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Foto: divulgação/TV Globo/Entretetizei

Clube do livro do Tufão: os clássicos que tentaram avisar o personagem em Avenida Brasil

Os dez livros que apareceram na estante do ex-jogador de futebol revelam conexões surpreendentes com os conflitos da novela

Se existe um clube do livro mais improvável da televisão brasileira, ele certamente pertence ao Tufão. Durante Avenida Brasil (2012), o ex-jogador interpretado por Murilo Benício desenvolve o hábito da leitura por incentivo de Nina (Débora Falabella) e passa a aparecer em cena acompanhado por alguns dos maiores clássicos da literatura mundial.

Foto: reprodução/UOL

O detalhe é que muitos desses títulos pareciam conversar diretamente com os dramas que ele vivia. Enquanto tentava entender as pessoas ao seu redor, Tufão lia histórias sobre traições, ilusões, identidades fragmentadas e personagens incapazes de enxergar o que estava bem diante dos próprios olhos. Coincidência? Nem tanto. Segundo João Emanuel Carneiro, autor da novela, a escolha dos dez livros ajudava a comentar a trama nas entrelinhas.

A traição entra em cena, mesmo que escondida

Os relacionamentos marcados por mentiras, suspeitas e expectativas frustradas ocupam um espaço importante na seleção literária de Tufão. Em Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert, Emma Bovary busca fora do casamento a felicidade que acredita merecer, alimentando sonhos românticos que a afastam cada vez mais da realidade. Já em O Primo Basílio (1878), de Eça de Queirós, uma relação extraconjugal desencadeia uma série de acontecimentos que expõem fragilidades pessoais e hipocrisias sociais.

Foto: reprodução/X @gomzsquita

A mesma temática aparece em Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis. Embora o romance seja lembrado pela eterna discussão sobre a possível traição de Capitu, a obra também trata das incertezas que cercam os relacionamentos e da dificuldade de distinguir fatos, percepções e interpretações. Em comum, os três livros exploram vínculos atravessados por segredos, desejos e versões conflitantes da verdade.

Não por acaso, esses elementos também estão no centro de Avenida Brasil. Grande parte dos conflitos da novela nasce justamente de relações construídas sobre mentiras, traições e interesses ocultos, fazendo com que a descoberta da verdade se torne um dos principais motores da narrativa.

A dificuldade de enxergar a verdade, mesmo usando óculos 

Outro tema recorrente entre os livros lidos por Tufão é a distância entre aquilo que os personagens acreditam enxergar e o que realmente acontece ao seu redor. Em O Idiota (1869), de Fiódor Dostoiévski, a bondade do príncipe Míchkin faz com que ele se torne alvo de manipulações e interesses alheios. Já em Dom Quixote (1605), de Miguel de Cervantes, a idealização transforma completamente a percepção do protagonista sobre a realidade.

Foto: reprodução/AdoroCinema

Essa discussão também aparece em O Alienista (1882), de Machado de Assis. Por meio da trajetória de Simão Bacamarte, o autor questiona os limites entre razão e loucura, mostrando como a interpretação dos fatos pode ser mais complexa do que parece.

Em muitos momentos, Tufão percorre um caminho semelhante. Cercado por mentiras cuidadosamente construídas, ele demora a perceber aquilo que os espectadores já sabiam, transformando sua trajetória em um retrato da confiança excessiva e da dificuldade de reconhecer sinais que estavam à vista o tempo todo.

O que as aparências (mais ou menos) escondem

Além das questões ligadas à traição e à percepção da realidade, alguns dos livros presentes na novela direcionam o olhar para aquilo que permanece oculto sob a superfície. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis desmonta convenções sociais para expor vaidades, interesses e contradições que costumam permanecer escondidos por trás das aparências.

Essa ideia também pode ser percebida em A Metamorfose (1915), de Franz Kafka, obra que explora sentimentos de estranhamento, isolamento e transformação da identidade. Já em A Interpretação dos Sonhos (1899), Sigmund Freud propõe uma investigação sobre desejos, emoções e conflitos que permanecem fora da consciência, mas influenciam diretamente o comportamento humano.

Foto: reprodução/X @valerumlivro

Apesar de pertencerem a gêneros e períodos distintos, os três títulos compartilham o interesse por aquilo que não é imediatamente visível. Na novela, essa mesma lógica move boa parte da trama, já que quase todos os personagens escondem segredos, ressentimentos, ambições ou planos que só são revelados ao longo da história.

Uma reflexão sobre o amor

Em meio a histórias marcadas por enganos, segredos e desilusões, O Banquete (380 a.C.), de Platão, surge como uma presença singular na biblioteca de Tufão. O diálogo platônico reúne diferentes discursos sobre o amor, o desejo e as relações humanas, propondo reflexões que continuam atuais.

Foto: reprodução/Guia do Estudante

A inclusão da obra amplia o alcance da seleção literária apresentada na novela. Mais do que discutir traições ou conflitos, o livro convida à reflexão sobre os vínculos que estabelecemos ao longo da vida e sobre as diferentes formas de compreender o afeto. Nesta trama movida por paixões intensas, relações familiares complexas e escolhas motivadas pelo amor, sua presença reforça o caráter universal dos temas explorados tanto pela literatura quanto pela teledramaturgia.

As respostas estavam na estante 

Quase todos os livros da biblioteca de Tufão abordam temas como engano, autoilusão, traição, identidade e a dificuldade de reconhecer a verdade. Não por acaso, muitos deles pareciam antecipar os conflitos vividos pelo personagem ao longo da novela. Um dos exemplos mais lembrados acontece após uma briga entre Carminha e Max (Marcello Novaes), quando a cena corta para Tufão lendo Madame Bovary e resumindo a obra como “a história de uma mulher que trai o marido, mas não gosta do amante”. 

Mais do que referências literárias inseridas na trama, essas obras mostram como a literatura permanece relevante ao oferecer diferentes perspectivas sobre comportamentos e relações humanas. Ao aproximar clássicos de uma narrativa popular como Avenida Brasil, a novela também evidenciou a capacidade dos livros de dialogar com experiências contemporâneas e ajudar leitores a refletirem sobre situações que atravessam gerações.

Talvez Tufão não tenha conseguido interpretar todos os avisos escondidos nas páginas que lia. Para o público, porém, a estante do personagem acabou se tornando mais uma camada da história e uma lembrança de que certas perguntas sobre a vida continuam encontrando respostas na literatura.

Foto: reprodução/Extra Online – Globo

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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