Do romance à biografia, essa seleção destaca a potência da arte negra diante de anos de silenciamento
Oficializado como feriado nacional em 2023, o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra já faz parte do calendário do Brasil há, pelo menos, uma década. Criado em homenagem à luta de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da história do país, a data marca não somente um dia de resistência, mas sim um mês de reconhecimento e celebração da potência cultural da população negra.
Pensando nisso, o Entretê preparou uma lista com 12 livros, escritos por autoras e autores negros e dos mais variados gêneros, que narram histórias sobre ancestralidade, representatividade e esperança.
A Rainha da Rua Paissandu (2025) – Ruth de Souza com Lázaro Ramos
Responsável por inspirar gerações na arte da dramaturgia, Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a primeira brasileira a ser indicada a um prêmio internacional de cinema: Melhor Atriz, no Festival de Veneza de 1954.

Mas foi aos 98 anos, e através da escrita de Lázaro Ramos, que Dona Ruth decidiu compartilhar suas histórias pessoais e profissionais. Em A Rainha da Rua Paissandu, Lázaro revisita as lembranças de uma das grandes damas da dramaturgia, tecendo um livro-homenagem em que teatro, memória e tributo se misturam. A narrativa reflete sobre a construção da identidade da mulher que se tornou referência de representatividade negra nos palcos e nas telas.
Trança a Trança (2025) – Madu Costa, com ilustrações de Ana Paula Sirino
Como o simples ato de trançar o cabelo pode se tornar um símbolo de esperança e ancestralidade? Madu Costa responde essa pergunta ao escrever Trança a Trança.

Nessa história, a autora explora a conexão entre uma avó e sua neta que fazem do momento de trançar seus cabelos um resgate de antigos ritos. Além disso, reforça a esperança em um futuro que se constrói aos poucos.
Combinada à sensibilidade das ilustrações de Ana Paula Sirino, a narrativa tece um paralelo poderoso entre a escrita delicada da autora e as vivências marcantes da ilustradora no quilombo Torra, no estado de Minas Gerais.
Sopro dos Deuses (2024) – Fábio Kabral

Explorando o lado fantástico, Fábio Kabral convida os leitores a embarcarem em uma aventura inspirada pela mitologia afro-brasileira, abençoada pelos orixás e que dança entre opostos complementares: luz e escuridão, vida e morte, criação e destruição, amor e guerra.
Sopro dos Deuses conta a história de Kayin, um garoto solitário que habita um reino de caçadores, regido por Oxóssi, chamado Irubim, e de Ainá, princesa rebelde de Ijexá, reino governado por feiticeiras filhas de Oxum.
Ao se depararem com a ameaça vinda de espíritos malignos, os dois precisarão se unir para salvar as Terras Encantadas do Aiê dos perigos da noite sem fim.
A escrita de Kabral intensifica as relações entre os humanos e a espiritualidade, já que é através da força vinda da ancestralidade que os protagonistas partirão em uma batalha que mudará suas vidas para sempre.
O Mundo Depois de Nós (2023) – Rumaan Alam
O best-seller que inspirou o filme homônimo da Netflix conta a história de Amanda e Clay, um casal que aluga uma casa em um lugar remoto de Long Island, pensando em aproveitar um tempo com os filhos.

Porém, quando os supostos proprietários do lugar batem à porta, alegando que um blecaute devastou a cidade e que precisam de abrigo, os protagonistas não têm escolha a não ser confiar neles.
O Mundo Depois de Nós é um thriller instigante e perspicaz, que leva o leitor a questionar tudo que entende sobre raça, a ideia que fazemos de nós mesmos e o que seria a verdadeira conduta moral e ética a ser seguida quando o que está em xeque é a própria sobrevivência.
Alguma Coisa, Algum Dia (2024) – Amanda Gorman, com ilustrações de Christian Robinson

E se deixarmos de lado o pessimismo e acreditarmos que sonhar juntos é uma ferramenta invencível? Esse é o convite feito por Amanda Gorman em Alguma Coisa, Algum Dia.
Nesse livro, ilustrado por Christian Robinson, a autora busca mostrar que gestos de união e empatia são a chave para a real transformação do mundo.
Guiando o leitor para uma perspectiva poderosa de esperança – e, por que não, com uma pitadinha de amor? –, a autora demonstra que, mesmo em um cenário caótico, é possível reencontrar a beleza do mundo e cultivá-lo em um lugar melhor.
Um Traço até Você (2023) – Olívia Pilar
Lina tem quase tudo na vida. Uma garota negra, de classe média-alta, aluna de uma das melhores universidades do país, aparentemente levando uma vida perfeita. No entanto, a falta de apoio dos pais para a conquista dos sonhos leva Lina a duvidar de si mesma. É nesse contexto conturbado que ela encontra Elza, uma estudante do curso de Letras que a faz perceber que o mundo não a vê da forma que ela imaginava.

Em Um Traço até Você, Olívia Pilar narra, de forma cativante e acolhedora, a construção da relação entre duas garotas, que, enquanto enfrentam as adversidades da vida adulta, precisam descobrir quem são e quem querem ser em um mundo que tenta restringir seus passos.
As Verdades que Nos Movem (2024) – Kamala Harris
Em As Verdades que Nos Movem, a ex-vice presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, busca, na sabedoria adquirida ao longo da carreira e no trabalho de pessoas que a inspiraram, as bases para a narrativa desse livro.

Sendo filha de imigrantes e tendo crescido em Oakland, cidade reconhecida por seu intrínseco senso de justiça social, a autora tece em seu livro direcionamentos para gestão de crises, além de dar uma aula sobre liderança em tempos de crise.
A Outra Garota Negra (2021) – Zakiya Dalila Harris
Publicado em junho de 2021, A Outra Garota Negra é o romance de estreia de Zakiya Dalila Harris. Após alguns anos atuando como assistente editorial, a autora resolveu transformar suas experiências em livro.

Assim, a narrativa acompanha Nella, única funcionária negra da editora em que trabalha, que vê sua vida virar de cabeça para baixo após a chegada de Hazel. Cansada de se sentir deslocada, Nella vê em Hazel uma aliada. Porém, quando começa a receber mensagens ameaçadoras, Nella entra em uma espiral de obsessão e paranoia.
Com isso, a rotina se torna um pesadelo e a jovem começa a perceber que, talvez, haja muito mais em risco do que apenas sua carreira
Jogo dos Ladrões (2024) – Kayvion Lewis
Rosalyn vem de uma importante família de ladrões. Porém, ao contrário de seus parentes, a garota só deseja entrar na faculdade e levar uma vida normal.
No entanto, os planos dela são frustrados quando descobre que sua mãe foi sequestrada e que, para salvá-la, precisará entrar no temido Jogo dos Ladrões, uma competição mortal com um prêmio inestimável: a realização de qualquer desejo do vencedor.

Em meio a missões árduas, adversários que mexem com suas emoções e grandes reviravoltas, as dúvidas começam a surgir e Rosalyn se questionará se realmente existe honra entre ladrões.
Jogo dos Ladrões é a primeira publicação de Kayvion Lewis no Brasil e já possui adaptação audiovisual em andamento pela Lionsgate.
Precisa Dar Certo (2024) – Nath Finanças

Amplamente conhecida nas redes sociais por suas dicas financeiras e de gestão, Nath Finanças escreve Precisa Dar Certo, um guia prático em que o leitor conhecerá o passo a passo para abrir seu próprio negócio e torná-lo bem-sucedido.
Trazendo sua linguagem acessível e didática da internet para as páginas do livro, Nath oferece insights poderosos, destaca as dificuldades de empreender no Brasil e explica como é possível superar algumas delas.
A autora aborda também como as questões de raça e gênero impactam diretamente na criação de novos negócios, já que as mulheres, em especial as negras, são mais propensas a empreenderem por necessidade.
Lendários (2021) – Tracy Deonn
Publicado em julho de 2021, Lendários é o primeiro livro da série homônima criada por Tracy Deonn. Aqui, a narrativa acompanha a história de Briana Mathews, que, após perder a mãe, descobre a existência de uma ordem milenar responsável por manter a humanidade livre de demônios: os Lendários.

Buscando entender a magia e os segredos que permeiam seu passado e suas vivências atuais, Bree resolve se aliar a Nick, um autoexilado da Ordem.
Em meio a esse cenário de caos, a garota encontra, dentro de si, uma força ancestral que pode ser decisiva para a guerra entre magos e demônios.
É nessa realidade fantástica que a autora aborda temas como racismo, ancestralidade e privilégios, unindo-os a uma excelente aventura por sociedades secretas.
A Casa dos Significados Ocultos (2024) – RuPaul Charles
Neste relato íntimo, profundo e honesto, RuPaul Charles, criador de uma das franquias mais bem-sucedidas da história da televisão, explora suas memórias, narrando episódios de sua vida desconhecidos do público.

A Casa dos Significados Ocultos é uma visita aos anos iniciais da vida de um garoto negro queer em San Diego. Tornando-se, anos depois, um ícone pop, RuPaul volta às raízes ao expor memórias controversas como a relação com o pai ausente e com a mãe temperamental, além de resgatar o início de sua carreira, a estabilidade no amor e a autoaceitação na sobriedade.
Ainda que o livro discorra sobre temas tão complexos, o autor traz sua personalidade leve e carismática, já tão conhecida no Drag Race, para a escrita, tornando a narrativa um verdadeiro manual para a vida.
Essas obras não contam apenas histórias, elas exploram a vulnerabilidade, a sensibilidade e as vivências de seus autores, refletindo seus ideais pessoais e a força de um povo culturalmente rico que, por muito tempo, teve suas características, vozes e narrativas silenciadas.
O mês da Consciência Negra não se trata somente de saber sobre a data, mas sim de entender a importância e contribuição desse grupo para a formação do país, de conhecer suas falas, de abrir espaço à luta e às produções de uma população que tem muito a compartilhar.
Gostou da lista e se interessou por algum dos livros? Conta pra gente nas redes sociais do Entretê – Facebook, Instagram e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê, para conversar sobre leituras incríveis!
Leia também: Confira três documentários nacionais para maratonar em um fim de semana
Texto revisado por Alexia Friedmann









