Ao transformar empatia em força narrativa, o filme revela novas camadas sobre o feminino e seus espaços possíveis
A nova adaptação de Frankenstein da Netflix chega em um momento em que o debate sobre a representação feminina nunca esteve tão vivo e tão saturado. Há décadas, a literatura gótica e o cinema de horror trabalham as mulheres como figuras de função: a mãe que acolhe ou a amante que redime. São papéis que carregam força simbólica, mas que limitam tudo o que uma personagem pode ser. E é justamente nesse ponto que nasce a potência da nova Elizabeth.

A personagem não entra na narrativa para cumprir uma única função, mas sim para deslocar as expectativas. Ela se move em fronteiras onde a ficção raramente deixa mulheres existirem: é curiosa, racional, sensível, intelectual e espiritualizada – tudo ao mesmo tempo. Essa multiplicidade não é um excesso; é uma reivindicação.
Um olhar feminino que nunca foi neutro

É impossível discutir o filme Frankenstein sem lembrar que o romance original nasceu da mente de Mary Shelley, uma mulher que refletiu sobre o medo, a criação, a solidão e a responsabilidade em uma época em que esses temas eram considerados propriedade dos homens. A nova adaptação, ao colocar Elizabeth no centro do conflito moral e emocional da história, ecoa essa origem feminina que tantas leituras, ao longo dos séculos, apagaram.

Durante muito tempo, as mulheres na ficção foram convocadas a sentir, enquanto os homens eram autorizados a pensar, a criar, a errar e a destruir. Todavia, Elizabeth rompe essa divisão. Seu olhar não é maternal por fragilidade, nem romântico por idealização: é um olhar treinado pela ciência e moldado por uma sensibilidade que não se permite ser diminuída.
Empatia como linguagem, não como destino
Um dos aspectos mais instigantes da personagem é a forma como ela percebe a Criatura. Não como um erro ou ameaça, mas como algo que merece ser compreendido. Essa resposta não deriva de um instinto maternal, como tantas narrativas tentam justificar. Surge de uma ética científica e existencial: Elizabeth enxergou beleza no que o mundo descartou muito antes de topar com a Criatura.

Essa empatia nasce da maneira como ela lê o invisível. Ela é uma naturalista fascinada por organismos minúsculos, frágeis e efêmeros – e isso não é apenas um detalhe, é um posicionamento filosófico. Para ela, o pequeno importa. A existência importa. A diferença importa.

Quando a Criatura lhe oferece uma simples folha, o gesto é mais do que ternura. É reconhecimento. É um encontro entre dois seres acostumados à incompreensão: a Criatura por ser um corpo impossível; Elizabeth por viver em um mundo que questiona cada espaço que ela ocupa.
Romance e espiritualidade: camadas que se recusam a se excluir

Ao mesmo tempo, o filme não recusa o romance. Ele o assume como uma energia gótica, trágica e densa, que não se encaixa em moldes convencionais. É uma identificação que não nasce da idealização do outro, mas da consciência de que ambos são deslocados, feridos e buscam um tipo de sentido em uma sociedade que teima em lhes negar esse direito.

E, para além disso, existe a dimensão espiritual. Elizabeth carrega uma inquietação que antecede Victor Frankenstein. Há uma busca por transcendência, por respostas que unem ética, fé e curiosidade – elementos historicamente negados às mulheres, que foram ensinadas a sentir, mas jamais a questionar o divino ou o desconhecido.
A recusa em caber no papel
O mais interessante é que o filme não tenta definir Elizabeth. Ele não escolhe entre mãe, amante, cientista ou devota. Ele não força um destino, não moraliza suas decisões e não simplifica sua presença.

Em vez disso, ele expõe algo que raramente vemos representado: a complexidade do feminino como força narrativa. Elizabeth é uma mulher que pensa e sente, que acolhe e confronta, que ama e observa, que vê beleza e vê perigo. Ela é contradição, nuance e densidade – atributos tradicionalmente reservados aos protagonistas masculinos.

Talvez a maior ousadia da adaptação esteja exatamente nisso: permitir que uma mulher exista em todas as esferas ao mesmo tempo, sem ser punida pela narrativa e sem precisar escolher um papel definitivo.
O que o novo Frankenstein nos diz sobre o agora
A história funciona como espelho do que ainda esperamos das mulheres no século XXI. Queremos que compreendam tudo, cuidem de tudo, sintam tudo. Queremos que sejam bússolas morais, musas românticas, guardiãs emocionais. Contudo, raramente permitimos que sejam complexas sem justificativa.

Elizabeth desconstrói esse roteiro restrito. Ela se move entre o racional e o afetivo sem pedir desculpas. Ela ama e confronta. Ela acolhe e analisa. Ela vê humanidade onde ninguém quer ver e, ao mesmo tempo, enxerga a monstruosidade no que é humano demais.
A nova adaptação de Frankenstein não redefine apenas a Criatura: redefine a mulher que ousa enxergá-la.

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz









