Não Me Chame de Mãe aborda solidão, maternidade real e saúde mental feminina
Perita em temas relacionados à saúde mental, a enfermeira e pós-doutora em Saúde Pública Adriana Moro apresenta um romance sensível e multifacetado sobre dois dilemas cotidianos: a solidão e as diferentes formas de abandono, além dos impactos dessas experiências na saúde mental e nas relações humanas. Foi a partir dessas reflexões que nasceu Não Me Chame de Mãe (2025), romance de estreia da autora, publicado pela editora Urutau.

A obra mergulha na realidade de uma mulher que precisa enfrentar sozinha os desafios da maternidade durante a pandemia de Covid-19. Impactante desde as primeiras páginas, o livro desconstrói a visão romantizada da maternidade ao narrar, de forma crua e sensível, a trajetória de uma jovem mãe sem renda, sem rede de apoio e responsável pelos cuidados de uma filha recém-diagnosticada dentro do espectro autista.
“A ideia para escrever este livro surgiu da prática diária ao longo dos meus mais de 23 anos trabalhando no Sistema Único de Saúde, atendendo mulheres ‘mães’ de crianças e adolescentes atípicos, que quase sempre enfrentam sozinhas a demanda do cuidado integral. Muitas não possuem rede de apoio e grande parte é abandonada pelo companheiro após o diagnóstico. Nessas situações, há um duplo abandono: o abandono do outro e o abandono de si. Essas mulheres têm adoecido, e pouco a sociedade tem olhado para isso”, explica Adriana Moro.
O abandono do companheiro, a dificuldade em garantir necessidades básicas e a pressão emocional de cuidar de uma criança neurodivergente em meio ao isolamento social atravessam a narrativa, tornando a obra uma leitura urgente. Adriana Moro constrói um enredo que não apenas retrata a rotina de mulheres frequentemente invisibilizadas, mas também convida o leitor a refletir sobre o peso da solidão e do julgamento social direcionado às mães solo.
O retrato apresentado em Não Me Chame de Mãe revela uma realidade alarmante: segundo estudos do Instituto Baresi, entre 78% e 80% dos pais abandonam filhos com deficiência ou doenças raras antes dos cinco anos de idade. Mais do que um romance, o livro se apresenta como um convite à empatia e dá voz a histórias que raramente encontram espaço de escuta.

A obra não se configura como uma crítica à maternidade, mas como um grito social feminino que reivindica a permanência da identidade da mulher para além do papel materno. A narrativa propõe reflexões sobre saúde mental feminina, papéis de gênero e a retomada do autocuidado após a maternidade, além de questionar de que maneira a sociedade pode colaborar nesse processo de (des)construção. Não se trata de um livro destinado apenas às mulheres, mas de uma história sobre mulheres.
“A escrita desse livro é atravessada pelo meu cotidiano profissional e pela minha própria experiência com a maternidade – mesmo eu não sendo uma mãe atípica –, além das histórias que acompanhei ao longo da carreira. Muitas cenas são formadas por elementos reais, e a personagem principal é uma síntese de diversas mulheres que passaram por minha vida e pelos meus atendimentos. Trabalhar diariamente com saúde mental despertou em mim o desejo de escrever esta história para ampliar o debate sobre um tema tão sensível e necessário”, conclui a autora.
Sobre a autora

Adriana Moro é enfermeira, escritora e pesquisadora. Pós-doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/FIOCRUZ) e doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com estágio doutoral no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal. Possui mestrado em Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas, além de especializações em Enfermagem com Ênfase em Cuidados Intensivos Neonatais, Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiatria e Acupuntura.
Na literatura, Adriana apresenta um olhar sensível sobre as complexidades da vida cotidiana. Seu primeiro romance, Não Me Chame de Mãe, destaca-se pela força narrativa e pela capacidade de provocar reflexões profundas no leitor.
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Texto revisado por Alexia Friedmann









