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Imagem: divulgação/Entretetizei

Resenha | As Irmãs de Amarelo: novo romance de Mieko Kawakami retrata a desigualdade social no Japão com recorte de gênero

Ambientada no fim dos anos 1990, a história acompanha jovens que enfrentam pobreza, violência e exclusão em meio às transformações da sociedade japonesa

Após o sucesso de Peitos e Ovos, Mieko Kawakami voltou às estantes dos leitores brasileiros em setembro com o novo romance As Irmãs de Amarelo, livro vencedor do Prêmio Yomiuri de Literatura em 2024.

A história acompanha Hana, que, em meio à pandemia de Covid-19, encontra uma notícia sobre Kimiko Yoshikawa, uma figura importante de seu passado. Com a descoberta do caso sinistro, o medo de que seu passado conturbado venha à tona a faz revisitar sua adolescência no fim dos anos 1990. 

A história retrata os desafios de crescer às margens da sociedade japonesa como mulher. Em sua juventude, ela se reuniu para morar com outras jovens que viviam situações semelhantes. Assim, entre amizades, pobreza, crimes e traições, a narrativa não linear leva o leitor ao passado e futuro, questionando lealdade e expondo uma trama que realça as vulnerabilidades humanas e sociais. 

Não é preciso anunciar para ser uma crítica 

O livro conta uma história muito forte. São 500 páginas repletas de reviravoltas, 500 páginas em que Hana recomeça incessantemente sua caminhada rumo ao seu objetivo final: uma vida segura e confortável. 

Desde o início sabe-se que existe um cenário criminoso, e como não sabemos ao certo quando ele entra em cena, a tensão construída se mantém de forma a deixar a leitura ainda mais instigante. 

Hana é uma jovem que cresceu sendo negligenciada por sua mãe e pela sociedade. Quando ela tenta assumir as rédeas de sua vida, com apenas 15 anos, vê seu pequeno pedaço de esperança escapar de suas mãos. 

A protagonista é batalhadora, determinada e muito esperta. Embora o cenário em que ela se colocou desde o início a deixe alerta, ela permanece ali e, quando percebe, é tarde demais. 

A história é narrada em primeira pessoa, e a nossa desconfiança é a mesma de Hana, mesmo que ela não saiba apontar isso. 

Um dos poucos momentos de felicidade que encontramos nesse livro vem justamente quando ela se permite viver uma juventude tranquila, com passeios longos com as amigas da mesma idade, idas ao McDonald’s e karaokês. Mas isso acaba, e é possível ver o exato momento em que tudo se transforma para a Hana, o segundo em que a ansiedade e a apreensão tomam conta da protagonista e mudam o rumo de sua história. 

O contexto cultural é muito bem desenvolvido, e quem não está familiarizado com a escrita japonesa é convidado a mergulhar em uma viagem. 

No fim, a mensagem do livro é muito clara: uma jovem sem apoio familiar, sem educação de qualidade, sem apoio psicológico ou financeiro, que cresce em uma sociedade que exige dela os mesmos resultados daqueles que tiveram acesso a tudo isso e muito mais. Que futuro resta a ela?

Esse é o outro lado da marginalização, o lado de quem cresceu sozinha. 

A obra não questiona a meritocracia mostrando que não é possível ascender socialmente. Ela apenas demonstra como as oportunidades não são igualmente distribuídas e, ao fim do livro, você se depara com uma menina que tentou repetidamente e, de repente, suas tentativas se esgotaram. 

Não é uma leitura que leva você a criticar a protagonista, mas sim a questionar como ela chegou até ali. Mieko Kawakami entrega a seus leitores um livro que diverte e propõe diversas reflexões. 

Sobre a autora 

Foto: reprodução/ Literatura Japonesa

Nascida em Osaka, Mieko Kawakami vive atualmente em Tóquio, no Japão. Seu livro Peitos e Ovos foi eleito um dos livros notáveis do ano pelo New York Times e um dos dez melhores livros de 2020 pela revista Time. Seus outros romances incluem Hevun (Paraíso), finalista do International Booker de 2022, e Subete Mayonaka no Koibito tachi (Todos os amantes da noite), finalista do National Book Critics Circle de 2023 na categoria ficção. 

Seus livros, traduzidos para mais de quarenta idiomas, são conhecidos por reflexões sobre o corpo feminino e por questões filosóficas sobre gênero, classe e ética na sociedade moderna. 

 

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Texto revisado por Gabriela Matuk

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