Em entrevista, a atriz fala sobre a peça Não Aprendi Dizer Adeus, o uso da palhaçaria para abordar o luto, o processo criativo do espetáculo e sua relação com a finitude
Bárbara Salomé está de volta aos teatros de São Paulo com o espetáculo Não Aprendi Dizer Adeus. A peça, por meio da palhaçaria, convida o público a refletir sobre a sua relação com a morte. Desse modo, com leveza e humor, a atriz conduz a platéia a uma jornada de reflexão – falando sobre medos, contradições e como encaramos o ato de dizer adeus.
A performance, que estreou em 2022, retorna à capital paulista em um circuito de 12 apresentações gratuitas, entre agosto e setembro de 2026. As apresentações estão ocorrendo em diferentes teatros municipais da cidade e têm classificação indicativa de 16 anos.
Além de protagonizar a peça, Bárbara Salomé também a escreveu e a idealizou, partindo de uma experiência pessoal: a perda da irmã. Mas é possível abordar um assunto tão denso através do riso? É o que propõe a artista: “A palhaçaria tem essa magia de tocar em assuntos profundos e tabus, porque a figura da palhaça é em essência uma perdedora. E quem é que não é perdedor diante da morte? Ainda não descobrimos um jeito de vencê-la e por isso a melhor coisa é virar amigo mesmo”, explica.
Em entrevista ao Entretetizei, Bárbara Salomé comenta com detalhes sobre o seu processo criativo, tudo o que descobriu desde o lançamento do espetáculo e a relação com os espectadores. Confira!

Entretetizei: Não Aprendi Dizer Adeus volta a São Paulo. Como é reencontrar essa peça alguns anos depois da estreia? O que mudou em você e no espetáculo nesse período?
Bárbara Salomé: Estreei a peça em 2022 e desde então tenho me apresentado com ela. Para mim, cada noite é como uma estreia, porque o público é diferente. Como o espetáculo tem muito improviso e uma relação direta com a plateia, muda muito a cada noite e eu adoro isso. Tanto que, antes de entrar em cena, eu não penso que vou me apresentar e sim que terei um encontro e tudo pode acontecer.
Talvez por isso tanta gente já assistiu ao trabalho mais de uma vez. Nesses quatro anos mudei muito. Cresci como artista porque fazer um solo não é fácil. Por mais que você tenha uma equipe maravilhosa (como a minha, por exemplo), você é a espinha dorsal da coisa. Se não se movimentar, ninguém vai fazer isso por você. Hoje tenho autonomia sobre o meu ofício, aprendi a produzir, vender, um tanto de coisa que não acreditava ser capaz. De fato, esse trabalho mudou a minha vida.
E: A morte ainda é um assunto que muita gente evita. O que fez você acreditar que esse tema também poderia render uma experiência divertida e acolhedora?
BS: Eu tinha uma intuição e uma necessidade muito grande de falar sobre a morte pela palhaçaria. Não pensei muito, só segui o fluxo. Meu processo criativo parece um mapa do tesouro: não sei tudo, mas confio no inconsciente. A Rafaela Azevedo, que me dirigiu, dizia muito isso, que a nossa palhaça sabe o que a gente ainda não entende.
Claro, eu tinha desejos como oferecer um espaço ritualístico e comunitário onde nossos mortos pudessem viver, [usando] o humor e a delicadeza como linguagem. A palhaçaria tem essa magia de tocar em assuntos profundos e tabus, porque a figura da palhaça é em essência uma perdedora. E quem é que não é perdedor diante da morte? Ainda não descobrimos um jeito de vencê-la e por isso a melhor coisa é virar amigo mesmo.
E: A peça nasceu de uma experiência muito pessoal, marcada pela perda da sua irmã quando você era criança. Em que momento você percebeu que essa vivência poderia se transformar em arte?
BS: Em 2019 fui a um retiro de meditação chamado Vipassana onde você fica dez dias em silêncio e meditando dez horas por dia! Lá eu vivi o trauma e pude elaborar melhor o luto pela morte da minha irmã. Foi uma morte repentina e que abalou muito a minha família. Passei por muitos processos e tive muitos sonhos. Em um deles, eu trabalhava no enterro do Antunes Filho e a pessoa que ia fazer uma fala não foi. Alguém me empurrou pro centro do palco e disse: Fala alguma coisa! Fiquei pensando no que falar e aí me veio: já sei, vou falar sobre a morte! Acordo e decido, vou fazer um espetáculo de palhaçaria que fale sobre isso. Foi assim.

E: Cada apresentação é diferente por causa da interação com a plateia. Houve algum momento vivido durante uma sessão que ficou marcado para você?
BS: Nossa, muitos! Me recordo de um em especial. O primeiro foi numa apresentação que fiz para o público 60+ no Sesc Rio Preto e num determinado momento, eu convido as pessoas a mandarem um recado pra algum amor que já foi. Geralmente todo mundo faz isso em silêncio. Com esse público foi diferente, eles começaram a falar baixinho coisas do tipo: te amo, obrigada… a contar coisas íntimas. Tanto que uma senhora contou que seu filho tinha acabado de morrer afogado. Nossa. Foi bem forte.
E: Você pesquisa a linguagem da palhaçaria há muitos anos. O que mais te fascina sobre essa arte?
BS: Me encanta o fato de poder errar, ser vulnerável. Eu detesto errar. Sou muito ansiosa e ser palhaça me tranquiliza porque sei que posso jogar com tudo o que acontecer. Me encanta essa relação tão direta e honesta com a plateia. Nesse mundo tão avesso às falhas, a palhaçaria é antídoto.
E: A presença de mulheres na palhaçaria vem crescendo e transformando esse universo. Você sente que ainda existem desafios para ocupar esse espaço?
BS: Sim! Principalmente no imaginário do que é ser palhaço. Quando a gente pensa em palhaçaria, pensa em figuras masculinas como Chaplin, por exemplo (que é ótimo, inclusive) e com isso vem um jeito de ser palhaça: com tal maquiagem, tal voz, gags físicas… etc. Se o seu palhaço nasce de quem você é, não faz sentido determinar uma fórmula. É uma linguagem que precisa caminhar com o tempo, assim como qualquer outra. As mulheres têm trazido questões diferentes para a linguagem, onde a dramaturgia tem um papel muito importante.
E: Depois de tantas apresentações, o espetáculo também mudou sua relação pessoal com o luto e com a ideia de finitude?
BS: Com certeza! Eu ainda tenho muita dificuldade em dizer adeus, sou apegada. Aff! Mas percebi que amo muito viver! Antes do Vipassana, eu não me permitia tanto. Associava bem-estar com risco. Ainda guardo isso, mas me aproximar da morte me deu apaixonamento pela vida.
E: Qual é a principal mensagem que você espera que o público leve para casa depois de aprender – ou tentar aprender – a dizer adeus?
BS: Que é difícil mesmo. Ninguém está preparado para lidar com a morte. Não tem manual de instruções, mas ter consciência da própria finitude pode nos fazer apreciar mais a vida. E, ao vivermos nossos sonhos, estamos honrando nossos ancestrais. A vida não começou e nem vai terminar na gente. Como dizia Nêgo Bispo: “Nós somos o começo, o meio e começo”.
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Texto revisado por Alexia Friedmann










