Clássico brasileiro da literatura de viagem conta com fotografias tiradas pelo autor e uma prosa irreverente
Em 1927, Mário de Andrade viajou para a Amazônia. No retorno, trouxe com ele memórias fascinantes — as quais relataria no livro O Turista Aprendiz, publicado pela primeira vez em 1970. Em 2024, recebeu uma reedição pela Tinta-da-China Brasil, que recuperou o manuscrito original de 1943, revisto pelo autor.
A obra ainda é ilustrada por 14 fotos tiradas pela câmara fotográfica do próprio Mário, uma “codaque”, além de um mapa que detalha o trajeto percorrido. Organizada e apresentada por Flora Thomson-DeVeaux, diretora de pesquisa da Rádio Novelo e tradutora do livro para o inglês, a nova edição tem capa dura e design assinado pela artista portuguesa Vera Tavares.
Mário de Andrade morreu em 1945, aos 52 anos – deixando um legado cultural e literário inestimável. Seu trabalho engloba romances, poemas, ativismo, implementação de políticas públicas culturais, um acervo de mais de 30 mil obras e uma pesquisa etnográfica resultada de dezenas de viagens pelo território brasileiro.
Em O Turista Aprendiz, o escritor pontua a viagem que fez pela Amazônia, ao lado da amiga e mecenas Olívia Guedes Penteado. De prosa leve, reflexiva e irônica, mostra que Mário de Andrade estava entregue à experiência e ao sonho de conhecer o Brasil.
Uma perspectiva de aprendiz

Cinco anos após a Semana de Arte Moderna de 22, Mário de Andrade embarcou no Rio de Janeiro em direção a Belém do Pará. O modernista subiu a bordo de um vaticano – uma embarcação a vapor típica da região que, de tempos em tempos, parava para abastecimento de lenha.
Andrade então navegou sobre os rios Amazonas, Solimões e Madeira, até as fronteiras do Peru e da Bolívia. Hoje, uma viagem à Amazônia apresenta alguns desafios de acesso aos visitantes, mas em 1927 era uma verdadeira aventura.
“Há uma espécie de sensação ficada de insuficiência, de sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem-arranjadinho que ainda tenho dentro de mim.” – Mário de Andrade, 1927.
Mário enfrentou uma série de contratempos. Um deles foi que levou itens errados na mala, portanto suas roupas não eram apropriadas para o calor e precisou mandar fazer novas em Belém, de linho branco. Ele ainda precisou se besuntar de repelente para se livrar das picadas dos mosquitos: “é um desespero […] Pela primeira vez, não resisto e me emporcalho da tal pomada inglesa”.
No ano seguinte, em viagem para o Nordeste, o autor faria uma pesquisa etnográfica rigorosa, porém não tinha as mesmas pretensões na Amazônia. Em 200 páginas, concentrou uma gama de informações sobre uma porção do país que, até então, pouco conhecia-se.
Conversou também com a população ribeirinha, além de experimentar frutas como graviola e guaraná, peixes e pratos típicos como salada de abacate. Banhou-se nas praias, remou barquinhos e encalhou num banco de areia, cantou ao luar, bebeu uísque com água de coco. Nada foi poupado dos seus comentários divertidos; nem a si mesmo, nem suas companheiras de viagem.
A viagem que inspirou gerações
“Nos orgulhamos de ser o único (grande?) país civilizado tropical… Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente do Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza.” – Mário de Andrade, 1927.
A cada página do livro, o leitor entra em contato com um traço da personalidade e do senso de humor de Mário. A narrativa pode até lembrar a correspondência do escritor, que também têm grande destaque pela importância documental e literária.
O Turista Aprendiz é consagrado como um clássico da literatura de viagem no Brasil. O título foi nome do documentário da fotógrafa Maureen Bisilliat, em 1979; de uma coleção de roupas do estilista Ronaldo Fraga em 2010; e do longa-metragem de ficção de Murilo Salles, exibido na 48ª Mostra de Cinema de São Paulo. Foi ainda base no desenvolvimento do samba-enredo da escola de Samba Mocidade Alegre em 2024 – que neste ano foi campeã do Carnaval paulista.
O Brasil vive hoje dilemas culturais, políticos e sociais – sem falar do fato de que a Amazônia é figura central nos debates sobre desmatamento, mudanças climáticas e sustentabilidade. Com isso, é revigorante se deparar com o entusiasmo do escritor com o país e a diversidade de suas paisagens e culturas. Na apresentação da obra, Flora Thomson-DeVeaux afirma que O Turista Aprendiz não é apenas um documento literário, mas também um testemunho da aposta de Mário de Andrade na cultura como uma chave para enfrentar os impasses do Brasil.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









