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Foto: Pablo Saborido / divulgação

Entrevista | De um jeito pra você, de outro pra mim: Sofia Mariutti e Sofia Rousseaux refletem sobre infância e empatia 

Escritora e ilustradora conversam sobre infância, afeto, criatividade e a construção de histórias que dialogam com leitores de todas as idades

De um jeito pra você, de outro pra mim é um livro infantil que chegou às livrarias em agosto, publicado pela editora Baião. Obra da escritora Sofia Mariutti e da ilustradora Sofia Rousseaux, a narrativa volta-se para uma história sobre afetos, aconchegos e as diferentes formas de ver o mundo. 

Desse modo, quem protagoniza as páginas são dois bichinhos: tamanduá e tamanduinha, que passam o dia inteiro muito próximos, inventando algo para fazer nesse ínterim. No entanto, por mais que façam exatamente as mesmas coisas, o mundo que se descortina ao olhar de cada um pode alterar-se bastante. Algo pequeno para tamanduá pode ser imenso para a tamanduinha.

A palavra escrita é de autoria de Sofia Mariutti, que inspirou-se nos dizeres da filha para escrever o livro. Um dia, ao sair de casa, disse que seria rapidinho, mas a resposta a surpreendeu: “O que é pouco pra você é muito pra mim”. Editora e tradutora, Mariutti é mestra em língua e literatura alemã pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de Vamos desenhar palavras escritas?, com Yara Kono (Companhia das Letrinhas, 2023), e Tem um gato no frontispício, com Vitor Rocha (Baião, 2024). Além disso, também escreveu os livros de poemas A orca no avião (Patuá, 2017) e Abrir a boca da cobra (Círculo de Poemas, 2023). 

As imagens, por sua vez, são de Sofia Rousseaux, que olhou para a própria infância no momento de ilustrar o livro: o primeiro contato com um tamanduá a deixou intrigada. Formou-se em pedagogia e se pós-graduou em arte-educação pela Universidade de São Paulo (USP). De um jeito pra você, de outro pra mim é o seu primeiro livro ilustrado no Brasil. 

Em entrevista ao Entretetizei, as autoras comentam sobre a parceria, inspirações e particularidades da literatura para infâncias. Confira!

Foto: divulgação / editora Baião
Entretetizei: O livro nasceu de uma frase dita pela filha da Sofia Mariutti: “O que é pouco pra você é muito pra mim”. Como foi perceber que um momento tão cotidiano poderia dar origem a uma história inteira?

Sofia Mariutti: Como poeta, eu já trabalhava com o cotidiano, tanto nos poemas quanto nos primeiros livros ilustrados que eu fiz. O meu primeiro livro ilustrado, que se chama Vamos Desenhar Palavras Escritas, nasceu inspirado no dia a dia com a minha filha. Eu comecei a ouvir frases muito especiais e a anotar. Às vezes era só uma palavra, uma imagem, um momento; eu ia anotando e fui construindo um poema que considero um ready-made. Esse deslocamento de uma frase do ambiente cotidiano para dentro da poesia. A partir desse poema, eu o circulei para alguns poetas e uma amiga falou: “Dava um livro ilustrado”. E foi assim que eu virei autora de livro para a infância. Eu estava muito imersa nesse universo, mas ainda não tinha feito nada.

Foi uma coisa que nasceu à parte. Eu comecei a escrever para a infância por esse deslocamento do cotidiano para dentro da poesia. Agora, neste livro, isso voltou. Acho que meu segundo livro não tem isso, ele veio mais de uma inspiração em outro livro, mas esse terceiro também teve essa motivação. Acho que desde o modernismo, o Mário de Andrade e o Oswald de Andrade ensinaram a gente que a poesia está no cotidiano. É o Pão de Açúcar de cada dia. Eu fui muito influenciada por esses poetas desde sempre para acreditar mesmo nisso: que o cotidiano não é menor, ele é uma grande fonte de inspiração. Ele dá presentes para a gente, só temos que estar com o ouvido aberto e saber escutar, saber ler, saber ver as coisas para conseguir usar.

E: A obra mostra que duas pessoas podem viver a mesma experiência, mas enxergá-la de maneira diferente. Por que vocês acharam que essa mensagem é importante não só para as crianças, mas também para os adultos que vão ler?

Sofia Rousseaux: Eu acho que isso é fundamental, na verdade. Acho que é uma das coisas mais importantes de aprendermos desde pequenininhos. Pensando agora na educação, onde começa o outro, quem somos nós, essa construção do eu, acho que é super necessário para podermos nos tornar indivíduos e autores das nossas próprias decisões, vontades, desejos, opiniões, sabendo que também haverá outras. Para as infâncias isso é muito necessário. É ali que se constrói, quando somos muito pequenininhos. Mas acho que às vezes nos adultos falta um pouco isso também. Ultimamente vimos, não querendo entrar no plano político, mas acho que falta um pouco essa compreensão dessas diferenças.

SM: Sim, acho que esse processo de alteridade é muito fundamental na infância para definir quem a gente é, para entender quem a gente é. Mas, como a Sofia falou, acho que talvez para os adultos seja até mais importante esse livro. Essa frase que a minha filha falou foi meio que uma resposta a uma presunção minha de responder falando: “Ah, é rapidinho”, como se estivesse diminuindo o que ela estava sentindo naquele momento em que eu não podia sair de casa. O que é pouco para você é muito para mim. É um pouco um tapa na cara. Não é porque você acha que é rapidinho que é rapidinho. Talvez você ache rapidinho, mas eu não. Isso me fez enxergar isso. É engraçado porque eu acabei dedicando esse livro ao meu marido.

Algumas pessoas falaram depois para mim: “Nossa, esse livro foi feito para ele, para a relação de vocês dois, na verdade”. Eu não tinha pensado nisso, mas faz todo sentido, porque uma relação de casamento – hoje estamos completando 10 anos – é toda feita desses embates. Um enxerga as coisas de um jeito, o outro de outro. Às vezes o que é delicado para você é rude para mim, o que é gentil para você é rude para mim, ou o que é pouco importante para você é muito importante para mim, é fundamental para mim. Um casal está sempre lidando com isso, então realmente acho que é uma questão para todos os seres humanos. E ainda mais neste ano eleitoral que temos pela frente, como a Sofia falou. Acho que esse ser de esquerda que é tão rechaçado em tantos momentos, na verdade, nada mais é do que querer o bem para todos, que todos estejam mais próximos de uma igualdade ou que todos tenham seus direitos respeitados. Eu não tenho nenhum problema, desde sempre, em dizer que sou de esquerda, porque acho que é simplesmente ser solidário, simplesmente ter a ver com isso: enxergar o outro e não só você, as suas necessidades e os seus direitos.

SR: Queria completar algo que a Sofia falou. Eu acho que é um tapa na cara que aproxima, tanto com as crianças quanto com os adultos, a partir do momento em que você verbaliza e comunica: “Olha, isso que para você é tão pequeno, para mim é enorme”. Como muda essa perspectiva e como também aproxima poder dizer esse tipo de coisa para a outra pessoa estar ciente. É possível, sim, ter ideias polarizadas, pensando também e estendendo para o campo da política. Mas é possível, sim, ter ideias bastante distantes que possam ser contempladas em uma mesma relação amorosa, de parcerias, visões distintas, posições distintas, valores distintos, contanto que com respeito possam ser comunicados, compreendidos e acolhidos nas suas origens e nos seus porquês. Compreender de onde vêm esses valores, essas ideias, essas vontades, esses desejos. Por que para mim é tão pequeno, mas para você é tão grande? Tudo isso a partir da comunicação, que é o que falta um pouco hoje também. A gente perdeu um pouco a escuta mais do que a comunicação, está todo mundo comunicando muito suas posições e acabamos não nos ouvindo. Esse livro também é uma evidência para isso: “Olha, eu estou aqui. Para você é desse jeito, mas para mim não é. Então, olha para mim, olha o que eu estou te dizendo que é importante”. Isso me pegou muito quando recebi esse texto, me atravessou, porque acho que é fundamental e temos perdido um pouco essa escuta.

E: Sofia Rousseaux, este é o seu primeiro livro ilustrado publicado no Brasil. Como foi transformar o texto em imagens que também contam a história?

SR: Vou cair um pouco no clichê, mas é que realmente é uma verdade profunda: foi um presente esse texto. Como eu estava dizendo, é um texto aparentemente muito simples, mas que tem uma profundidade enorme. Ele me atravessou mesmo. E foi uma baita responsabilidade, porque eu falei: “Bom, eu quero fazer jus a essa preciosidade toda”. Inicialmente, na conversa sobre o que a Sofia tinha proposto, a ideia dela era a preparação de um bolo ao longo desse dia por essas duas, mãe e filha, juntas ali nesse momento muito íntimo, muito bonito, compartilhando essa jornada. Ela tinha pensado em duas preguiças. Quando conversamos, eu fiquei com essa ideia e achei demais. Aí eu fui meter a mão na massa. Eu tenho uma prática de desenhar muitos monstros, bichos, coisas que às vezes não existem.

Eu não sei o que aconteceu ali. Acho que teve algo com a preguiça que, apesar de o animal simbolicamente fazer sentido e estar falando forte com a Sofia, teve algo que eu não senti que rolaria com o texto e com a imagem. Mas senti que ali não estava rolando e falei: “Bom, vou dar um tempo, vamos ver o que vai acontecer, começar a desenhar outros bichos”. Nessa brincadeira, me veio muito forte uma imagem que eu tive enquanto criança. Eu nasci na Argentina, fui ao zoológico de Buenos Aires e vi pela primeira vez um tamanduá-bandeira, que é um bicho que, a princípio, não pensamos como fofinho quando vemos em livros infantis, onde temos o urso, o coelho, que são as referências que temos. Só que tive um negócio ali, alguma coisa que me chamou, porque foi um bicho que primeiro me deu muita curiosidade. Segundo, eu fiquei maluca porque não entendi onde era o rabo e onde era a cabeça. Foi um bicho que me pegou ali. Comecei a desenhar meio sem pensar muito, sem racionalizar, depois desenhei outros e ficou a ideia do tamanduá. Quando a ideia do tamanduá começou a crescer um pouco mais, eu comuniquei à Sofia e começamos a trocar ideias. Ela queria muito que fosse um bicho latino-americano, um bicho quente, um mamífero. Eu visualizava muito essa cena de um tamanduá tendo esse movimento com a cabeça e com o rabo, fazendo essa coisa quase de urso também, de um abraço apertado. 

A Sofia topou. Também tem uma outra curiosidade: quando eu pensava no tamanduá, tinha esse movimento que eu fiz e que acho que também conversa um pouco com a dinâmica do livro, essa coisa de “para você, para mim”, senti que talvez tivesse a ver. Conversamos, a ideia foi super acolhida. Eu estava muito nervosa também porque pensei que poderia estar dando um tiro no ar que não tinha nada a ver. No fim, fomos construindo. 

Acho que tem um pouco a ver com o espírito do livro: inicialmente para a Sofia era de um jeito, para mim talvez tenha sido de outro. Eu fiquei muito mais ligada na fala da criança, pegou na minha criança, porque eu não sou mãe. Teve um pouco isso também. No que diz respeito às imagens em si, procurei não racionalizar muito, mas teve algumas coisas que acabei fazendo meio instintivamente, que foi não necessariamente cair em estereótipos. O tamanduá em si já não é um estereótipo. Eu não queria cair no rosa, não queria cair em uma coisa de relação de mãe e filha colocando cílios nos personagens, não é a minha forma de desenhar. Eu fui uma menina que amava dinossauros, que fazia sopa de planta e bebia. Eu vejo totalmente uma relação maternal no que fiz e espero que isso também fique assim.

Procurei também, sem querer, me inspirar em tamanduás que fossem de espécies distintas, mas não propositalmente. Acabei não fazendo uma coisa muito marcada de tamanduá-bandeira ou de tamanduá-mirim; foi uma espécie de misto dos dois, para poder contemplar um pouco essa amplitude do personagem, que não necessariamente fica limitada a uma espécie, mas à mesma família, uma família de tamanduás. Você tem tipos diversos nessa família. Foi um grande desafio porque sou uma pessoa que tem dificuldade de parar o meu processo criativo. Eu vou indo, vou mudando, vou apagando. O desafio de parar e congelar em uma imagem.

E: Como vocês veem esse contato da criança com o livro, sabendo quão importante é para ela poder ter essa chance de pegar o livro, ver as imagens, se conectar com os personagens e, dali para frente, ter contato com outras literaturas quando for mais velha?

SM: Eu acho que é fundamental qualquer entrada possível no universo da literatura. Outro dia eu estava conversando com um professor de teologia que também é poeta. Ele estava me contando que na casa dele não tinha muitos livros quando era criança, mas que o primeiro contato dele foi pela Bíblia, pelos textos que ele ouvia na igreja. Esse contato com o texto, texto de qualquer natureza… Às vezes uma canção é um texto. Na minha casa sempre teve bastante livro, minha mãe trabalhou também nesse meio editorial, meus pais sempre foram muito leitores. Mas acho até que talvez a maior influência tenha sido da canção do que do livro, de ouvir muita música brasileira. Acho que é uma forma de texto também, não só necessariamente o livro, mas textos cantados, às vezes histórias cantadas também. Conversei lá na Flip com o cardeal Tolentino Mendonça e ele fala que, para ele, a maior influência foi a avó dele, que era analfabeta e contava as maiores histórias. Ele, que cuidou da biblioteca do Vaticano, fala da importância dos analfabetos, que foram eles que transmitiram todas as histórias e as culturas ao longo do tempo.

Claro que os livros são muito importantes. Eu tenho às vezes esses livros que compro para mim também como pesquisadora, livros ilustrados, e sempre escuto que é importante deixar as crianças rasgarem e fazerem o que quiserem com o livro. Para mim isso é um desafio, mas acho que esse contato com o objeto livro é importante. Eu tenho um livro inteiro, O Gato no Frontispício, que é em homenagem ao livro, justamente com essa ideia de manipular o livro e usar o livro. O mesmo livro vai ganhando cada vez mais uma dimensão nova, vamos encontrando alguma coisa que não vimos antes. Acho que isso é muito rico tanto para criar essa conexão entre adultos e crianças quanto agora que vejo que a minha filha mais velha já lê sozinha. Como é importante para regular as emoções. Tem muitos momentos que ela fica, quando volta da escola, com muita coisa para lidar, e ela está ali com os livros. Acho que não tem nada igual para ela para elaborar as coisas, para entender o que aconteceu no dia. É um santo remédio para todo mundo, esse contato com o seu íntimo.

Acho que o livro ilustrado tem isso dessa relação que se cria quando se lê a dois, dessa relação que se cria entre texto e imagem. Acho que é muito rico, não tem nada igual. É quase como cinema, que é essa arte que todo mundo fala que é superior porque tem texto, som e imagem juntos. Eu acho que o livro ilustrado também é uma arte superior, é única.

SR: Faço das palavras da Sofia as minhas e, completando também o que ela falou sobre essa coisa da manipulação dos livros, tem muitas instâncias. Porque a minha formação é em educação. Eu estudei primeiro educação, depois fiz uma pós em arte-educação e migrei muito junto com isso. É muito difícil também trabalhar com ilustração enquanto professora, mas fui fazendo essa prática em paralelo. Hoje em dia estou mais para a ilustração do que para a educação, mas continuo. Um dos pedagogos e designers que me influenciou muito foi o Bruno Munari, que tinha essa perspectiva também do jogo, do livro-jogo, do livro-objeto muito forte. 

Eu acho que o objeto livro em si já pode começar a ser explorado desde muito pequeno. Outra coisa é a relação que se constrói quando você tem duas pessoas que estão ali lendo essa história juntas e a conversa que pode vir a partir disso. Outra coisa também é quando você tem texto, você tem imagem, você tem uma terceira narrativa que se constrói a partir dessas duas. São muitas instâncias de conversa em torno desse mesmo tema. Eu acho riquíssimo. Eu fui uma criança que não teve acesso a isso, porque também não tive pais leitores. Meu pai é muito da imagem, fotógrafo; minha mãe é psicanalista, então havia muita leitura técnica mais voltada para esse assunto, mas leitura recreativa mesmo não tínhamos muito em casa. Eu era uma criança que, quando pegava um livro, ia direto nas imagens, buscava livros a partir das imagens. Mas, concordando com o que a Sofia falou, eu fui muito da escuta. Eu tenho uma memória de peixe total, mas se você puser uma música no rádio, eu canto de cor tudo. Qualquer música que você puser agora, eu canto. Tenho uma memória absurda com música. Também tem a ver com essa narrativa, também tem a ver com essas histórias.

Acho que a mediação de leitura é uma coisa fundamental. Pensando agora na minha infância, se eu tivesse tido um pouco mais de oportunidade desse tipo de situação, talvez eu tivesse uma amplitude ainda maior nesse sentido, um repertório maior. Acho que as crianças hoje em dia têm muito mais acesso a livros de qualidade, tanto literária quanto técnica. Quantos estilos distintos elas têm acesso, é muito maravilhoso. E narrativas diversas também, que permitem conversas muito legais, porque às vezes o texto está contrapondo o que a imagem está apresentando. E aí, o que esse livro está querendo me dizer? 

E: E como foi esse processo de colaboração entre vocês?

SR: Maravilhoso. Muita sorte de ter encontrado uma parceira tão legal. Quando recebi o texto, fiquei muito apaixonada. Eu moro fora, então estava na casa dos meus pais, estava com a minha mãe e estávamos conversando em um momento super bonitinho, íntimo. Fui ler para a minha mãe e falei: “Olha, vou ler para você esse texto que é muito fofo”. E aí tem aquela passagem: “O que é pequeno para você é o mundo todo para mim”. E me quebrou. Me quebrou, eu comecei a chorar e falei: “Mãe, não estou conseguindo parar”. Comecei a chorar muito. Nós nos abraçamos, foi um momento muito especial. Eu falei para a minha mãe: “Nossa, mas que pérola esse texto”. A parceria já começou ali. Foi muito bacana a troca. 

SM: Para mim também foi uma troca muito rica. Eu lembro que os outros livros ilustrados que fiz deram trabalho, teve muita refação desde o começo. Acho que neste foi um encontro sem muitas arestas, ele fluiu muito bem. Acho que também por termos nos conhecido. Logo que a Sofia começou a trabalhar no livro, eu fui para a França com a minha mãe e pudemos nos encontrar ao vivo, passar uma tarde juntas, almoçar. Conversamos bastante e acho que a partir daí criamos essa conexão entre nós duas direto, porque normalmente é tudo mediado pela editora quando é um livro em que a editora sugere alguém para ser autor das imagens, que não é uma coisa em que já chegamos com o projeto pronto.

Achei muito rico ter essa troca entre nós duas direto, que eu nunca tinha tido antes – sempre tinha sido via editora – e acho que flui melhor. Às vezes, via editora, a editora filtra um pouco o que vai dizer e o que não vai dizer. Eu falo para ela que acho que o livro tem umas cores e umas texturas que me lembram um pouco o Gauguin, e ele sempre foi meu pintor preferido. Acho que o livro é muito aveludado, tem uma coisa que combina com o texto, essa materialidade dele. E eu pude também dar sugestões, porque tinha muito claro esses livros de referência na cabeça, que tentei um pouco imitar. Nos inspiramos nesses livros que tinham me inspirado quando escrevi este. 

E: E quais livros mais te inspiraram na escrita de De um jeito pra você, de outro pra mim?

SM: Acho que foram três, talvez mais do que todos. Tem um que é Eu grande, você pequenininho (2015), que saiu pela Companhia das Letrinhas em tradução da Julia Bussius. Ele é de uma autora chamada Lilli L’Arronge. É um livro em que são dois bichinhos também e eles passam o dia juntos, desde a hora de acordar até a hora de dormir. A linguagem também é bem repetitiva, poética, como a deste livro. É sempre: “Eu suco, você suquinho; eu bolo, você bolinho; eu uma coisa, você outra”, sempre com os diminutivos. Eu estudei esse livro um pouco e dei uma oficina lá no Lugar de Ler que era sobre ritmo na literatura para a infância.

Estudei tanto esse quanto um outro que também é inspiração para este livro, que é o Bia e o Elefante (2021), do Odilon Moraes e da Carolina Moreyra. Também é um livro para a primeira infância. Esses dois têm em comum o fato de serem livros que falam de opostos, que é uma coisa que se trabalha na primeira infância. O Bia e o Elefante é isso: “A Bia gosta de acordar cedo, o elefante prefere dormir até tarde. A Bia gosta de sair de casa, o elefante prefere ficar em casa. A Bia vai rápido, o elefante vai devagar. A Bia toma leite frio, o elefante toma leite quentinho”. Nesses dois livros, eu tinha estudado o ritmo para as oficinas que dei e percebi como tinha uma estrutura de um ritmo repetitivo e tinha as quebras, e que as quebras eram fundamentais para não ser monótono. No começo, eu tinha feito um texto que era só “o que é uma coisa para você e outra para mim”, e era só isso o texto inteiro. O primeiro texto que apresentei para a editora era assim. Depois eu falei: “Não, mas eu preciso quebrar esse ritmo, senão também fica monótono”

O terceiro livro é um outro com coelhinhos, que é justamente Adivinha Quanto Eu Te Amo (2019). São dois coelhinhos e o coelhinho pequeno fala: “Eu te amo assim”. O coelho grande fala: “Ah, mas eu te amo assim”, e é muito maior. Eles ficam comparando o amor, é muito bonito. Acho que são esses livros que falam de conexão mesmo. 

E: E o que mais as atrai nessa criação voltada para crianças?

SR: Pelo menos para mim, não é nem uma questão de ser para crianças. Acho que criação é criação. E acho que a minha criação, inclusive, é muito criança. É uma criação que não tem técnica nenhuma, da forma como eu faço. Não estou muito preocupada com perspectivas, evidentemente não estou preocupada com desenho realista. É uma criação mais da imaginação, do sonho, de algo que é fantasioso. Nesse sentido, eu me conecto mais com uma criação infantil mesmo, no melhor dos sentidos da palavra. 

SM: Acho que me identifico também com a fala da Sofia, acho que temos isso em comum, talvez por isso tenha dado tão certo. Mas a criação para a infância, para mim, surgiu não como uma criação para a infância. Era eu olhando para a minha filha e anotando, como versos, as coisas que ela falava. Era um poema que inclusive entrou no meu livro adulto de poemas, Abrir a Boca da Cobra, que também tem a ver com isso que a Sofia está falando, de uma escrita de imaginação meio sem compromisso. Mas o que sinto é que, a partir do momento em que aquele poema virou um poema para a infância, eu me encontrei muito, me libertei e senti: “Nossa, agora estou no meu lugar”.

Eu sinto que faço para mim, é para a criança que tem em mim, porque eu amo ler livros ilustrados. Acho que até mais do que livro para adulto ultimamente. Tenho lido mais livro ilustrado do que livro de texto, romances, livros de não ficção. Estou nessa fase da maternidade em que você começa a achar tudo um porre, não tem tempo para essas coisas, não tem cérebro. Meu cérebro está mais voltado para esse tipo de literatura mesmo. Eu me identifiquei e me encontrei muito nesse lugar, um lugar que tem menos essa pressão intelectual. Eu venho desse meio, sou editora de livros, trabalho muito com autores, com críticos literários. De algum jeito, a minha escrita era um pouco travada pelo medo da crítica, e de repente essa criança se soltou nesse lugar da escrita para a infância. Aqui eu posso ser criança mesmo e está tudo certo. Eu valorizo isso tanto na escrita para a infância quanto para adulto.

É legal pensar no contrário também. Tem um livro recente do Leonardo Gandolfi, de poemas, que se chama Pote de Mel e Outros Poemas (2025), inspirado no Ursinho Pooh. É um livro que saiu pela Editora 34. O Leonardo Gandolfi foi convidado para a Flip agora, no palco principal – e não tem nada para a infância no palco principal da Flip, o que eu também acho bem questionável. A busca dele nesse livro é justamente a simplicidade, uma coisa que falta na poesia: uma linguagem límpida, simples e compreensível. A poesia às vezes tenta buscar o enigma, o oculto, o misterioso, as imagens que são insólitas e que ninguém nunca pensou antes, e o trabalho dele de linguagem é justamente no caminho oposto. Acho muito legal pensar também como a literatura para a infância pode invadir esse mundo adulto e subvertê-lo. 

SR: Muitas vezes são as crianças que vêm e trazem perguntas que são tão sérias, difíceis de responder, tão monumentais. Há pouco eu estava dizendo da simplicidade ou da coisa do infantil, mas, na verdade, será que é tão simples assim? Ou será que na infância é quando se tem toda essa magnitude e vamos afunilando à medida que vamos crescendo? Acho que na verdade falta justamente voltarmos um pouco e nos conectarmos com essa infância, com as nossas crianças. Quando sentimos raiva, voltamos a sentimentos mais primitivos; estamos deixando essa criança sair. Na essência, somos isso mesmo. Enquanto adultos, ficamos querendo muito ficar no mundo das ideias. Na essência, acho que temos essas crianças e acho que é por isso que esses livros acabam tocando muitos adultos, que se permitem assumir esses sentimentos quando leem um livro para as crianças e choram ou ficam incomodados: “Mas como assim termina assim?”. Ou veem um filme e o filme fica com o final aberto: “Mas o que aconteceu aqui?”. Se deixar se sentir um pouco mexido com essas coisas que são supostamente para a infância, mas que falam de assuntos universais e muito do ser humano mesmo. 

SM: Isso que a Sofia falou é muito fundamental, desse retorno, porque acho que estamos nesse momento em que estamos olhando para trás, para esse atrás que é na frente. O futuro é ancestral. Acho que a infância faz parte disso, o mesmo tecido da cultura indígena que estamos colocando em primeiro plano, ou mesmo tirar o homem do centro, esse olhar não antropocêntrico. Tudo isso combina perfeitamente com a infância. A infância também traz esse lugar do primitivo que é o futuro, na verdade.

 

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz

 

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