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Foto: divulgação/Caio Oviedo

Entrevista | Marco França conquista os palcos, as telas e os ouvidos com sua sensibilidade e talento

Ator, músico e diretor fala sobre sucesso de seu personagem em Guerreiros do Sol e de carreira artística diversa

A trajetória de Marco França escancara a sensibilidade e o talento de um artista reconhecido pela crítica e pelo público, seja no teatro, nas redes sociais, na música ou, mais recentemente, no audiovisual. Diretor musical da peça Rita Lee – Uma Autobiografia Musical, ele também já gravou com nomes como Chico César e Juliana Linhares, além de somar atuações marcantes na TV e no cinema. Como resultado de toda essa trajetória, coleciona indicações e prêmios importantes, como o Shell e o Bibi Ferreira.

Nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, Marco honra suas raízes da forma mais pura. No Instagram, entrega uma mistura cativante de entretenimento, reflexões e valorização da cultura nordestina. Utilizando canções como plano de fundo em seus posts, gravando vídeos para divulgar seus trabalhos ou até recomendando o trabalho de outros artistas, o potiguar traz um tom divertido e poético às suas publicações. Grande parte dos posts refletem bem o que ele resume em uma de suas legendas: o olhar de quem “põe o coração nos seus sonhos”.

Morando em São Paulo desde 2016 e comemorando 35 anos de carreira, Marco fez sua estreia na televisão em 2022, na novela Mar do Sertão, da TV Globo. O jeitinho divertido do personagem e a química com atores como Giovana Cordeiro e Enrique Diaz conquistaram tanto o público, que Fubá Mimoso voltou em 2024, na trama de Rancho Fundo.

Foto: divulgação/Caio Oviedo

Mais recentemente, o artista deu vida a Fabiano, sanfoneiro na série Guerreiros do Sol, disponível no Globoplay. Na trama, ele constrói um personagem feito de muitas camadas: um homem atravessado pela perda, mas também pela memória e pela arte, que enfrenta, com resistência e uma certa beleza melancólica, a vida de cangaceiro. O projeto, gravado em 2023, possui um enredo denso, com muitas emoções e reviravoltas que se passam no sertão nordestino. 

Além de fazer parte do elenco, Marco também assina composições presentes na trilha sonora da série, como a faixa Aboio Guerreiro. Em paralelo, ele também interpreta o maestro Justino, no filme Homem com H, produção que transitou com muito sucesso das salas de cinema para o streaming e agora integra o catálogo da Netflix.

Direcionando toda essa energia para a conexão com a primeira arte, Marco investe na sua carreira solo como músico, com o lançamento de um EP programado para sair no segundo semestre. Tendo uma trajetória consolidada nos palcos, ele já assinou a direção musical de inúmeros espetáculos. Agora, depois da estreia do clipe de Colo Cais, uma das faixas de seu projeto autoral,  disponível no YouTube, e da canção Pipoca, parceria com Juliana Linhares, o artista deixa seus fãs curiosos com os próximos passos. 

Acontece que Marco não para. Seu trabalho como compositor e diretor musical é amplamente reconhecido: são cinco indicações ao Prêmio Shell (com vitórias em 2016 e 2019, respectivamente pelas trilhas de A Tempestade e Estado de Sítio), além do Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem por Peer Gynt (2016) e oito indicações ao Prêmio Bibi Ferreira, que lhe rendeu a estatueta de Melhor Arranjo Original por Tatuagem, em 2022.

Ao lado de Márcio Guimarães, Marco também assina a direção musical de Rita Lee — Uma Autobiografia Musical, que está em turnê com sessões em várias cidades do Brasil. A montagem, que estreou em abril de 2024, já foi vista por mais de 90 mil pessoas e levou prêmios como o Arcanjo de Cultura. Também rendeu à protagonista, Mel Lisboa, o Shell de Melhor Atriz, além de ter sido lembrada em premiações como APCA, DID e Prêmio PRIO do Humor, este que destacou a direção e a atuação da também atriz Débora Reis.

Entre memórias afetivas, o sertão que pulsa como personagem, a música e a poesia, Marco França compartilha sua trajetória com o Entretetizei. Na entrevista, abaixo, ele fala sobre a carreira, o primeiro álbum autoral, colaborações especiais e os bastidores de projetos no teatro, na televisão e na música, sempre com o olhar inquieto de quem vê, além do chapéu, a cobra que engoliu o elefante: 

Entretetizei: Você está à frente da direção musical e dos arranjos da peça Rita Lee — Uma Autobiografia Musical. Como tem sido fazer parte de um projeto de tanto sucesso como esse, que, além de homenagear a história de uma das maiores cantoras do país, Rita Lee, exalta a atriz Mel Lisboa, que brilha nos palcos interpretando a cantora? E como foi fazer as releituras musicais apresentadas, mantendo a essência e irreverência de Rita Lee?

Marco França: Sim, estou ao lado de Marcinho Guimarães na direção musical deste sucesso que é Rita Lee – Uma Autobiografia Musical. Foi um grande deleite botar a mão nesse repertório tão poderoso, a convite do amigo e diretor Márcio Macena. Esse espetáculo já estreou com os ingressos esgotados para toda a temporada, que, inicialmente, teria três meses de duração e acabou ficando mais de um ano em cartaz no mesmo teatro. E agora circula pelo país. Claro que existem vários predicados que justificam esse sucesso, a exemplo da brilhante composição de Mel fazendo a Rita, que, por vezes, nos confunde achando estarmos vendo a própria Rita no palco. Mas certamente o fenômeno Rita Lee, essa bruxona incrível, é o grande responsável por tudo isso.

Foto: divulgação/Caio Oviedo

E: Marco, depois de 35 anos de travessias artísticas, você se prepara para lançar seu primeiro álbum autoral. Que marés te conduziram até aqui? Como nasceu esse projeto e como tem sido o mergulho nesse processo criativo?

MF: Tem sido um processo natural ao longo desse tempo, uma vez que esse álbum é uma fotografia dos anos até aqui. Fui compondo e gravando gradativamente e sem pretensões imediatas. Tanto que levou muito tempo até lançar o primeiro single. Compor, para mim, é quase que um processo diário de criação. Seja para o repertório de uma peça musical de teatro ou fruto de um transbordar poético pessoal.

E: A música Pipoca, feita com Juliana Linhares, mistura camadas e texturas que parecem brincar com a ideia de movimento e leveza. Como nasceu essa parceria de vocês?

MF: Conheço a Ju há muitos anos. Desde quando ela fazia parte de um grupo de teatro em Natal, o Estandarte. Muita gente não sabe, mas ela, além de uma das maiores artistas da música contemporânea brasileira atual, é também uma atriz brilhante! Acompanho, com muito orgulho, seu voo. E quando compus essa canção, que vocês podem ouvir em qualquer streaming de áudio, já pensei nela cantando junto. E assim de pronto, a convidei pra cantar comigo. Aproveitamos um pouso dela por São Paulo e gravamos. Sou fã da Ju e, sempre que posso, estou no gargarejo de seus shows.

E: Em uma legenda no Instagram, você fala da sorte de ter a fantasia como matéria-prima daquilo que estuda. Como esse encantamento se manifesta no seu dia a dia de criação, seja compondo, atuando ou produzindo?

MF: Ahhhh… acho que o que melhor me define como artista é ser um poeta. Não apenas dos que escrevem poemas literários, mas como as crianças que enxergam o mundo de maneira plena. Me vejo dessa forma, através desses olhos inquietos que veem além do chápeu, tal qual a história do Pequeno Príncipe. Penso que minha função na arte é despertar no outro a capacidade de ver a cobra que engoliu o elefante. Lembra daquela imagem?

E: Em Guerreiros do Sol, o sertão é mais que cenário, é personagem, é território simbólico e pulsante. Você contou nas redes que compôs Aboio Guerreiro ainda no set da série. Como foi esse processo criativo? E de que forma essa atmosfera, marcada pelo sertão e pelo cangaço como símbolo popular e político, influenciou sua música? Sua experiência na direção musical de peças como Tatuagem e Rita Lee – Uma Autobiografia Musical, nas quais a trilha carrega identidade e afeto, ajudou a moldar esse olhar narrativo?

MF: O que trago em mim, o que me moldou como ser humano e artista, que se misturam, fazendo o que sou, as experiências que vivi, o lugar de onde venho (Natal/RN), os encontros que tive com pessoas, artistas, grupos e obras que vi, ouvi ou participei como criador me ajudam a traduzir a minha arte nos meus processos criativos. Estar nas paisagens sertanejas, gravando, me impulsionou, de maneira muito natural, para compor as canções em Guerreiros. Estava sempre com minha sanfona, dedilhando, cantando uma loa, uma cantiga e, assim, as demandas e necessidades foram surgindo. Papinha, nosso mestre e diretor ia sugerindo, perguntando, e eu seguia devolvendo em canções. Como já disse, compor é um exercício diário para mim. Foi lindo!

Foto: divulgação/Caio Oviedo

E: O clipe de Colo Cais tem direção de Badu Moraes, sua conterrânea de Natal, artista multifacetada. O que significou, pra você, dividir esse trabalho com ela e ver sua música através do olhar sensível e potente de outra artista potiguar?

MF: Badu é também uma artista inquieta e cheia de paixão pela vida, o que transborda naturalmente para tudo que ela faz. Gosto de estar perto de pessoas assim, que me devolvem paixão! Já fizemos alguns trabalhos como parceiros de cena no teatro. É muito óbvia a nossa conexão desde o início, o que faz tudo fluir com muita naturalidade. Ela também participa no meu show como uma presença mais que especial, que é o que ela é. Sou fã dela. E como é bom ser fã dos amigos!

E: O Fubá Mimoso conquistou o público com carisma e complexidade, e, curiosamente, sua estreia na TV teve como trilha a música Homem com H, que você já tocava na sanfona muito antes. Agora, anos depois, você está no filme que homenageia Ney Matogrosso. O que esse percurso diz sobre a força simbólica desse personagem na sua trajetória e sobre como a arte vai costurando encontros?

MF: Fubá foi meu abre-alas de luxo na TV. [Foi] Muita sorte debutar nas telinhas numa história que já tinha, como linguagem, o farsesco e que me permitiu compor, desenhar esse personagem de maneira mais próxima a minha experiência de criar personagens no teatro. E tudo isso ao lado de tanta gente incrível, alguns parceiros de longa data, como Titina Medeiros, Cesar Ferrario, Quitéria, Suzy Lopes, Thardelly Lima e Giovana Cordeiro. Gravei a minha primeira cena, dirigida por Bernardo Sá, ao som de Homem com H. Foi incrível, mesmo que, no fim, essa não tenha sido a que tenha ficado na edição. Falo do momento em que estou dançando no bar e entra o Coronel, personagem do querido José de Abreu. Como diz o próprio Fubá Mimoso na sequência, “o mundo girou, girou…” e eis que estreei no cinema justamente no filme que tem como título a mesma canção. Acho que tudo está conectado, alinhado. Pensar assim me ajuda a seguir com menos medo.

Foto: divulgação/Caio Oviedo

E: Você interpreta o maestro Levino na cinebiografia de Ney Matogrosso. Como foi mergulhar no universo de um artista tão visceral, e o que esse papel te ensinou como músico e ator?

MF: O maestro Levino foi uma pessoa muito importante na história do Ney por ter sido a pessoa que disse “SIM” a ele, quem o acolheu com toda sua essência, permitindo que ele fosse quem era, com sua personalidade forte e voz peculiar, diferente e especial. Me lembro de, quando criança, ficar fascinado com a figura do Ney quando aparecia na TV. Era um encantamento! E ele foi um artista que quebrou muitos paradigmas, preconceitos e elevou a performance do cantar a um nível que somente os gênios fazem. Certamente sou fruto também desse menino encantado ao vê-lo em cena, que virou músico e ator. Um privilégio fazer essa participação, com esse personagem, nesse filme tão lindo.

E: Voltando a Guerreiros do Sol, você contracena com Irandhir Santos, ator que você já admirava e com quem sonhava dividir cena. Como foi viver essa parceria dentro de uma obra que mergulha tão fundo no imaginário do cangaço? Que memórias ou aprendizados essa experiência te deixa, tanto artística quanto pessoalmente?

MF: Nossa… Irandhir é um dos maiores atores que já vi na vida! Sim, já o admirava há tempos! E foi uma aula vê-lo criando. Cada proposta de desenho de cena, a sua concentração e a maneira como ele joga com os parceiros de tela… um luxo! E, para completar, ele é uma das pessoas mais gentis e doces que já conheci! Uma honra ter “morrido” pelas mãos dele (risos). Falar sobre Irandhir é colocar exclamações ao final de cada frase! Assim!! Assim!!!

E: Em muitas de suas postagens nas redes sociais, é nítido o seu amor pelas raízes, pela beleza e cultura do Nordeste. O que mais te orgulha dessa herança e como ela te ajuda a abraçar a própria autenticidade como artista?

MF: Meu sotaque é o hino de onde venho através do meu falar. É a minha identidade maior, a tradução de quem sou. São essas lentes que me fazem enxergar o mundo e deixar, através de meu trabalho, a impressão de onde venho. Não tem como não sermos afetados pelo sol que incide sobre nossas cabeças. Sou inventado, parido, vindo de um Nordeste Ficção, o qual insistem em massificar, tornar uma coisa só. Mas somos milhões, somos vários sotaques, somos nove Estados, diversos e únicos. E essa é a beleza que nos define. O Brasil, aos poucos, está conhecendo o Brasil.

E você, já assistiu Guerreiros do Sol? Já ouviu algum novo lançamento musical do Marco França? Conta pra gente nas redes sociais do Entretê – Insta, Facebook e X – e aproveita pra nos seguir e ficar por dentro de tudo que rola no mundo do entretenimento.

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Texto revisado por Ketlen Saraiva

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