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Foto: Divulgação/Pedro Sussekind

Entrevista | Pedro Süssekind comenta sobre a ligação entre Homero, Shakespeare e Guimarães Rosa

Livro de ensaios faz um diálogo entre obras clássicas e filosofia

Que relações podem ser feitas entre obras como Odisseia, Rei Lear e Grande Sertão: Veredas? É o que busca responder Pedro Süssekind no livro O Mar, o Rio e a Tempestade: Sobre Homero, Rosa e Shakespeare (2024), publicado pela editora Tinta-da-China Brasil. O livro, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025, reúne uma coletânea de ensaios que estabelecem uma ponte entre literatura, crítica e filosofia.

Aqui, o escritor e professor parte do ponto de vista filosófico para construir um diálogo que passa desde a Grécia Antiga, atravessando a Inglaterra moderna e, por fim, chegando ao Brasil sertanejo e contemporâneo. 

Dividido em três partes, O Mar, o Rio e a Tempestade inicia com dois ensaios sobre a Odisseia, de Homero, que discutem a procura pela verdade por meio da dialética do esclarecimento, de Adorno e Horkheimer. Na segunda parte, Rei Lear, de Shakespeare, ganha uma análise que explora questões como história, matemática e antropologia. Já na terceira parte, o autor investiga as ideias filosóficas presentes em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Essa ligação, a princípio, pode parecer estranha, mas Süssekind nos explica que os três textos – distantes no tempo, na temática e no espaço –, são muito próximos entre si e podem fomentar diferentes discussões. Dessa forma, mesclando variadas perspectivas críticas, o livro apresenta, ao leitor, conexões surpreendentes entre os três clássicos. Além disso, ele metaforiza um elemento que pode passar despercebido, mas que é central nas tramas analisadas: a água, justamente para ilustrar a ideia de errância e fluidez, tão marcantes nas obras clássicas. 

Pedro Süssekind é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do CNPq. Doutor em filosofia pela UFRJ, é autor de livros sobre estética e literatura, como Shakespeare, o Gênio Original (2008), Teoria do Fim da Arte (2017) e Hamlet e a Filosofia (2021). Em entrevista, reflete sobre a importância de ler clássicos hoje e como a filosofia pode enriquecer a experiência da leitura. Confira!

 

Foto: Divulgação/Tinta-da-China Brasil
Entretetizei: Qual a importância de estudar um clássico hoje? Existe uma forma de aproximar esses textos das novas gerações?

Pedro Süssekind: A vontade de escrever um livro que trata de clássicos da literatura veio justamente de trabalhar com obras que têm uma fortuna crítica muito rica. São livros que geraram um debate e continuam produzindo leituras diferentes ao longo do tempo. 

Costumo dizer que o clássico é uma obra que nunca termina de ser escrita. Ela é inesgotável, porque, a cada dia, aquela obra volta a ser lida, é retraduzida, vai ser discutida de outra maneira, põe em xeque uma leitura que já tinha sido feita. Então, eu trabalho com a recepção dessas obras, a maneira como elas foram lidas, e mostrar a atualidade delas, mostrar como estão em diálogo também com o tempo presente. Uma obra como a Odisseia, por exemplo, é da Antiguidade, mas tem questões superimportantes que podemos aproximar do nosso tempo. 

Acho que há uma certa resistência às vezes, porque o clássico talvez assuste, por ser essa obra sacralizada, que muita gente já leu. Mas, quando você se aproxima desses livros, acaba descobrindo a sua própria maneira de ler. Mesmo acompanhando o debate sobre essas obras, você vai vendo que ele não termina. Não tem uma coisa definitiva que diz o que a obra é. Isso vale tanto para um livro como Grande Sertão: Veredas, do século 20, quanto para a Odisseia ou uma peça de Shakespeare, como o Rei Lear. 

E: E você tocou num assunto interessante que é esse medo de ler clássicos. De onde você acha que vem esse receio? 

PS: Acho que tem muito a ver com essa ideia de um cânone literário, no qual certas obras são muito consagradas. Isso atrapalha, às vezes, porque parece que aquilo vira uma obrigação, algo chato, uma peça de museu, algo antigo ou antiquado. Mas tem outro lado: as obras se consagram também pelo fato de despertarem interesse e continuarem despertando interesse ao longo do tempo. 

É incrível pensar em Homero, um poeta sobre quem há até discussões se existiu mesmo, mas cuja poesia é de milênios atrás. Quando eu fui escrever O Mar, o Rio e a Tempestade, o mar se refere à Odisseia, tem a ver com a relação dessa obra, que descreve uma travessia marítima. Eu procurei abordar, por exemplo, uma leitura feita desse livro no século 20, dentro do contexto filosófico da teoria crítica de Adorno e Horkheimer, que fazem uma discussão superinteressante ao visualizarem que Ulisses, o personagem principal da Odisseia, é um protótipo do percurso todo, do que seria o indivíduo ocidental, a cultura ocidental.

Eles percebem ressonâncias desse herói épico antigo em questões muito atuais da filosofia. Estavam escrevendo lá na década de 40, do século 20, e falando: “Olha como essa obra descreve toda uma construção da nossa maneira de pensar, da nossa racionalidade”. E anuncia uma série de questões, que eram as que eles estavam discutindo ali. Uma teoria da cultura contemporânea. Então, acho que a gente acaba descobrindo, também, chaves para entrar nesses livros e renová-los, tirar essa poeira deles. É uma coisa que me interessa muito.

E: E o seu livro — como você já citou — estabelece uma ponte entre Homero, Shakespeare e Guimarães Rosa. O que motivou a aproximação entre esses autores distantes em tempo, geografia e estilo?

PS: Pode parecer estranho escolher esses três autores, mas tem a ver com a ideia de trabalhar com clássicos da literatura numa abordagem filosófica. Eu quis pegar um antigo, um moderno e um contemporâneo, mas a escolha não foi nada aleatória. Acho que existem conexões e procuro trabalhá-las ao longo dos ensaios que escrevi.

Uma conexão interessante é que o Guimarães Rosa foi um grande leitor de Homero, por exemplo, e usou essa leitura na composição do Grande Sertão: Veredas. Tem todo um estudo sobre isso, um caderno de estudos de Homero que existe lá no IEB [Instituto de Estudos Brasileiros], onde está o arquivo do Guimarães Rosa, com anotações e usos que ele fez daquele poema épico para incorporar elementos da epopeia no romance.

O Grande Sertão: Veredas é um romance difícil, estranho na forma narrativa. Não tem divisão em capítulos, começa com travessão e é, no fundo, uma longa fala de um narrador. Para mim, interessava muito mostrar que ele tem toda uma dimensão épica e toda uma dimensão dramática. Ou seja, tem diálogo com a epopeia e com o teatro. Isso já estabelece conexões com os outros clássicos: um grande clássico teatral sendo o Rei Lear, e um grande clássico épico, a Odisseia.

Além disso, escolhi essas obras para trabalhar uma leitura filosófica porque as considero com um elemento de reflexão muito forte. As três têm uma questão que eu chamaria de “poética da errância”. A Odisseia descreve o percurso do herói errante que quer reencontrar o caminho de casa. O Rei Lear é diferente das outras peças de Shakespeare nesse sentido: tem um protagonista, o rei, que acaba sendo expulso da corte e fica vagando pelos campos, perdido, tentando reencontrar o caminho do seu reinado. 

E no Grande Sertão: Veredas, uma das principais questões do livro todo é resumida na palavra “travessia”, que aparece bastante. O sertão é meio que esse labirinto, atravessado pelo Riobaldo, e essa travessia tem vários sentidos. É uma poética da errância. Errância até do próprio pensamento. São obras que falam dessa questão reflexiva de se perder, de se questionar.

E: O título O Mar, o Rio e a Tempestade sugere algumas imagens. Como essas metáforas ajudam a sintetizar as ideias centrais do livro?

PS: Acabei escolhendo esse título meio metafórico, mas ele só foi me ocorrer quando o livro já estava praticamente pronto. Quando estava escrevendo os ensaios, uma coisa que me chamou atenção foi a ideia de fluidez da narrativa, do pensamento, que estava sempre associada ao elemento água. Em Odisseia, evidentemente, isso tem a ver com a presença do mar. Um personagem que eu trabalho muito, por exemplo, é o Velho do Mar, uma divindade capaz de conhecer todo o passado e futuro. 

No caso de Grande Sertão: Veredas, a presença do rio é um elemento muito decisivo da história, o próprio São Francisco que é atravessado e outros rios que aparecem. É um romance que eu considero que a própria dinâmica dele, como ele é construído do ponto de vista da estrutura da narração, é impressionante para mim — como ela tem uma fluidez de rio.

Parece que ela vai escorrendo. Tem momentos que fica meio água parada, e essa água parada vai criando uma condição de estagnação, as coisas não andam e fica difícil, sofrido… E chega um momento em que água está correndo e fluindo. E, daqui a pouco, ela começa a ficar perigosa, em corredeiras. A própria narrativa é meio que fluvial. 

No Rei Lear, o protagonista sai da corte e vai para a natureza. O elemento natural que aparece ali, e com o qual ele dialoga numa cena maravilhosa, é a tempestade. Ele dirige uma fala aos trovões, aos raios e à chuva. Essa chuva fica caindo e marca várias cenas centrais da peça. As montagens trabalham isso de maneiras diferentes: no cinema, a chuva cai de fato; no teatro, o barulho marca o clima da cena.

Teve uma hora que percebi: tem o mar, tem o rio e tem a tempestade. Tudo água, tudo falando de fluidez. Achei estranho no começo, mas depois gostei da ideia. Discuti com os editores, eles também gostaram, e achamos que dava um título legal.

E: No livro, você propõe uma leitura filosófica da literatura. Como a filosofia enriquece ou transforma a maneira como a gente lê obras como Odisseia, Rei Lear ou Grande Sertão: Veredas?

PS: Isso é um tema muito importante para mim. Sou professor do departamento de Filosofia e trabalho com literatura. Desde o começo, quando eu era estudante, já comecei a trabalhar com isso. Tinha dúvida sobre qual faculdade fazer, Letras ou Filosofia, e escolhi Filosofia. Mas, ainda na graduação, já fazia pesquisa sobre Homero.

Há muitos anos, trabalho com essa relação entre filosofia e literatura. Nos últimos tempos, venho tentando discutir questões filosóficas não escrevendo livros de filosofia, mas lendo livros de literatura. Dou cursos sobre Hamlet, Rei Lear, Grande Sertão: Veredas e sobre a Odisseia. 

Vejo essa relação em dois sentidos. Por um lado, é possível mostrar que obras literárias incorporam e se apropriam de questões filosóficas. No caso de Shakespeare, já trabalhei bastante com isso. Fiz um livro sobre Hamlet e mostrei o diálogo dele com autores da filosofia de sua época, como Montaigne, Maquiavel, Erasmo, e também com autores da Antiguidade. Shakespeare é um dramaturgo do Renascimento, lia muito filosofia e literatura clássicas, e traz questões das várias correntes gregas — cinismo, ceticismo, estoicismo — para o teatro.

Por outro lado, as próprias obras geram uma leitura filosófica e crítica. Isso tem a ver até com o fato de se tornarem clássicos: desencadeiam uma reflexão e uma discussão que, muitas vezes, passam pela filosofia. Hamlet, por exemplo, é uma obra que filósofos adoram, sempre citam e sobre a qual fazem várias especulações.

Gosto de pensar nessa relação como uma troca. Evito trabalhar com uma obra literária apenas como ilustração de uma filosofia específica. É interessante mostrar que ela dialoga com um autor ou corrente, mas não só com aquilo. Vai abrindo várias possibilidades de interpretação, com ambiguidade e abertura. 

Tento sempre ler a obra como uma instância de questionamento e reflexão, em que temas encontrados na filosofia aparecem de maneira diferente — não teórica, mas dramática ou narrativa. Isso dá uma riqueza muito grande. Às vezes, encontramos questões que ainda não foram abordadas teoricamente ou que permitem descobrir novas leituras.

E: E agora na parte de Guimarães Rosa: você fala dessa apropriação de temas filosóficos em um romance regionalista. Que conexões mais te surpreenderam nesse diálogo entre Guimarães e a tradição filosófica?

PS: Esse é um tema muito interessante. No Grande Sertão: Veredas, algo que se destaca desde o começo é o fato de o protagonista ser também o narrador — Riobaldo. Ele é um personagem muito filosófico: está sempre se questionando, pensando, propondo reflexões. Uma questão que aparece desde o início do livro é a filosófica, metafísica e religiosa sobre a existência do diabo, a questão de Deus e do diabo, do bem e do mal. Essa dimensão atravessa o livro, presente ao longo de toda a história que ele conta e das memórias que traz.

Quando se estuda mais a fundo, percebe-se que Guimarães Rosa é, ao mesmo tempo, profundo conhecedor da tradição literária e filosófica e mergulhado no mundo do sertão e na cultura popular. Ele traz, para o narrador, questões da tradição erudita, mas pensadas numa linguagem que corresponde à tradição oral popular, cheia de provérbios e de um pensamento próprio.

Essa dualidade é muito interessante: ele nasceu no sertão, tem raízes sertanejas fortes e, ao mesmo tempo, é um erudito pertencente ao mundo letrado. Isso se resolve de maneira incrível no Grande Sertão, porque ele transforma em romance a fala de um sertanejo letrado, filosófico, que indaga sobre o sentido da vida, da errância e de tudo o que aconteceu com ele.

Ele cria também a relação com o mundo da cidade por meio de um interlocutor: Riobaldo conversa com alguém a quem chama de “senhor”, que veio de jipe, em visita. Esse interlocutor nunca se manifesta diretamente. Riobaldo às vezes diz: “O senhor está querendo ir embora? Ouve só!” Há momentos em que ele comenta: “Escreve aí agora sete páginas” ou “20 páginas”, como se aquilo estivesse sendo transformado em registro escrito. 

Quem é esse senhor? Pode ser o próprio Guimarães Rosa visitando o sertão, pode ser o leitor da cidade, pode ser até nós mesmos. A ideia de relacionar o mundo da cidade e o mundo do sertão está presente em várias histórias de Guimarães Rosa. No Grande Sertão, ele encontrou essa forma incrível de criar um diálogo real entre narrador e interlocutor.

E: Você vê algum ponto de contato entre os contextos históricos desses autores e o Brasil de hoje?

PS: Sim. Quando eu estudo cada uma dessas obras, uma das coisas que procuro fazer é relacionar a obra com o seu contexto histórico — tentar situá-la nesse contexto, mostrar uma temporalidade própria que tem a ver com ele.

São contextos muito diferentes, é claro. Eu trabalho bastante essa questão histórica quando estudo o Rei Lear. Eu estava interessado em mostrar o efeito que essa peça provocou, porque, num primeiro momento, ela criou uma repercussão estranha: foi meio renegada, considerada terrível, trágica demais. E aí eu quis mostrar como isso vai mudando ao longo do tempo, a leitura que vai sendo feita. Eu trabalho muito com esse contexto histórico, e acho que uma das marcas dele é justamente estar olhando para a Antiguidade.

Maquiavel, um autor que eu estudo e gosto de ler, nos discursos sobre Tito Lívio, diz: “A gente deveria estudar mais história porque acaba repetindo os mesmos erros que já foram feitos tantas vezes, sem nem saber. Quando estudamos história, vemos que o homem sempre foi do mesmo jeito: os erros que cometemos agora, já aconteceram antes. Poderíamos evitá-los ou saber melhor lidar com eles se estudássemos mais história”.

Então, esse contexto renascentista está olhando para a tradição antiga, e a Antiguidade reaparece nele como elemento super decisivo para a construção da cultura daquele momento.

Quando trago a discussão para o Guimarães Rosa, para o Brasil do século 20, penso nele como um autor que escreve na nossa língua, já num momento contemporâneo, dialogando com toda essa tradição antiga e renascentista, reelaborando questões presentes na tradição literária, se alimentando dela, se apropriando dela e criando algo novo e original, em português.

E isso num registro do Brasil profundo, com uma forma de pensar e lidar com as coisas que é brasileira e contemporânea. Dando o exemplo do Grande Sertão: Veredas, os temas do livro se conectam fortemente com o presente. Isso foi trabalhado, por exemplo, no livro do Silviano Santiago, Genealogia da Ferocidade, muito interessante, de um grande crítico atual.

Ele fala da estranheza desse “monstro literário” que é o Grande Sertão, como ele se distancia da tradição histórica da literatura brasileira. Ele descreve, de forma bonita, o que o trilho da literatura ia seguindo, e o Grande Sertão parece que despenca uma pedra na encosta e bagunça tudo. É impressionante como essas questões — a violência presente nas dinâmicas sociais, a forma de organização em conflito com o Estado, as chefias descentralizadas, as disputas de poder, as relações de exploração e os conflitos — aparecem no livro.

Guimarães Rosa publicou em 1956, mas a história se passa num momento anterior, no começo do século XX, no sertão. Mesmo assim, essas questões sociais e políticas que ele elabora têm uma relação profunda, e até assustadora, com os jogos de poder, formas de sociabilidade e conflitos da nossa sociedade atual.

E: Guimarães Rosa é, muitas vezes, visto como um autor “difícil”. Como aproximar sua obra de novos leitores sem simplificá-la?

PS: Essa é uma questão interessante também, porque, no fundo, não são só os leitores de hoje. Desde que ele publicou o livro, essa maneira de escrever, essa linguagem que ele usa, suscitou todo um debate e uma dificuldade. Às vezes, até esquecemos que esse livro, por ter se tornado tão importante e consagrado — com tantos estudos e livros de crítica sobre ele —, teve também uma recepção inicial problemática. Houve até um grupo de escritores que não gostavam do livro, que o criticaram. 

Essa recepção negativa já tinha a ver com a dificuldade que o texto impõe. Acho que cada pessoa que começa a ler Grande Sertão: Veredas experimenta algo parecido: “Puxa, que coisa estranha esse livro, não é?”. Muita gente diz: “Ah, não, eu não passei das primeiras páginas”. Isso se deve à forma do livro. Primeiro, porque ele demora a entrar no enredo principal. Você não sabe exatamente do que está falando no começo. Ele não inicia já contando a história, mas sim vários casos, reflexões e especulações. É uma linguagem estranha, que mistura a fala do sertanejo com uma elaboração literária.

Além disso, a narrativa não tem interrupções, intervalos, parágrafos ou capítulos. São histórias que, no início, não sabemos onde vão dar, até que, em determinado momento, o enredo começa a se desenhar. Mas o mais incrível é que, se você vence essa barreira inicial, começa a entrar no romance, acostuma-se com a linguagem e descobre o veio da trama — o Riobaldo jovem, o Diadorim, a história de amor, as guerras e batalhas entre jagunços —, de repente, percebe que está dentro daquele mundo e não consegue mais sair.

Guimarães Rosa defendia que nossa linguagem está empobrecida, cheia de entraves e amarras, e é preciso enriquecê-la, abrir suas possibilidades. Ele faz isso de várias maneiras: trazendo elementos de outras línguas para o português, incorporando a tradição, a oralidade mineira, o português arcaico e criando neologismos. 

São recursos poéticos que resultam numa escrita única. Qualquer tentativa de imitá-lo resulta num pastiche que não funciona, porque a originalidade dele não é copiável. Aos poucos, você mergulha naquele universo e deixa de se preocupar em entender cada palavra. Às vezes aparece um termo estranho, que talvez você nem encontre no dicionário, mas, de repente, dá um clique e você percebe que era a palavra exata.

Guimarães Rosa dizia: “Eu sei o nome das coisas”. Ele pesquisava, ia ao sertão, queria saber o nome de cada planta, cada passarinho, cada elemento da natureza, cada som. E tudo isso está no livro, que tem um lado descritivo riquíssimo, permitindo que o leitor viva e experimente aquele mundo.

Por isso a dificuldade não é exclusiva de hoje, é parte da literatura dele. Mas precisamos sair um pouco do conforto do que já conhecemos, das formas de dizer que nos são familiares. Isso enriquece nosso mundo e mostra que a língua portuguesa pode muito mais do que imaginávamos.

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Texto revisado por Ketlen Saraiva 

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