Atriz, escritora e criadora de conteúdo, ela convida o público a entender as intimidades das protagonistas e a complexidade de escrever uma boa história
Vestida de medo teve seu lançamento em setembro, publicado pela editora Galera Record. Escrito pela atriz, autora e uma das maiores criadoras de conteúdo do país, o universo sombrio de Kéfera Buchmann traz uma caça às bruxas que leva sua protagonista a repensar toda a sua história.
Neste dark romance entre uma caçadora que busca vingança pela sua família e uma bruxa que revela um caminho que, até então, nenhuma das duas sabiam que poderia existir, duas inimigas mortais se tornam um par romântico improvável.
Em sua nova fase como autora, Kéfera traz uma fantasia sombria onde desejo, conflito e autodescoberta caminham lado a lado. E, segundo ela, Vestida de Medo foi feito “para todos os leitores corajosos que enfrentaram tudo e todos em nome do amor”.
Em entrevista ao Entretetizei, a autora comenta sobre o desenvolvimento de suas personagens, medos e representatividade. Confira!

ENTRETETIZEI: Você já tinha em mente toda a história de Seraphine e das bruxas quando começou a escrever Vestida de Medo ou algumas descobertas aconteceram junto com você ao longo do processo?
Kéfera: Eu gosto muito de ter a ideia pronta na cabeça e ir fazendo tópicos para não me perder ao longo da escrita. Mas o processo com as personagens foi bem minucioso. Eu tinha muito claro o conflito principal. A primeira coisa que surgiu foi justamente essa ideia: como seria se uma caçadora de bruxas se apaixonasse por uma bruxa?. A Seraphine veio primeiro e a Elyra nasceu como a pior pessoa possível para cruzar o caminho dela, por ser uma bruxa linda e magnética. A partir daí fui construindo Eldoria e todo o universo ao redor das duas. Mas muita coisa eu também descobri escrevendo, ainda que me guiando pelos tópicos. Eu sabia onde queria chegar, mas as personagens foram ganhando camadas, o que é normal. Acho que essa é uma das partes mais legais de escrever ficção, chega um momento em que você conhece tanto aquelas personagens que começa a perceber coisas sobre elas que não estavam necessariamente no plano inicial.
E: Em Vestida de Medo, Seraphine começa a questionar tudo o que acreditava saber sobre as bruxas. O que te interessava em construir uma protagonista que precisa desconfiar das próprias certezas?
K: Eu acho muito interessante essa ideia de que parte de quem a gente é realmente é nossa, mas outra parte foi construída pelo que nos ensinaram. A Seraphine cresceu dentro de uma realidade em que determinadas verdades nunca foram colocadas em dúvida. Então, para ela, questionar o que sabe sobre as bruxas significa também começar a questionar quem ela é. E isso me interessava muito, porque é uma experiência extremamente humana. Em algum momento da vida, a gente percebe que algumas das nossas certezas não nasceram com a gente. Elas foram herdadas. E descobrir isso é bastante desconfortável.
E: A fantasia sombria nos permite falar de questões muito humanas por meio de elementos fantásticos. Quais sentimentos ou conflitos da vida real você mais queria explorar por meio de Seraphine nesse universo?
K: Principalmente medo, preconceito, identidade e a dificuldade de lidar com aquilo que é diferente do que aprendemos a aceitar. Uma coisa que eu gosto na fantasia é justamente essa distância que ela cria. Eu posso falar sobre preconceito através de bruxas, caçadores, uma floresta sombria e um mundo completamente diferente do nosso, mas no fundo estou falando sobre comportamentos muito humanos. Sobre como o medo do outro pode ser ensinado e repetido por tanto tempo que passa a parecer uma verdade absoluta. E também sobre o medo de descobrir alguma coisa sobre si mesma que não cabe mais na pessoa que você acreditava ser.
E: O romance entre Seraphine e outra garota também parece estar ligado aos conflitos internos que ela precisa enfrentar ao longo da história. Como você trabalhou essa relação para que o romance também fizesse parte do processo de autodescoberta da personagem?
K: Eu não queria que o romance estivesse separado do restante da história. A relação entre Seraphine e Elyra mexe justamente com tudo aquilo que a Seraphine acredita saber sobre o mundo. Ela começa a sentir alguma coisa por alguém que, pela lógica em que foi criada, deveria representar exatamente aquilo que ela aprendeu a odiar. Então esse sentimento obriga a Seraphine a se fazer perguntas que talvez ela nunca fizesse sozinha. Ao mesmo tempo, eu não queria que a sexualidade delas fosse tratada como o problema da história. São duas mulheres vivendo desejo, tensão, medo, conflito e amor dentro de uma fantasia sombria. Para mim, personagens LGBTQIA+ podem ocupar qualquer gênero e viver histórias em que elas sejam muito mais do que a própria sexualidade.
E: Seraphine precisa enfrentar os próprios medos e certezas para conseguir se permitir viver esse relacionamento. Você quis que a história mostrasse o amor como algo que também pode exigir coragem e confronto com aquilo que sentimos?
K: Sim, mas acho que não só coragem para amar alguém. É coragem para admitir o que aquele sentimento revela sobre você. Porque às vezes sentir alguma coisa é a parte mais fácil. O difícil é aceitar o que esse sentimento desmonta. No caso da Seraphine, se permitir sentir alguma coisa significa mexer em certezas muito profundas sobre quem ela é, sobre quem ela aprendeu a temer e sobre o mundo ao qual acredita pertencer.
E: A sinopse fala sobre Seraphine perceber que a guerra contra as bruxas pode ser “mais antiga, mais complexa e mais contraditória” do que imaginava. Até que ponto essa descoberta sobre as bruxas também muda a forma como ela enxerga a si mesma e as pessoas por quem sente algo?
K: Essa é uma pergunta perigosíssima, porque qualquer coisa que eu responda pode entregar mais do que eu gostaria. Mas posso dizer que Vestida de Medo fala muito sobre perspectiva. Sobre como uma mesma história pode parecer completamente diferente dependendo de quem está contando e de onde você está olhando. A Seraphine vive em um mundo cheio de versões, crenças e histórias que existem há muito antes dela, e eu queria brincar justamente com essa sensação de nunca saber completamente em qual verdade confiar. O quanto isso tem a ver com ela mesma e com as pessoas ao redor dela, eu vou deixar para o leitor descobrir.
E: Vestida de Medo marca um novo momento na sua trajetória como escritora. O que mudou na sua forma de escrever desde os seus primeiros trabalhos até chegar a uma fantasia sombria como essa?
K: Mudou muita coisa porque eu também mudei muito. Quando olho para os meus primeiros livros, vejo uma autora muito diferente da que sou hoje. Hoje tenho mais repertório, mais experiências e também mais paciência para construir uma história. Fiquei muito mais metódica. No meu primeiro livro, eu me perdi bastante durante a escrita, então hoje trabalho com tópicos, penso mais na estrutura e sei melhor onde quero chegar.
E Vestida de Medo me exigiu uma coisa que eu nunca tinha feito nessa dimensão, que foi construir um universo inteiro. Eldoria, a Floresta de Dorreth, as regras, tradições, crenças, tudo precisava fazer sentido dentro daquele mundo. Foi a parte mais difícil e também uma das mais divertidas. Comecei a escrever em 2024 e terminei em 2026, então foram dois anos convivendo com esse universo. Acho que esse livro representa muito a escritora que eu sou hoje. Alguém que se permite entrar em lugares mais sombrios, trabalhar personagens mais contraditórias e se desafiar muito mais na escrita.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz











