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Foto: divulgação/Ana Victoria Almeida

Entrevista | Ana Victoria Almeida faz a doença ganhar voz na literatura

Em entrevista ao Entretê, a autora reflete sobre Me Abrace Antes da Queda, livro que humaniza o mal de Parkinson e investiga os vínculos familiares

Em seu romance de estreia Me Abrace Antes da Queda, a escritora Ana Victoria Almeida olha para o diagnóstico da doença degenerativa, com base em sua experiência com o avô, como um ponto de partida para a escrita literária. Ela faz isso de maneira empática e dá voz ao próprio mal de Parkinson, transformando-o em um narrador-personagem.

Ao invés de tratar a situação apenas como um fardo, a autora deixa a doença mais palpável, como um corpo que adentra o lar de uma família sem aviso, e com o qual todos terão que aprender a conviver.

Ana Victoria Almeida é escritora, roteirista e pesquisadora de conteúdo. Além de seus trabalhos em diversos programas de TV, como Os Homens São de Marte, e sua colaboração na pesquisa de conteúdo com nomes como Ana Abreu, Susana Garcia, Mônica Martelli e Paulo Gustavo, Me Abrace Antes da Queda é seu primeiro romance.

Entretetizei: Como surgiu a escolha de narrar a história a partir do ponto de vista da doença?

 

Ana Victoria Almeida: Surgiu a partir da vontade de me relacionar melhor com o estado do meu avô, que foi diagnosticado com Parkinson. Decidi transformar a doença em um personagem, pois não deixava de ser um corpo que tinha se mudado para casa dos meus avós. Minha avó sempre dizia que a doença estava sendo generosa e empática com meu avô, pois os sintomas apareciam de forma gradativa e lenta. Comecei então a conversar com a doença, para me familiarizar com ela. Desta forma, consegui me aproximar mais do meu avô, e das partes faltantes que se instalavam no dia a dia.

E: Quais foram os maiores desafios em dar voz a algo que, tradicionalmente, é visto apenas como um fardo?

 

A: O maior desafio foi encontrar a origem do Parkinson. Se uma voz existe, ela possui raízes. Como criar raízes para algo que está em constante mutação? Criei uma voz que também encontra seus traços humanos ao se aproximar de uma família. Tudo isso com o intuito de transformar um fardo em algo digerível. Através da ficção, consegui criar uma voz que também possui uma espécie de “herança familiar”. Pensei: uma doença é algo terrível, mas todos nós possuímos uma história, um passado. Qual seria o passado dessa doença, de onde ela veio? Apesar de não irmos a fundo em sua trajetória, vislumbramos resquícios de seu princípio, e vinculamos os sintomas à execução de um trabalho que precisa ser feito. Entendemos que a doença não possui escolha ao se instalar em uma família.

E: Como foi o trabalho de construção dessa voz?

 

A: O trabalho de construção dessa voz se deu a partir de relatos contados pela minha avó e fins de semanas passados na casa dos meus avós. Os objetos da casa serviram como disparadores para fases dessa doença, como a Santana, uma santa barroca que de fato existe na sala da minha avó. Fotos antigas da família com as figuras principais do livro funcionaram como a primeira porta de entrada para a doença. Um relógio carrilhão e seu som também servem como a representação da passagem do tempo e o peso que vem com ele.

E: Sendo seu romance de estreia, você já tinha essa proposta diferente desde o início ou ela foi se transformando ao longo da escrita?

 

A: A proposta da história ser narrada pela doença sempre existiu. Mas o romance passou por diversas modificações. Ele passou por duas leituras críticas, que me ajudaram na confecção dessa história. A primeira versão foi mais pautada na realidade, até porque quis dar pra minha avó ler antes de qualquer um. Apesar de ser ficção, queria que ela se sentisse confortável. Depois dessa primeira versão, tomei liberdade de criar em cima das outras versões. E ela não leu nenhuma das outras. Vai ler só com a publicação do livro. A primeira versão era muito mais focada no seu Zé. O personagem da Mirtes foi ganhando mais força ao longo das outras versões e quase se tornando um protagonista também. Foi bonito, pois percebi que a doença se relaciona às vezes mais com o entorno do que com o corpo que ela ocupa.

E: O livro não se centra apenas no mal de Parkinson, mas nos vínculos que ele evidencia. O que te interessava explorar nessas relações?

 

A: O que mais me interessa é evidenciar os vínculos sendo ressignificados, quando a parte faltante se estabelece. Explorar Mirtes encontrando novos pontos de encontro com Zé me interessou.. Como ela se comunica com ele através apenas de uma mão dada, quando ele encontra dificuldades em falar.. Como ela se veste bonita pra ele, e apenas a observação entre eles se torna um gesto romântico… Como o vínculo se fortalece encontrando frestas não exploradas anteriormente.

E: Há alguma geração que você sentiu mais dificuldade para representar?

 

A: Tive dificuldade em representar a minha geração, ou seja, a geração da bailarina. Ela sente o decorrer do tempo de sua maneira, com suas angústias, inseguranças e percalços. Ao presenciar os sintomas do avô, a bailarina se depara com o medo de perder quem ama, e também de não tê-lo ao seu lado para evidenciar sua vida. Tem uma cena na qual a bailarina, a neta, está se olhando puxando cabelos brancos fora. Essa cena foi difícil de escrever. Apesar de ser uma personagem com angústias legítimas, me parecem inseguranças banais, em comparação com Mirtes. Mas queria que essa geração fosse representada de alguma forma.

E: Seu livro parece dialogar com diferentes gerações. Como você imagina que cada uma perceberá a história?

 

A: Cada geração se relaciona com a história de sua maneira. A geração de Mirtes evidencia uma realidade que está mais próxima dela, sentindo o próprio corpo como algo degenerativo, enquanto a geração da bailarina vislumbra um futuro distante de forma concreta, mas ainda assim próximo, já que tem que testemunhar a dor de pessoas amadas.

E: Você menciona que se trata de uma doença comum, mas pouco retratada na ficção. Por que acha que, na literatura, esse ainda é um tema pouco popular?

 

A: Acho que a literatura aborda mais o Alzheimer, outra doença degenerativa. Muitas pessoas as quais contei a história, confundiam sempre Parkinson com Alzheimer. Acho que a literatura aborda pouco uma doença como essa, pois ela ainda é menos conhecida do que o Alzheimer. Enquanto o Alzheimer é associado à perda de memória, o Parkinson é mais complexo em seus sintomas, sendo frequentemente reduzido apenas a tremores, quando, na verdade, afeta movimentos, coordenação e cognição. Por isso queria ilustrar os inúmeros sintomas, e não apenas os tremores. Meu avô, por exemplo, nunca teve o tremor como sintoma. Até hoje assina seu nome lindamente, sem nenhum tremor.

E: Quando você diz que “não é literatura de cura, é literatura pela vida”, o que exatamente está em jogo nessa distinção?

 

A: Acho que é uma literatura que busca lidar com a morte em vida. A morte não é apenas quando alguém amado se vai, mas todo o processo degenerativo que está em jogo na velhice, enquanto ela ainda está presente. É preciso aprender a viver “apesar de”, amar mesmo com a falta, com uma outra versão que agora existe.

E: Que sensação ou reflexão você espera que fique com o leitor depois da última página?

 

A: Eu espero que o leitor se sinta abraçado. Como diz o título do livro e a orelha escrita por Paula Jacob, quero que ele se sinta como se estivesse recebendo um abraço gentil, como quem dá sem querer nada em troca.

Imagem: divugação/Ana Victoria Almeida

A publicação de Me Abrace Antes da Queda está prevista para julho de 2026, e a pré-venda já está disponível em plataformas literárias.

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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