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Foto: reprodução/Mario Moreira Leite/Jornal Rascunho

Entrevista | Humberto Werneck fala sobre carreira, literatura e a crônica no Brasil

Em entrevista ao Entretetizei, o escritor reflete sobre os encontros marcantes com figuras icônicas da literatura brasileira, a trajetória do gênero e o seu novo livro, Viagem no País da Crônica

Jornalista, escritor e cronista, Humberto Werneck construiu uma trajetória marcada por grandes encontros e por uma escrita que combina rigor jornalístico e leveza literária. Mineiro de Belo Horizonte, colaborou em alguns dos principais veículos da imprensa brasileira, como a Veja, o Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo, firmando-se como uma das vozes mais atentas e apaixonadas pela literatura e pelo cotidiano.

Ao longo de sua carreira, conviveu com nomes fundamentais da crônica brasileira, como Rubem Braga e Fernando Sabino, e assumiu a tarefa desafiadora de biografar Carlos Drummond de Andrade, poeta que também se destacou neste gênero tão singular.

Em 2025, Werneck lançou Viagem no País da Crônica, publicado pela Editora Tinta-da-China Brasil, obra que passeia pela Era de Ouro da crônica, relembrando autores, episódios e memórias que ajudam a entender a relevância do gênero na cultura brasileira. Mais do que um repositório, o livro funciona como uma celebração: é um convite para olhar para a crônica, o “patinho feio da literatura”, como uma forma de expressão próxima, encantadora e essencial.

Foto: divulgação/Editora Tinta-da-China Brasil/Entretetizei

Nesta entrevista exclusiva, Humberto Werneck fala sobre sua carreira, compartilha memórias de bastidores com grandes nomes da literatura e reflete sobre o futuro da crônica em tempos digitais.

Entretetizei: Ao longo da sua carreira, você colecionou encontros marcantes com grandes nomes da literatura brasileira. Um deles foi com Clarice Lispector, em uma entrevista que você mesmo costuma lembrar como um tanto peculiar. Poderia nos contar como foi esse episódio e o que ele lhe ensinou como jornalista? 

Humberto Werneck: Antes de ser um jornalista apaixonado, fui um jornalista acidental. Eu cursava Direito e queria ir para a carreira diplomática, mas tive um pequeno problema político, que fechou as portas para mim nessa área. Por isso, continuei trabalhando no Diário Oficial de Minas Gerais, sob o comando do dulcíssimo Murilo Rubião.  

Em 68, quando eu tinha 23 anos, o Murilo me disse: “A Clarice Lispector está aqui em Belo Horizonte. Você, por favor, vá lá e entreviste ela para nós. Mande um beijo meu e peça a colaboração dela em uma entrevista.” 

Foto: reprodução/Quatro Cinco Um

Eu era um grande leitor de Clarice, mas nunca a vi. Fui procurá-la em uma livraria em Belo Horizonte e percebi que, apesar de ser uma escritora de grandes qualidades, ela era uma pessoa de difícil trato. Quando pedi a colaboração dela para o Suplemento Literário, ela me deu um chega pra lá, perguntando: “Vocês pagam?”. E a gente pagava, só que era uma mixaria. 

No dia seguinte, eu a entrevistei. Só que aquela era a segunda entrevista que eu havia feito na vida e não sabia nada sobre entrevistar e sobre editar o material. Além disso, alguém tinha escrito que “A Paixão Segundo GH, não sendo um romance…” e, baseando-me nessa ideia ao pé da letra, logo no início da conversa, fiz uma pergunta muito mal articulada: “Clarice, A Paixão Segundo GH, não sendo um romance…”. Ela me cortou brutalmente, dizendo de forma estridente: “Como assim não é um romance?

Existe uma foto desse momento. É possível me ver com a cabeça um pouco baixa e a Clarice me encarando com uma certa repulsa. Foi uma situação horrível…

Foto: reprodução/Estadão

No fim da entrevista, eu pedi um autógrafo no meu exemplar de A Maçã no Escuro e ela falou que não tinha caneta. Emprestei uma canetinha minha, com tinta lilás, que eu tinha o maior amor e havia comprado em Buenos Aires. Ela acabou pedindo a caneta para ela e eu acabei dando. 

Essa situação me deu um trauma tão grande que, um tempo depois, escrevi uma crônica chamada Meu Traumatismo Ucraniano. Mesmo tendo sido impactante, essa situação foi muito pedagógica para mim e me ensinou muitas coisas. Contudo, isso não me impediu de passar anos sem conseguir ler Clarice. Até que, um dia, ouvindo uma conversa de dois amigos dela, o Fernando Sabino e o Otto Lara Resende, um deles disse: “A gente adora a Clarice, mas, você sabe, ela é uma pessoa difícil”. Senti um alívio enorme na hora, pois percebi que não foi só comigo.

E: Você também está sendo responsável por biografar Carlos Drummond de Andrade. Como está sendo a experiência de mergulhar na vida deste poeta e cronista?

HW: Estou mergulhado nisso faz tempo! Não coloco o nariz fora de casa sem que alguém me pergunte: “E a biografia de Drummond, quando sai?”. Costumo responder que ou sairá o livro ou eu. Já faz muitos anos e, mesmo já tendo entregado 200 e tantas laudas, ainda faltam coisas. 

Essa é uma experiência muito importante para mim, não só como escritor e biógrafo, mas também como leitor de Drummond. Como jornalista, tive muitos contatos com ele e o entrevistei mais de uma vez. Em uma delas, foi para a revista IstoÉ.

Foto: reprodução/Acervo Carlos Drummond de Andrade

Bom, a Companhia das Letras me procurou e me fez essa proposta. Desde então, estou fazendo um trabalho muito minucioso e nem um pouco opinativo: estou produzindo uma biografia de Carlos Drummond de Andrade com o maior rigor jornalístico que se possa ter. 

Drummond teve uma vida com poucos acontecimentos. Ele não era como o Vinicius de Moraes, que se casou nove vezes, ou como o Fernando Sabino, que viajou o mundo todo. Contudo, por baixo desse homem imerso na rotina, há um personagem absolutamente maravilhoso e, na biografia, haverá revelações que ilustram a pessoa que ele era — mas nada chocante, fiquem tranquilos.

Também estou empenhado em não escrever um livro chato, pois considero a chatice como algo digno de punição. Portanto, tenho me dedicado à tarefa de seduzir o leitor com a escrita o máximo que posso. Afinal, nós, que somos escritores e que não estamos no patamar do William Faulkner, por exemplo, temos que cativar o leitor para que ele nos leia. Costumo dizer que, mesmo não tendo religião, tenho uma santa padroeira: a Sherazade, de Mil e Uma Noites. Ela foi uma mulher que se salvou graças à forma cativante com a qual ela contava histórias. E quero fazer o mesmo nesse livro.

Além disso, já tenho 80 anos e, após essa tarefa gigantesca, quero ter na minha vida um pós-Drummond.

E: Ainda que tenha sido trazida para cá da terra do croissant, a crônica é, hoje, um gênero muito brasileiro. Você diria que conseguimos nos apropriar dele com maestria?

HW: Acho que nos apropriamos desse gênero da mesma forma que nos apropriamos do futebol. O futebol era inglês e foi trazido para cá pelo Charles Miller, mas nós demos a esse futebol britânico uma melhoria que ele não tinha na origem. Eu acho que o mesmo ocorreu com a crônica. Ela foi trazida da França em meados do século XIX e, aqui, ela foi ganhando uma graça brasileira através de grandes mestres, como Machado de Assis e, posteriormente, com João do Rio. 

A grande revolução da crônica brasileira aconteceu nos anos 30 com Rubem Braga, que começou a ser cronista e criou toda uma árvore genealógica do gênero. Quando perguntavam ao Fernando Sabino quem era o melhor cronista, ele dizia: “Cronista é o Rubem Braga, os outros são imitadores dele”.

Foto: reprodução/Alberto Jacob/Agência O Globo

Entre os anos 40 e 60, nós tivemos um núcleo incrível de cronistas e eu tive a sorte de poder crescer lendo essas crônicas nos jornais, revistas e, depois, nos livros. Eram textos de primeiríssima qualidade e foram essenciais para a minha geração.

Apesar da enorme qualidade da crônica, esse gênero, ainda hoje, é subestimado pela academia. Assim, o rótulo de “patinho feio da literatura” lhe cabe muito bem, mas, apesar disso, não devemos adotá-lo no sentido pejorativo. Afinal, esse patinho é muito simpático e tem uma sobrevida muito maior do que obras de ficção mais elaboradas. Por isso, digo que é preciso ter mais respeito com a crônica. 

E: Os jornais e revistas já foram espaços fundamentais para a crônica no Brasil, mas hoje muitos deles perderam força ou até desapareceram. Na era digital, você sente que a crônica perdeu seu lugar de destaque? Existe um caminho para que ela reencontre esse espaço?

HW: A introdução dos meios digitais modificou, e até mesmo liquidou, jornais e revistas. Lembro-me da minha infância, da revista Manchete, na qual saiam quatro crônicas semanalmente — e de grandes autores, como Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Fernando Sabino. Hoje quem publica crônica, se os jornais e revistas estão meio mortos?

Foto: reprodução/Revista Prosa, Verso e Arte

O Estadão, por exemplo, tinha um grande time de cronistas, e hoje tem apenas um, o Ignácio de Loyola Brandão, que, apesar de ser um ótimo cronista, está sozinho. A revista Veja São Paulo, durante muito tempo, dedicava a última página para uma crônica, na qual, de 15 em 15 dias, autores se revezavam para escrever, como o grandíssimo Ivan Ângelo, mas acabou.

Sinto que a crônica foi despejada, está sem-teto e não achou um lugar confortável e com a necessária visibilidade para que atinja e mantenha o leitor cativo para ler na internet. Mas eu sei que a crônica não vai morrer. Assim como o jornalismo, ela está passando por uma crise e, apesar do problema da falta de lugar da crônica ser crônico, ela há de se estabelecer novamente. 

E: Muitos jovens em idade escolar têm contato com a crônica, principalmente nas atividades ligadas ao vestibular. Mas a tecnologia e o afastamento do material impresso podem dificultar essa relação. Você acha que seria preciso repensar a forma como o gênero é trabalhado nas escolas? Em vez de apenas listar suas características, não seria mais interessante incentivar os alunos a escrever crônicas, inclusive nos meios digitais?

HW: Sem dúvidas! A ação mais óbvia é, primeiramente, interessar o jovem no gênero, fazendo-o se encantar pela crônica — o que não é difícil! Em seguida, incentivá-los a criar crônicas. Para aqueles que não são tão encantados pela escrita, não é uma tarefa complicada, mas, para os jovens que almejam ser escritores, a crônica é uma ótima porta de entrada. 

A expressão francesa rez-de-chaussée (tradução livre: rés do chão), usada por Antonio Candido em seu famoso ensaio A Vida ao Rés do Chão, significa literalmente a entrada de uma casa ou prédio, ou seja, por onde você entra. E a crônica tem essa facilidade de entrada para todas as idades. 

Foto: reprodução/Jornal Rascunho

Uma coisa muito bacana é que a crônica tem a característica especial de aproximar o leitor e o cronista com facilidade, pois a proposta do gênero é justamente falar com quem lê ombro a ombro, e não de cima para baixo. Isso pode ser um fator importante para incentivar os jovens a escreverem crônicas, porque ela é esse lugar de acolhimento tanto para quem lê quanto para quem escreve. 

E: Muito se fala sobre o processo de leitura de uma obra, mas pouco se comenta sobre o processo de escrita. Como foi a sua experiência escrevendo Viagem no País da Crônica?

HW: Esse foi um livro involuntário. Eu fui chamado pelo Instituto Moreira Salles para ser o primeiro editor de um espaço pouco conhecido, embora já exista há alguns anos, chamado Portal da Crônica Brasileira, que é um repositório com milhares de crônicas de diversos autores. 

Coube a mim fazer, de 15 em 15 dias, um texto que atraísse os leitores para essas crônicas. Chamei a sessão no site na qual eu trabalhava de rés do chão — e, no livro, chamei-o de Piscadelas Literárias, pois é basicamente um gesto que fazemos para atrair o outro para algo bom. Assim, construí o esqueleto do que, hoje, é esse simpático livro. 

E: Em Viagem no País da Crônica, você adota um tom próximo e leve, que lembra a própria linguagem da crônica. Isso foi pensado desde o início? A capa também traz essa atmosfera ao brincar com a imagem do patinho feio. Como o texto e o projeto gráfico se complementam nessa homenagem ao gênero?

HW: Procurei fazer com que esses textos tivessem um tom de crônica para torná-los mais atraentes aos leitores. Até 2021, escrevi 80 textos, mas parei para cuidar, monogamicamente, da biografia do Drummond. Atualmente, quem cuida do meu antigo espaço no rés do chão é meu querido amigo Guilherme Tauil.

A ideia de compilar esses textos veio da Editora Tinta-da-China Brasil, a qual pertence ao meu filho, Paulo Werneck. Participei do trabalho de edição, que foi grande, ao lado da Sofia Mariutti, à qual eu tiro o meu imaginário chapéu. Na edição final, inserimos 78 crônicas que falam sobre crônicas, resultando em um livro de 300 páginas. No fim do livro, há uma lista das crônicas mencionadas ao decorrer do texto e, na versão digital, é possível clicar e ir diretamente para a crônica. 

Aliás, a capa do livro, feita pela incrível Vera Tavares, tem um desenho muito simpático de um patinho feio, tal qual é a crônica. 

Foto: divulgação/Editora Tinta-da-China Brasil/Entretetizei

Eu nunca fui um autor mal editado, mas essa edição se superou muito, deixando-me muito feliz com esse livro. Ele está tendo, também, uma recepção inesperada. Tenho ouvido coisas muito simpáticas a respeito dele e sobre o serviço que ele presta ao gênero.

E: O título não é à toa: ao longo dos capítulos, o leitor realiza uma verdadeira viagem pela trajetória da crônica no Brasil em sua Era de Ouro, quase como se você estivesse biografando o gênero. Essa abordagem é importante para transportar o leitor a esse momento histórico-literário, fazendo-o compreender a relevância do gênero e o seu impacto. Você acha que hoje, mais do que nunca, é importante que vozes como a sua contem essa história para que a crônica continue a alcançar novas gerações?

HW: Eu acho que sim! Qualquer coisa que encante alguém pode se tornar um potencial material de divulgação, principalmente se ele for de qualidade. Não importa o que seja: desde uma crônica a uma obra de arte, é possível perceber nos olhos de alguém quando ela foi tocada profundamente por algo que a encantou. Todos nós devemos ser, em qualquer instância, bons vendedores daquilo que nos alegra, passando essa alegria adiante.

E: Por fim, Viagem no País da Crônica funciona basicamente como um repositório do gênero, mas também traz toques interpretativos seus. Depois dessa experiência, você acha que é possível definir a crônica — o nosso “patinho feio da literatura”?

HW: Nem eu, nem ninguém conseguiu definir, em algumas palavras, a crônica. É aquela história famosa do Rubem Braga: “Se não é aguda, é crônica”. Ela não é difícil de definir, mas há uma dificuldade em encontrar as palavras certas. Contudo, o bom leitor sabe o que é uma crônica, embora não seja capaz de colocar, em meia dúzia de palavras, essa definição. Sou a favor de chamá-la de “patinho feito da literatura” a partir de agora, pois assim assumimos, como uma coisa boa, o que foi posto ao gênero como desprezo.

Foto: reprodução/Companhia das Letras

Encerrar esta entrevista é, de certa forma, continuar a viagem proposta por Humberto Werneck. Fica a certeza de que a crônica, mesmo em tempos de crise, ainda encontra leitores dispostos a se encantar com sua simplicidade e profundidade. Viagem no País da Crônica pode ser adquirido no site da Editora Tinta-da-China Brasil e na Amazon.

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Leia também: Humberto Werneck explora a força e a delicadeza da crônica em seu novo livro

 

Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz

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