A coletânea de contos Vésperas traz visões singulares da vida de importantes nomes da literatura como Clarice Lispector e Virginia Woolf
Vésperas, da escritora catarinense Adriana Lunardi, apresenta ao leitor um retrato ficcional de como teriam sido os últimos momentos de grandes mulheres da literatura mundial. A obra, publicada pela primeira vez em 2002, acaba de receber uma edição revista pelo Grupo Editorial Record.
A ideia nasceu depois que Lunardi descobriu o final trágico de Zelda Fitzgerald: ela, então, começou a se indagar quais teriam sido as últimas reflexões de outras escritoras igualmente célebres.
No livro, Adriana Lunardi teve o trabalho de imaginar os últimos momentos de nove autoras, pelo ponto de vista delas próprias ou de pessoas próximas a elas. Dessa maneira, o leitor acompanha contos sobre Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina Cesar, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa. Além disso, o título de cada história traz um pseudônimo ou apelido, como Ginny para Virginia Woolf.
Para recriar períodos tão íntimos e singulares de tais escritoras, Adriana Lunardi se valeu de dados biográficos e também de uma leitura atenta dos textos delas. Assim, ela estabelece uma imagem viva das suas angústias, memórias e reflexões sobre o fazer literário e a finitude. Por meio de perspectivas inesperadas, Lunardi cria uma narrativa sensível, mas que oferece um vislumbre da complexidade dessas mulheres das Letras.
Adriana Lunardi é vencedora dos prêmios Açorianos, Biblioteca Nacional para Obras em Andamento, Fumproarte e Icatu de Artes. São também de sua autoria os livros Corpo Estranho (2006) e A Vendedora de Fósforos (2011). Em 2019, coescreveu o seriado da Globo Ilha de Ferro.
Em entrevista ao Entretetizei, a escritora reflete sobre o processo de escrita de Vésperas e outros pensamentos sobre o universo literário. Confira:
Entretetizei: Vésperas recria os últimos momentos de grandes escritoras da literatura. O que motivou você a mergulhar nesse instante tão íntimo e final da vida dessas mulheres?
Adriana Lunardi: Ao ler uma biografia de F. Scott Fitzgerald, descobri o final trágico de Zelda em um incêndio no sanatório em que ela estava internada. Havia grades nas janelas para a “proteção” dos pacientes e ninguém conseguiu escapar das chamas e da fumaça.
O impacto dessa revelação, a brutal ironia que a tragédia continha, levou-me de imediato a escrever sobre o episódio. A partir de então, comecei a indagar sobre os últimos momentos de autoras que haviam me formado, primeiro como leitora, depois como escritora. Assim surgiu Vésperas.
E: O livro foi lançado em 2002 e agora retorna em uma edição revista. O que mudou na sua visão da obra e da escrita nesse intervalo de mais de duas décadas?
AL: Revisitar o passado pode ser desconcertante, assim como reler um livro escrito muito tempo atrás. Sobrevém a memória de uma época em que eu havia trocado Porto Alegre pelo Rio de Janeiro e levava com Max [marido de Adriana] uma vida economicamente apertada, entregue a pesquisas e horas de criação – e muitas renúncias, principalmente.
Foram três anos entre a história de Zelda e a publicação. Respeito esse tempo. Olhando agora, acho o resultado perdoável. A revisão que fiz foi mínima. Troquei um verbo aqui, cortei um adjetivo ali, umas vírgulas desnecessárias. Devo acrescentar que Vésperas me trouxe muitas alegrias. Viagens, em especial.
E: As personagens são apresentadas por apelidos ou pseudônimos, como Ginny para Virginia Woolf. O que esse gesto de nomear representa para você, enquanto autora?
AL: Um apelido nasce da intimidade. Pertence àquele universo entre quatro paredes, onde se desenvolve uma biografia afetiva, menos patriarcal, com fatos e dinâmicas domésticos e um idioma particular para expressá-la. O apelido preserva algo da infância, dos quartos, dos irmãos. Seria o nosso nome no paraíso perdido. Às vezes, ele tem origem em um balbucio, noutras, em um traço de personalidade que valerá por alcunha. Em todos os casos, guarda um segredo: não é para ser usado por todo mundo.
E: Como foi o processo de pesquisa para construir esses retratos ficcionais? Houve alguma história que te exigiu mais emocionalmente?
AL: A cada vez, eu montava uma bibliografia específica para a narrativa a ser escrita. Começava por reler a obra autoral, de preferência em ordem de publicação, depois me dedicava à pesquisa de cartas, diários e biografias. Os dados biográficos me ajudavam a remontar o percurso histórico, realista, mas a obra escrita pelas autoras tinha mais importância para o projeto. Eu estudava a pontuação, a economia vocabular e a sintaxe das autoras.
Há 20 anos, a internet era uma ferramenta muito rudimentar. Precisei contar com a biblioteca de amigos, a pesquisa em jornais e a leitura de livros em outros idiomas. O mais difícil foi escrever sobre Clarice, uma escritora muito cara à literatura brasileira e muito viva na memória de seus familiares e amigos. Com Ana Cristina, tive sempre em mente que seu pai, Waldo Cesar, ainda estava vivo. Eram dificuldades íntimas – e éticas, sobretudo. O projeto, nunca esquecer, era reunir escritoras importantes para mim, então [era] o que eu não poderia, ante as dificuldades, deixar de escrever sobre elas.
E: A escolha por abordar temas como morte, solidão e doença é delicada. Como você equilibrou o respeito à memória dessas autoras com a liberdade criativa da ficção?
AL: Estabeleci uma convenção simples, em que os dados de morte fossem de conhecimento público, extraídos de biografias e da imprensa. Nisso, não há invenção. No mais, reservei-me o direito à imaginação.

E: O livro é, em si, uma homenagem amorosa. Que marcas da sua própria relação com a literatura feminina estão presentes nessas narrativas?
AL: As escritoras de Vésperas fizeram parte da minha formação de leitora, escritora e, também, como ser humano. Criar personagens femininas tornou-se, assim, tão natural quanto ler autoras. A bem da verdade, é a boa literatura que me interessa, e às vezes essa literatura está à margem do cânone.
E: Algumas dessas autoras lidaram com o sofrimento psíquico e a angústia criativa. Você vê paralelos entre essas vivências e os desafios da escrita hoje?
AL: Sempre fui de poucas palavras. Gosto de criar, de ficar absorta, entregue ao processo, reescrever frases, montar parágrafos – enfim, a parte divertida do ofício. Também não sou uma escritora que escreve por impulso, por necessidade de se expressar. Tenho longos períodos de silêncio e não há o que fazer quanto a isso.
No íntimo, acho que um livro é escrito para acrescentar um objeto à realidade – não com a intenção de modificá-la, mas para multiplicar suas possibilidades. Escrever é uma atividade exigente, nem sempre estou pronta para ela.
E: Se pudesse conversar com uma das autoras retratadas no livro, qual escolheria e o que gostaria de perguntar?
AL: Se me conheço bem, ficaria em silêncio, observando, ouvindo e anotando tudo mentalmente para um dia escrever sobre esse encontro.
E: Como foi para você transitar entre a literatura e o audiovisual, como coautora do seriado Ilha de Ferro? Esses universos dialogam na sua criação?
AL: Na série Ilha de Ferro pude desenvolver a habilidade de escrever diálogos irônicos e cortantes para personagens que, por trabalharem em uma plataforma de petróleo, enfrentavam riscos radicais e acabavam viciados em uma vida de emoções no limite.
As personagens femininas, creio, ganharam um protagonismo não planejado na sinopse inicial, bem como a voltagem dramática. Embora a prosa e a dramaturgia exijam da escrita pesos diferentes – uma é a arte da palavra, a outra é [a] arte da ação – o trabalho de criação tem a mesma exigência. Você deixa a marca de autoria em tudo que faz.
E: Que leituras contemporâneas de autoria feminina têm tocado você hoje? Alguma nova “Véspera” em vista?
AL: Aprecio muito a obra de Alice Munro e de Paula Fox, que faleceram há pouco, Myriam Campello, que é uma autora de autoras, e Adriana Lisboa, que vem produzindo livros diversos entre si e é poeta.
E: Muitas das autoras retratadas em Vésperas viveram em contextos muito diferentes do nosso, mas ainda assim continuam despertando fascínio, inclusive entre jovens da geração Z. A que você atribui esse interesse renovado por essas vozes femininas do passado?
AL: Embora cada geração demonstre interesses próprios de sua época, ao longo da história os sentimentos humanos se mantêm os mesmos. O amor, a opressão e o mistério da finitude continuam a produzir e alimentar o interesse pela arte. Na juventude, quero crer, estamos mais abertos às possibilidades do mundo.
É quando a nossa sensibilidade, afiadíssima, questiona verdades sobre passado e presente, origem social, idioma e gênero. A realidade, descobrimos, é só parte da experiência, sua narrativa pode e deve ser mudada. De A a Z, lê quem prefere encarar a existência em sua possibilidade mais poderosa: com imaginação.
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Texto revisado por Gabriela Fachin @gabrieladfachin









