Autor premiado explica porque decidiu abordar temas como culpa, fé e memória em obra inédita
A Vida é Traição, nova obra do jornalista e escritor pernambucano Raimundo Carrero, já está disponível para leitores de todo o Brasil. O autor, de carreira prolífica, já foi vencedor dos prêmios Machado de Assis (Fundação Biblioteca Nacional), Jabuti, APCA e, em 2004, entrou para a Academia Pernambucana de Letras.
Além disso, na década de 1970, integrou uma das iniciativas culturais mais importantes da arte brasileira contemporânea: o Movimento Armorial. Criado por Ariano Suassuna, o movimento buscava elaborar obras artísticas que misturassem erudição com elementos da cultura popular.
Nesta nova obra, Carrero traz ao leitor o que ele chama de sua “carta ao mundo”, ao escrever uma narrativa que se entranha na psicologia humana de forma intensa e provocativa. “Na verdade, toda obra literária ou artística é uma carta ao mundo, um grito de socorro, um bilhete de suicida, uma denúncia das dores da condição humana”, comenta o escritor.
Em entrevista para o Entretetizei, ele destrincha o seu processo de escrita. Confira!
A Vida é Traição: a construção de Solano

O livro acompanha a trajetória de Solano, homem mergulhado em sentimentos de culpa e tristeza. Quando criança, ele desejou a morte da mãe, que de fato acontece. Em determinado momento da vida, ao ser espancado, ele é acusado de assassinar a mãe. No momento em que sofre essa violência, seus pensamentos são levados de volta à infância, fazendo com que ele reviva a dor da perda, bem como o peso que leva em seu coração.
Sobre a criação do protagonista, Carrero explica que colocou muito da sua experiência pessoal para moldá-lo, característica que o autor incute também em seus livros anteriores. “Solano é um menino solitário e triste, desses meninos que não conseguem se comunicar com o mundo. Cheio de dores e de angústias, embora irônico, com uma única amizade, Paloma, namorada e companheira. Numa idade em que os meninos costumam se enturmar, até mesmo na escola. Eu também fui um menino muito só, cheio de compaixão pelos pobres, e até pelos animais, culpando-me pela injustiça, com uma visão religiosa do mundo, carregando a culpa do pecado original, até porque fui aluno de colégio internato dos padres salesianos”, conta.
Escrever sobre culpa, dor, memória e desejo podem trazer alguns desafios, como pontua Raimundo. “[Me trouxe] muita, muita angústia, que, no entanto, me ajudou muito a escrever a novela”, diz. A Vida é Traição apresenta um estilo denso e seco, mas também poético que, segundo o autor, é uma maneira de trazer mais leveza ao texto: “Escrevo sempre com muita obstinação e precisava quebrar a tensão da angústia com a ironia e com o risível. Tensão com tensão gera tragédia. É preciso, portanto, o corte vertical da leveza”, conta.
A participação no Movimento Armorial e o trabalho como jornalista aparecem no livro, como o escritor destaca. A cultura popular surge com manifestações populares do Carnaval descritas na narrativa. Já a atividade jornalística traz para a literatura o lado palpável da existência. “ O jornalismo é primo legítimo da literatura e aguça o sentido prático da crítica sócio-política, abrindo espaço para o familiar”, explica.
Para Carrero, a literatura oferece algum tipo de consolo ou catarse, seja para o autor, quanto para o escritor. “E não só a literatura, mas toda manifestação artística. Afinal, a literatura e as artes são revelações espirituais. [Trago a morte, a fé e a culpa na minha obra] justamente por isso, a necessidade da catarse, o expurgo da dor. [Neste livro] me entrego, completamente, à solidão do espírito. [É uma obra] a todo aquele que busca uma revisão da alma, a literatura é o meu sangue”, finaliza.
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Texto revisado por Simone Tesser









