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Foto: reprodução/Netflix

Jogos Vorazes e o povo apalache: conheça a história real que inspirou a saga

​​Entre a poeira de carvão e a rebelião fracassada, Jogos Vorazes eterniza a história e o legado de uma população marginalizada dos Estados Unidos

Lançado em 2008, o mundo pós-apocalíptico de Jogos Vorazes foi um dos responsáveis por popularizar o sub gênero da literatura distópica entre jovens leitores durante os anos 2010. Na obra, após uma crise ecológica provocar guerras por recursos, somos apresentados à Panem, uma nação construída sobre as ruínas dos Estados Unidos e formada por 12 distritos e pela Capital, um governo fascista que controla esses distritos.

Cerca de 74 anos antes do início do primeiro livro, depois de uma tentativa fracassada de rebelião contra esse governo totalitário, a Capital criou os Jogos Vorazes como penitência para garantir a manutenção de seu controle. Assim, todos os anos, cada um dos 12 distritos deve entregar dois tributos, uma menina e um menino entre 12 e 18 anos sorteados em uma cerimônia chamada de colheita, que então são levados para lutar até a morte em uma arena até que somente um sobreviva.

É a partir dessa premissa que conhecemos Katniss Everdeen, uma jovem que vive no Distrito 12, o menor e mais pobre de Panem. Com 16 anos, Katniss sobe ao palco do Edifício de Justiça para assumir o lugar de sua irmã na colheita para o 74º Jogos Vorazes.

Cena de Jogos Vorazes
Foto: reprodução/Collider

Em todas as colheitas, que seguem um ritual bastante rígido, os prefeitos de cada distrito recontam a história de Panem como essa grande nação que trouxe prosperidade e ordem à região, mas que, mesmo assim, foi vítima da ingratidão do próprio povo, que ergueu-se contra a Capital.

Por isso, os Jogos são justificados como um “lembrete anual de que os Dias Sombrios jamais devem se repetir” (os Dias Sombrios referem-se aos anos de conflito que seguiram o levante popular), de forma que a memória da rebelião fracassada se torna uma cerimônia sádica de reafirmação de controle e vingança, certificando que a população não se esqueça os riscos de se opor ao governo.

Sob a perspectiva de Katniss, Suzanne Collins compôs uma trilogia que tematiza os limites morais de uma rebelião e as distorções ideológicas da propaganda. A popularidade internacional de Jogos Vorazes, contudo, faz com que leitores de fora dos Estados Unidos percam algumas referências históricas regionais, como as alusões ao povo apalache, cujo passado inspirou a caracterização do Distrito 12. Por isso, nesta matéria especial do Entretê, vamos conhecer a história dessa população marginalizada que ajudou Collins a criar alguns dos personagens mais queridos da saga.

Povo apalache e os paralelos com o Distrito 12

Ainda que tenha sonoridade indígena (e possa ser confundido com a etnia indígena apache), os apalaches não são um povo originário, mas sim os caipiras (hillbilly) estadunidenses que vivem na região das montanhas Apalache. Estamos acostumados a conhecê-los através dos estigmas que os rotulam como um povo simples de baixa escolaridade, conservador, violento (armamentista) e até sujo em algumas representações, à semelhança do personagem brasileiro Jeca Tatu criado por Monteiro Lobato.

Recentemente, o filme Era Uma Vez Um Sonho (2020), estrelado por Amy Adams e Glenn Close, centralizou a história de mulheres apalache, mesmo que também cheio de estereótipos.

Foto: reprodução/Netflix

Mas esses estereótipos têm raízes históricas, que são referenciadas em Jogos Vorazes.

Em Panem, cada um dos 12 distritos é responsável pela produção de um recurso que deve ser enviado à Capital – o Distrito 3, por exemplo, é responsável pela produção tecnológica e eletrônica, enquanto ao Distrito 8 é atribuída a produção têxtil e assim por diante. O Distrito 12, de onde parte nossa heroína, é encarregado da mineração de carvão, e a partir daí já se revelam muitos diálogos com a história.

A região da Apalachia, que nomeia a população, é uma área montanhosa dos Estados Unidos que percorre grande parte do oeste do país, passando por 13 estados desde o noroeste do Mississippi até o sul de Nova York, conforme ilustrado no mapa abaixo:

Foto: reprodução/Research Gate/Kirk Hazen

No final do século XIX, essa região recebeu muitos imigrantes (sendo a maioria de origem escocesa e irlandesa) e ex-escravizados devido à promessa de trabalho nas minas de carvão, que se estabeleciam principalmente na Pensilvânia e na Virgínia Ocidental. Logo nos capítulos iniciais de Jogos Vorazes, Katniss diz diretamente que o Distrito 12 ocupa a região que, antes de todas as guerras e caos ecológico, era conhecida como Apalachia, e que as minas do distrito eram muito profundas porque era um local em que “centenas de anos antes” já se minerava carvão.

No mapa abaixo, contornadas em vermelho, vemos as Montanhas Apalache, e as regiões de mineração de carvão nos Estados Unidos em marrom:

Foto: reprodução/Research Gate/Florian Egli, Nicolas Schmid e Tobias Schmidt

Em Jogos Vorazes, o trabalho nas minas é descrito sempre de forma muito precária, com muitos mortos (como o pai de Katniss) ou mutilados em acidentes devido a falta de segurança e de instalações e equipamentos adequados.

Ainda por cima, mesmo sendo responsáveis pela extração, os moradores do Distrito 12 não tinham acesso à grande maioria do carvão que coletavam e, conforme ficamos sabendo em Amanhecer na Colheita (2025), os mineradores eram pagos com um dinheiro que só podia ser usado em comércios específicos sancionados pela Capital, deixando de fora muitas lojas e empreendimentos dos residentes.

Todos esses detalhes são inspirados nas condições reais que os imigrantes encontraram nas minas de carvão do século XIX. Eles não tinham direitos, trabalhavam de forma insalubre, sofriam acidentes regularmente e ganhavam salários irrisórios pagos em moedas locais, que só podiam ser usadas nos comércios geridos pelos donos das minas, que também eram os donos de suas casas.

Foto: reprodução/Smithsonian Magazine

Como era uma região com muitas pessoas pobres, era também uma região bastante negligenciada pelo governo dos Estados Unidos, de modo que grande parte da população da Apalachia não tinha acesso à educação e ficava muitas vezes de fora dos processos de modernização que aconteciam no resto do país. O termo white trash, ou lixo branco, inclusive, que nomeia pessoas brancas pobres de colarinho azul (responsáveis por trabalho braçal), é frequentemente usado para descrever essa população.

Esse contexto nos permite entender que a educação foi, por muitos anos, negada ao povo apalache. Ainda que as últimas décadas tenham visto um aumento, os níveis de escolaridade na Apalachia passaram muito tempo abaixo da média nacional, com consequências materiais que atravessam gerações.

É interessante refletir como a própria ideia de serem conservadores também é consequência de terem, por muito tempo, sido isolados do resto do país, de forma que o orgulho da identidade apalache se associou à rejeição do que vinha de fora, porque muitas vezes era um processo impositivo, de cima para baixo.

Ainda que possam passar despercebidos para nós, esses termos e estereótipos usados para referenciar o povo apalache são muito comuns na mídia. Em Silêncio dos Inocentes (1991), por exemplo, vemos o personagem de Hannibal (Anthony Hopkins) dizer à agente Clarice (Jodie Foster) que ele enxerga como, apesar dela tentar apagar o sotaque da Virgínia Ocidental e se vestir bem, Clarice ainda é white trash, e ele até pergunta se o pai dela era um minerador de carvão. Veja a cena no vídeo abaixo, a partir do minuto 4:34:

Os moradores do Distrito 12 são frequentemente vistos através dos mesmos estigmas e experienciam processos históricos semelhantes aos vividos pelo povo apalache. No primeiro livro, quando Katniss chega à Capital pela primeira vez, ela escuta os moradores dizendo que o Distrito 12 “sempre foi um pouco retrógrado” e, para melhorar a sua percepção pública, é criada a narrativa de que Katniss lutou para “superar a barbaridade de seu distrito”.

Em outro momento, quando a personagem de Rue, uma tributo de 12 anos, conta à Katniss sobre a violência e a brutalidade que os trabalhadores agrícolas do Distrito 11 sofrem, Katniss pensa sobre como o Distrito 12 é negligenciado pela Capital desde que produzam suas cotas de carvão.

Foto: reprodução/Screen Rant
Guerras do carvão e a rebelião fracassada

Diante de toda essa exploração, os trabalhadores apalaches começaram a se organizar politicamente em sindicatos e a promover greves e manifestações, iniciando o que ficou conhecido como guerras do carvão. Marcado por vários conflitos em diferentes cidades mineradoras da Apalachia, as guerras duraram de 1890 até cerca de 1930.

Um dos conflitos mais importantes foi a Batalha de Blair Mountain, em 1921, que foi o maior levante trabalhista dos Estados Unidos e o segundo maior levante armado depois da Guerra Civil.

Foto: reprodução/WV Public Broadcasting

Se muitos de nós nunca ouvimos falar sobre essas guerras, é por um motivo muito simples: eles perderam. As guerras do carvão não surtiram mudanças substanciais, com a maioria dos rebeldes sendo presos ou mortos em massacres. Aliás, como retaliação, muitas minas foram temporariamente fechadas, deixando muitos trabalhadores sem emprego na época.

Esse enorme levante fracassado é representado em Jogos Vorazes através da rebelião perdida pelos distritos de Panem e que, na ficção, deu origem aos Jogos.

Através desses paralelos com a história das guerras do carvão e das referências diretas à Apalachia em Jogos Vorazes, Suzanne Collins pensa uma distopia que, além de alertar sobre o futuro, nos faz olhar para o passado e entender as situações materiais que levaram à construção do nosso presente. Em um mundo que ser lembrado pode ser a diferença entre continuar vivo e morrer na arena, Collins também mantém viva a história de uma população marginalizada e sufocada por estereótipos. Essas relações também mostram que Panem não está tão distante de nós assim.

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Texto revisado por Larissa Couto

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