder a casa onde cresceram. Outras precisam lidar com a doença de alguém que amam. Algumas convivem cedo demais com a separação, o abandono, a violência ou a ausência. E existem aquelas que encontram na imaginação uma maneira de continuar habitando o mundo quando a realidade se torna difícil demais.
Em entrevista ao Entretetizei, o autor de Elefante conversa sobre infância, a dor do luto e como as crianças possuem um mundo pronto para ser explorado. Confira!

Entretetizei: O que te levou a criar o Gugu como protagonista de Elefante? O que esse personagem representa para você dentro da história?
Josué: Gugu nasceu de uma inquietação muito profunda diante das infâncias que são interrompidas antes que possam chegar à fase adulta e, posteriormente, à velhice. Eu queria falar sobre uma criança, mas não queria construir uma história sobre uma criança que sofre. Queria que Gugu tivesse família e um lar saudável, com pais que o amassem muito e que pudesse viver em um ambiente relativamente seguro para desenvolver sua imaginação, desejos, afeto e curiosidade, mas que pudesse também expressar a alegria e o medo, bem como sua maneira própria de olhar para o mundo. Por isso, Gugu tem sete anos e vive cercado pelo amor de Guilherme e Joshua, seus dois pais, e pela amizade com POC, seu elefantinho imaginário.
Todavia, quando sua história começa a ser apresentada para os leitores, Gugu já não está presente fisicamente. O que existe no plano material da narrativa é a ausência dele e tudo aquilo que permanece através da memória, do amor e da imaginação. Para mim, Gugu representa justamente isso: uma infância que foi interrompida, mas que não desaparece completamente. Ele continua existindo naqueles que vão continuar amando-o e também na imaginação daqueles que lerem o livro. Talvez seja essa a maior força do personagem: Gugu não vive mais no plano terreno, mas sua história se recusa a deixá-lo desaparecer.
E: O Gugu de Elefante e o Gugu de Feito Pipa partem do mesmo nome, mas aparecem em contextos diferentes. Você enxerga algum diálogo entre as duas obras ou entre as formas como elas representam a infância brasileira?
J: A coincidência do nome foi o ponto de partida, mas o que me interessou foi perceber que, por trás dela, existia uma possibilidade muito maior de diálogo. Os dois Gugus são meninos negros, mas vivem experiências completamente diferentes. Um vive com a avó, no sertão cearense, e enfrenta a possibilidade de perder o cotidiano e o lugar que reconhece como casa em Feito Pipa. O meu, de Elefante, passa a habitar as memórias de seus dois pais depois que sua infância é interrompida pela violência. Isso me fez pensar que não existe uma única infância brasileira. Existem muitas infâncias, atravessadas por diferentes territórios, vínculos, condições sociais, afetos, medos e sonhos. E acho importante que a literatura e o cinema consigam mostrar justamente essa diversidade.
O diálogo entre as duas obras, para mim, está menos na coincidência dos nomes e mais no fato de que as duas obras colocam uma criança no centro da narrativa e permitem que ela seja vista como sujeito de desejos, conflitos, imaginação e sentimentos. A criança não está ali apenas para servir à história dos adultos. Ela é a própria história.
E: Memória e infância parecem ocupar um lugar importante na obra. Como as suas próprias experiências ou memórias influenciaram a construção da história?
J: A memória está muito presente em Elefante, mas ela não aparece apenas como lembrança de um passado individual. Ela também está relacionada àquilo que uma sociedade escolhe lembrar e àquilo que corre o risco de ser esquecido. Como explico no colofão, a escrita do livro foi atravessada por histórias reais de crianças e adolescentes que tiveram suas vidas interrompidas. João Pedro Mattos Pinto e Miguel Otávio Santana da Silva estão entre essas memórias que me acompanharam durante a construção da narrativa. Essas histórias não são reproduzidas direta ou literalmente em Elefante, mas foram importantes para as perguntas que deram origem à obra. Também me interessava pensar na memória como uma forma de permanência.
Na literatura, o mote de escrita para Elefante encontra uma aproximação possível com aquilo que os gregos antigos chamavam de nostos, ou “retorno ao lar”, como acontece na jornada do herói Odisseu (ou Ulisses) no épico A Odisseia. Não por acaso, nostos está na origem de palavras como nostalgia, nostálgico e nostomania. E, quando observamos a palavra nostalgia em sua composição [nostos + algos], encontramos essa relação de “retorno ao lar” com algos, que está associado à dor e pode ser encontrado em palavras como analgesia ou analgésico, que retiram ou aliviam a dor, bem como nas diversas algias que usamos para designar diferentes doenças com sintomas dolorosos, por exemplo, nefralgia, mialgia, lombalgia, artralgia etc.
De modo representativo na obra: “Como começar pelo começo, se o fim é um evento maior que o próprio início? Se antes do elefantinho já existem segredos, e há o pressentimento e uma música que ninguém mais sabe tocar? Só ele. E, se esta história ainda não caminha, passarei a andar. Contar é um fato. Imaginar, um presságio. Os dois juntos – caminhando em minha direção – tentam alcançar o menino-elefante com palavras que me escapam (…) A história que lhes conto não começa aqui, nem termina nas minhas palavras. É a história do que não deve ser e, no entanto, é. Sou um dos pais do menino-elefante, que um dia desafiou o destino e aprendeu a voar. Eu, agora, escrevo, porque tudo que me resta é acontecer (explosão!)” (p. 11-12). Esse retorno ao lar, portanto, não é necessariamente um acontecimento feliz ou tranquilo. Ele carrega as dores do caminho e toda a experiência acumulada durante a jornada. Assim como em A Odisseia, o retorno de Odisseu é marcado por percalços e perdas e, sobretudo, pela necessidade de retornar a uma Ítaca e a uma população que já não o reconhece, seja porque não se lembra mais dele, seja porque as gerações que se sucederam à sua partida nunca o conheceram antes.
Em Elefante, Gugu é falecido quando a história começa e só pode retornar para casa por meio das memórias de Guilherme e Joshua. Assim como no épico de Homero, em que os acontecimentos anteriores ao retorno efetivo de Odisseu chegam até nós por meio da memória e da narrativa de sua jornada, em Elefante é através da memória que os pais têm de Gugu que sua presença pode continuar existindo. É também por meio dessa memória que conto como uma pessoa não desaparece simplesmente porque deixou de estar fisicamente entre nós. Gugu permanece naquilo que foi vivido, no amor que recebeu e no amor que continua sendo cultivado por aqueles que ficaram. Nesse sentido, aquilo que permanece – o amor cultivado – também é uma forma de memória.
E: O livro aborda temas como afeto, pertencimento, violência e proteção das crianças. Como foi escrever sobre questões tão delicadas a partir da perspectiva de uma criança?
J: Elefante não é escrito sob a perspectiva de uma criança, rigorosamente falando, porque Gugu não está mais presente fisicamente no momento que sua história é narrada. Ele já é falecido, por isso a obra é contada de um adulto para uma criança, simulando, mais ou menos, como pais fariam com seus filhos à noite, por exemplo. Então, de modo mais preciso, são os pais de Gugu que contam essa trama, tendo Guilherme como seu principal narrador.
De modo ilustrativo: “Na “caixinha” que nosso filho carrega, o peso familiar da lanterna, do pão, da garrafinha de água e do caderno de desenhos pressiona seus braços. Ele pensa em pegar o caderno, desenhar aquilo, mas essa ideia lhe parece estranhamente fora de lugar. Tudo ali, desde a luz suave que se infiltra pela mangueira do quintal, até o silêncio profundo quebrado apenas pelo farfalhar das folhas, conta um segredo que não pode ser capturado por palavras nem gravuras. Nosso filho para a poucos metros e vê o elefantinho, que abaixa a cabeça até as patas, para saudá-lo, “POC!”, convidando-o a se aproximar mais. O cheiro doce e úmido, vindo do riacho, está ali, mas o perfume já se mistura a algo mais quente e vivo, como o aroma dos girassóis e das bolotas de mangas aquecidas ao sol. O menino respira fundo, tenta se acalmar, mas o ar parece pesado, carregado de algo que não sabe nomear. Ele estende a mão, tremendo ligeiramente, e o elefantinho dá seu primeiro passo para frente: o movimento é tão suave que parece flutuar. Por um momento, nosso filho tem certeza de que aquele ser parado à sua frente realmente pode voar. Quando a tromba se estende em direção à sua mão, ele não recua. Os olhos do Elefante, profundos e brilhantes, parecem dizer algo que o me nino consegue entender: “POC!”. Então, a magia do momento se intensifica, e nosso filho avança mais um passo: seu olhar se divide entre o animal e o som da voz de um de nós, seus pais. O Elefante permanece ali, esperando que o menino fale. A criatura ergue a cabeça outra vez, atenta à aproximação do menino, enquanto o som da voz lhe chamando ecoa mais uma vez da maior árvore. Nosso filho aperta os lábios, sente o peso da escolha que não sabe como fazer. Ele olha para o Elefante, depois para a trilha que se perde na direção do chamado, buscando resposta ao silêncio da floresta. O animal dá mais um passo à frente: suas grandes orelhas balançam suavemente, mas não tenta se achegar mais ao menino” (p. 14).
Respondendo à pergunta mais objetivamente: continua sendo um exercício de responsabilidade. Não era meu desejo transformar a infância em um lugar artificialmente protegido, onde nada de ruim pudesse acontecer, mas também não transformaria a criança em instrumento para falar de violência. Nesse sentido, acredito que tenha logrado êxito: Gugu é uma criança antes de ser uma vítima. E isso era o mais importante para mim. Ele brinca, imagina, ama, tem medo e, principalmente, cria vínculos. Ele teve uma vida própria anterior. A violência faz parte da realidade que atravessa sua história, mas não pode jamais ocupar todo o espaço daquilo que ele é.
Por isso, a fantasia foi um filtro tão importante para a obra: POC não existe para apagar a realidade, mas para permitir que Gugu e também o leitor encontrem uma linguagem para aquilo que nem sempre pode ser compreendido pela razão. A imaginação, nesse sentido, não é uma fuga. É uma maneira de elaborar aquilo que dói e, ainda assim, produzir um local de refúgio e acolhimento para aqueles pais que terão de viver o luto e acordar no próximo dia, tentando saber como não desistir de viver nem de lutar para preservar as memórias da vida que Gugu teve.
E: A violência e o racismo aparecem na experiência dessas infâncias de maneiras diferentes. O que você gostaria que o leitor percebesse sobre a forma como essas questões afetam as crianças?
J: Eu gostaria que o leitor percebesse que a violência não atinge apenas o momento em que ela acontece. Ela modifica famílias, interrompe futuros e deixa uma ausência que continua existindo muito depois do acontecimento. Quando falamos de uma criança que perdeu a vida, muitas vezes falamos apenas daquilo que ela era. Todavia, existe também tudo aquilo que ela ainda poderia ter sido: os sonhos que não conhecemos, as perguntas que não foram feitas, os lugares que ela não conheceu, as relações que não pôde construir.
E, quando falamos de crianças negras, precisamos reconhecer que não estamos diante de acontecimentos isolados. No tocante ao racismo, existe uma desigualdade histórica que faz com que determinadas infâncias estejam mais expostas à violência. Um menino negro é imediatamente lido como um menino pobre, periférico e mais suscetível às mazelas. E, embora isso seja verdade para a maioria dos exemplos em nossa sociedade, esse imaginário é construído e reforçado pelas relações sociais e históricas que perfazem a dinâmica sociocultural e econômica da população negra no Brasil, desde a escravidão e após a sua abolição.
Em outras palavras, esse imaginário faz reverberar o racismo em toda a sua estrutura de poder de exclusão e de julgamento de pessoas negras como cidadãos de segunda classe, em posições inferiores às de outros e, por isso, menos merecedores de proteção do Estado ou de ações que promovam a igualdade e a emancipação dessa população da estrutura que a subjuga.
O mais grave, no meu entender, não é a anulação da história ou o não reconhecimento do racismo como essa estrutura que molda o imaginário comum, mas a naturalização da violência que ele promove em diversas situações. Há pessoas que dizem e acreditam, de fato, que negros moradores de regiões menos abastadas ou periféricas estão acostumados à violência urbana ou que, por serem oriundos de comunidades que convivem muito de perto com isso, sejam potenciais criminosos. Há pessoas que olham para outras que são negras e as imaginam ocupando cargos de menor visibilidade e prestígio, quando não desempregadas e ociosas por escolha própria, mas não como indivíduos capazes de grandes realizações ou de circular e ocupar os espaços de poder; como pessoas que também podem decidir os rumos de uma sociedade como a brasileira, além de tomarem as rédeas das próprias vidas, popularmente falando.
No entanto, o que me interessa na literatura e, no que diz respeito às histórias infantojuvenis, é justamente não permitir que crianças sejam reduzidas a números ou estatísticas. Antes de qualquer número, existe uma criança com um nome, uma família, uma história e um futuro que deveria existir.
E: O cinema e a literatura têm maneiras diferentes de contar uma história. O que você acha que a literatura consegue revelar sobre uma infância que talvez seja mais difícil de mostrar no cinema – e vice-versa?
J: Penso que cinema e literatura podem chegar a lugares muito semelhantes, mas por caminhos completamente diferentes. O cinema tem uma força enorme naquilo que consegue colocar diante dos nossos olhos: um rosto, um corpo, uma paisagem, um gesto, uma casa, um território. Ele pode fazer com que a infância seja percebida também através da imagem, do silêncio, da expressão de um ator. A literatura é feita por meio de palavras; necessita delas ou dos seus signos linguísticos, rigorosamente falando. Então, por mais que algumas reinterpretações tentem incorporar outras linguagens, não há como produzir literatura abrindo mão dos próprios signos que a definem e a caracterizam.
Existe uma fake news muito bem-sucedida, difundida na forma de ditado popular pela turma do marketing e da propaganda, que diz que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Para mim é o contrário: uma palavra é capaz de produzir mais de mil ou incontáveis imagens. Os prompts utilizados nas plataformas de Inteligência Artificial, hoje em dia, são mais uma das ferramentas que comprovam essa minha tese. Por exemplo, se eu disser “elefante”, você pode produzir uma ou milhares de imagens na sua cabeça de um elefante, e nenhuma delas corresponder à imagem que eu tenho de elefantes. E, mesmo que eu lhe mostre todas as imagens que tenho ou de que disponho desses animais, pode ser que nenhuma delas corresponda às suas. Ainda assim, você as reconheceria como sendo “elefante”.
Nesse sentido, a literatura trabalha muito com aquilo que não está necessariamente no campo do visível. Ela pode entrar no pensamento de uma personagem, permanecer durante algumas páginas em uma lembrança, construir uma sensação, uma dúvida ou uma imagem que só existe na cabeça do leitor. Em Elefante, a imaginação é fundamental justamente porque existe uma fronteira entre aquilo que aconteceu e aquilo que Gugu, POC e os outros personagens conseguem elaborar.
Contudo, não vejo essas linguagens como concorrentes. O cinema encontra suas imagens. A literatura encontra suas palavras. E as duas podem fazer uma coisa muito importante: obrigar o adulto a olhar para uma criança com mais atenção.
E: Com Feito Pipa chegando a um momento de grande visibilidade por sua relação com o Oscar, o que você espera que essa aproximação entre as duas obras desperte no público sobre as diferentes infâncias brasileiras?
J: Espero que desperte curiosidade, mas principalmente escuta. Que as pessoas percebam que falar de infância brasileira é falar de muitas infâncias diferentes. Há crianças crescendo em diferentes territórios, dentro de diferentes configurações familiares, enfrentando diferentes dificuldades e também vivendo diferentes formas de afeto, imaginação e pertencimento.
Para mim, a coincidência entre os dois Gugus acabou se tornando uma oportunidade muito bonita de aproximar cinema e literatura e pensar sobre aquilo que essas duas linguagens podem dizer sobre as crianças. E existe algo que considero fundamental: uma criança deveria ter o direito de simplesmente ser criança. Brincar, imaginar, dançar, jogar futebol, fazer perguntas, sentir medo, sonhar e crescer. Quando uma infância é interrompida, não perdemos apenas aquilo que aquela criança era. Perdemos também tudo aquilo que ela ainda poderia ter sido.
Talvez seja essa a conversa que eu gostaria que Feito Pipa e Elefante provocassem juntas: que olhássemos para nossas crianças não apenas quando elas estão em perigo, mas antes disso. Que aprendêssemos a escutá-las enquanto ainda estão aqui, enquanto ainda podem sonhar, brincar e crescer. Porque proteger uma infância deveria significar, antes de qualquer coisa, garantir que ela tenha a oportunidade de um futuro.
E você? Está na torcida por Feito Pipa, ou ficou com vontade de ler Elefante? Nos conte nas nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube do Entretê.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz











