8 livros de ficção e não ficção que inspiram a repensar o significado da velhice e a refletir sobre como essas histórias dialogam com a realidade brasileira
O tema da redação do ENEM 2025, “As perspectivas do envelhecimento na sociedade brasileira”, foi um convite raro e necessário à empatia e à reflexão. Em um país que envelhece rapidamente, mas que ainda não aprendeu a lidar com o processo de envelhecer, a proposta instigava os candidatos a olhar para além dos números e das projeções econômicas.

A ideia não era discutir apenas o impacto demográfico do envelhecimento, mas compreender como essa parcela da população é frequentemente excluída, seja pela falta de acessibilidade, pela ausência de políticas públicas efetivas ou pelo simples preconceito etário que ainda marca o cotidiano, por exemplo.
A prova exigia sensibilidade: não se tratava de falar sobre o custo da velhice, mas sobre o valor da experiência, da memória e do cuidado. Afinal, todos irão envelhecer – uns com mais serenidade, outros com mais resistência.

Todavia, muito antes de virar tema de redação, o envelhecer já era um tema literário. A literatura e a não ficção vêm há décadas explorando as nuances dessa fase da vida, desafiando estereótipos e revelando que a velhice pode ser tanto um ato de resistência quanto um exercício de reconciliação. Em diferentes perspectivas – filosófica, afetiva, simbólica ou existencial –, o envelhecimento aparece como espelho da condição humana e das formas que encontramos para lidar com o tempo.

Pensando nisso, reunimos oito livros – entre ficção e não ficção – que nos ajudam a repensar o que a velhice significa e a perceber como essas narrativas dialogam com o contexto brasileiro. Tratam-se de obras que ampliam o olhar sobre o envelhecer e mostram que, antes de ser uma questão biológica, envelhecer é também uma experiência profundamente social, cultural e emocional.
O sujeito não envelhece: psicanálise e velhice (2007), por Ângela Mucida
A obra parte da ideia psicanalítica de que o inconsciente não envelhece para investigar como a passagem do tempo afeta o sujeito em sua dimensão simbólica, corporal e cultural. O livro discute as particularidades da clínica com pessoas idosas, questiona os significantes que moldam a ideia de velhice e analisa como discursos sociais influenciam na forma como cada indivíduo vive e nomeia essa etapa.

Assim, o texto amplia a compreensão de que o envelhecimento não é apenas biológico, mas construído socialmente. Ele revela como o modo de cada época definir a velhice afeta a subjetividade, o cuidado e a posição dos idosos na sociedade – ponto central para discutir as perspectivas do envelhecimento no Brasil.
A morte é um dia que vale a pena viver (2019), por Ana Claudia Quintana Arantes
Em linguagem acessível, a médica geriatra discute a finitude como uma oportunidade de viver de forma mais consciente. A autora, especialista em cuidados paliativos, compartilha histórias e reflexões que mostram como a presença, a autonomia e o respeito aos desejos pessoais são essenciais para que a última etapa da vida seja plena e digna.

Desse modo, ao tratar da morte a partir do cuidado, o livro ilumina questões fundamentais para pensar o envelhecimento no Brasil: a dignidade, o acolhimento, a autonomia e a importância de políticas sensíveis ao fim da vida.
De volta ao começo: uma jornada pelo envelhecimento (2024), por Ney Messias Jr.
A obra propõe uma visão leve e bem-humorada sobre envelhecer, partindo de pesquisas e observações sobre a rotina de pessoas com mais de 60 anos. Em vez de promessas de rejuvenescimento, o autor oferece reflexões práticas sobre hábitos, escolhas e atitudes que tornam essa etapa saudável, prazerosa e cheia de propósito.

O texto, portanto, convida a repensar o envelhecimento para além dos estereótipos, destacando a importância de políticas e práticas que valorizem a autonomia, a saúde e o bem-estar, reforçando um olhar positivo e realista sobre a vida após os 60.
Quantos anos você tem? (2024), por Victor Pontes
O médico geriatra apresenta relatos clínicos e reflexões que mostram como cada pessoa envelhece de forma singular, construída por sua biografia, seus vínculos e suas condições de vida. O livro discute fatores que influenciam um envelhecer ativo, como a rotina, as relações sociais, o estilo de vida, o planejamento e a autonomia, oferecendo um olhar amplo e humano sobre a maturidade.

Nesse sentido, a obra reforça que envelhecer exige preparo, políticas integradas e compreensão individualizada, elementos essenciais para pensar desafios e soluções para o envelhecimento na sociedade brasileira.
A velhice (2024), por Simone de Beauvoir
A autora analisa o envelhecimento a partir de perspectivas históricas, filosóficas e sociais, revelando como diferentes culturas moldam o tratamento destinado às pessoas idosas. A escritora examina discursos científicos, estatísticas e narrativas reais para expor as desigualdades e os estigmas que cercam a velhice, defendendo que essa fase precisa ser compreendida com profundidade e respeito.

O ensaio evidencia como a sociedade frequentemente marginaliza quem envelhece e reforça a urgência de repensar valores, políticas públicas e formas de convivência – questões diretamente ligadas ao debate proposto pelo ENEM sobre o envelhecimento no Brasil.
As intermitências da morte (2020), por José Saramago
Após séculos sendo temida e odiada, a própria morte resolve tirar férias. Em um país sem nome, as pessoas simplesmente param de morrer e aquilo que, à primeira vista, parece um milagre, logo se transforma em um colapso social. Idosos e doentes passam a viver indefinidamente, hospitais e lares se sobrecarregam, funerárias e seguradoras entram em crise, e até o governo e a Igreja se veem perdidos diante de uma vida que já não conhece seu fim.

Com ironia e sensibilidade, Saramago revela como a mortalidade humana dá sentido à existência e estrutura nossas relações sociais, éticas e políticas. A ausência da morte, em sua metáfora provocadora, expõe o modo como a sociedade moderna teme o envelhecimento, nega a finitude e fracassa em lidar com a dignidade de quem envelhece.
A obra, ao abordar o limite entre vida e morte, convida à reflexão sobre o cuidado, o tempo e a necessidade de políticas que acolham o envelhecer com humanidade – questões que dialogam diretamente com o eixo temático do ENEM 2025.
O velho e o mar (2013), por Ernest Hemingway
Santiago é um velho pescador que atravessa uma fase amarga: já são 84 dias sem conseguir fisgar um peixe. Visto como um azarado por sua comunidade, ele se recusa a desistir e parte sozinho para alto-mar, onde trava uma batalha épica, física e espiritual, com um enorme peixe que simboliza sua perseverança e dignidade.

Com linguagem concisa e profundamente simbólica, Hemingway constrói uma narrativa sobre a solidão, a superação e a força interior de um homem que enfrenta o desgaste da idade sem perder a fé em si mesmo. O livro, publicado pela primeira vez em 1952, venceu o Pulitzer, em 1953, e foi decisivo para o Nobel do autor, em 1954.
A trajetória de Santiago reflete a vivência, os desafios e a resiliência da pessoa idosa, abordando temas como autonomia, invisibilidade social, força emocional e o valor da experiência acumulada – elementos que dialogam diretamente com as perspectivas sociais, culturais e humanas do envelhecimento tratadas no tema do ENEM.
Uma história da velhice no Brasil, por Mary Del Priore
Neste livro, a historiadora reconstrói o percurso da velhice no país, do período colonial aos dias atuais, mostrando como o modo de ver e tratar os idosos reflete as transformações sociais, políticas e culturais de cada época. Com base em uma ampla pesquisa documental e uma narrativa envolvente, a autora revela como a imagem da pessoa idosa oscilou entre a de sabedoria e respeito e a de abandono e invisibilidade.

Ao percorrer tradições indígenas, discursos da igreja, da medicina e da cultura, o livro evidencia como o envelhecimento foi sendo moldado por valores morais, econômicos e de poder. A partir dessa trajetória, Del Priore provoca o leitor a questionar: o que a história do país nos ensina sobre envelhecer com dignidade?
Mais do que um registro histórico, a obra é um convite à reflexão sobre o presente. Em um momento em que o Brasil se torna uma nação cada vez mais longeva, compreender o passado da velhice é essencial para construir políticas e práticas mais humanas, inclusivas e sensíveis ao envelhecer, exatamente o debate proposto pelo tema da redação do ENEM 2025.

O envelhecer, como mostram essas obras, é mais do que um processo biológico: é um gesto de humanidade. Cada história, à sua maneira, nos lembra que o tempo não é um inimigo, mas uma linguagem e que aprender a envelhecer é, talvez, uma das formas mais bonitas de compreender a vida.
Que outras leituras te ajudaram a pensar o envelhecimento com mais sensibilidade? Compartilhe com a gente em nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!
Leia também: Especial | Quem cuida de quem cuida?
Texto revisado por Larissa Couto @larscouto









