Escritor ainda fala das suas inspirações e a presença de mais histórias diversas
Foi durante uma viagem para Seul, na Coreia do Sul, que Bruno Crispim teve a ideia para escrever Kaito: Reze por uma Boa Morte, sua mais recente publicação. O escritor acaba de lançar uma obra de fantasia urbana que mescla triângulos amorosos, apocalipse e ghouls. Aqui, o leitor acompanhará a trajetória do protagonista Kaito, que vive em uma realidade na qual matar concede poder.
Filho de um japonês e de uma sul-africana, o jovem Kaito sente-se deslocado no mundo. Entre as suas principais paixões, estão os games e a melhor amiga Clara. Quando se muda para o Japão para morar com o avô, o rapaz revê sua prima Ayka, acendendo um sentimento proibido entre os dois.
No entanto, o destino dos personagens é alterado com a chegada do apocalipse, que traz de volta à vida 100 bilhões de mortos. Neste mundo dominado por ghouls famintos por carne humana, Kaito morre, porém, renasce logo depois. É aí então que ele descobre que, cada vez que assassina alguém, ganha mais força – como em um game. Agora, ele precisa ficar mais forte, rápido, se quiser salvar quem ama.
Bruno Crispim também é autor de O Segundo Caçador (2016), Da morte sua (2025) e Ascensão (2024) – livro semifinalista do Prêmio Jabuti, criado após um convite e a mentoria com o escritor Marcelino Freire. Em entrevista ao Entretetizei, Crispim detalha como se deram suas ideias para escrever Kaito, os simbolismos da trama e sua perspectiva com o mercado literário brasileiro. Confira!

Entretetizei: Como nasceu a ideia de misturar apocalipse, ghouls, gamificação e romances conflituosos na trama de Kaito?
Bruno Crispim: Kaito é uma história bastante original e acredito acho que ela não poderia ter nascido de um lugar muito comum. Ela foi originada da colisão de vários fatores. O primeiro foi de um estudo (ou pseudo estudo), que se propunha a calcular o número de pessoas que já passou pela Terra. O número encontrado foi de 100 bilhões de pessoas. Esse número ficou comigo ao longo dos anos. Sempre pensava nele, sempre voltava para ele.
Mas a faísca que acendeu o fogo aconteceu quando eu visitei Seul, capital da Coreia do Sul. Em um metrô na hora do rush, eu fiquei pensando: “Meu Deus, como esse metrô aqui está tão lotado e as pessoas não se empurram.” Existe um respeito ali, um respeito que eu não observo em transportes públicos no Rio e em São Paulo. Aí eu pensei: “Qual a quantidade de gente necessária para que esse respeito seja quebrado?” Eu lembrei desses 100 bilhões de pessoas; aquilo ficou muito forte na minha cabeça.
Algum tempo depois, passei dois meses morando em Tóquio. Minha intenção era escrever outro livro, mas, quando cheguei, Kaito simplesmente exigiu ser escrito. A história se impregnou de cultura japonesa desde a origem — a ponto de começar como um roteiro de mangá. Não por acaso, quem gosta de mangá e anime costuma se conectar imediatamente com o livro.
A partir desses insights, e de outros que viriam depois, como a Bíblia, trama começou a tomar forma. As personagens se tornaram mais complexas do que eu poderia ter planejado. Daí em diante, meu trabalho foi basicamente seguir o caminho que elas mesmas abriram.
E: Kaito morre e renasce em um mundo onde matar concede poder. O que você buscou representar nessa ideia?
BC: A pergunta que acendeu a centelha foi: e se a gente esgarçasse os dois acontecimentos únicos na nossa existência (o nascimento e a morte), repetindo eles tantas vezes até que percam seu significado intrínseco? Uma vida que não termina e mortes recorrentes – podendo acontecer várias vezes ao dia. Será que valorizaríamos a vida ou a morte? Minha hipótese é que a existência humana como conhecemos perderia o sentido.
Nada desgasta mais o valor de algo do que a repetição, a abundância. Portanto, a forma mais radical de banalizar a morte seria justamente multiplicá-la ao extremo. Um mundo de vida eterna atravessado por mortes rotineiras. Viver e morrer, esses dois conceitos ficam gastos, quase irreconhecíveis. E, quando isso acontece, as pessoas precisam buscar novas maneiras de conceber o que significa existir.
Só que, nesse universo, a vida tende à estagnação. Se nada tem fim e nada assusta, por que alguém evoluiria como indivíduo? É aí que a gamificação do apocalipse entra como um motor narrativo. Ela cria movimento, propósito, conflito. É o grande catalisador da ação, a engrenagem que impede que esse mundo desbotado permaneça parado.
E: O que você gostaria que os leitores sentissem ao acompanhar a jornada de Kaito?
BC: Eu gostaria que eles se sentissem arrebatados. Sem ar, sem vontade de comer, tomados por aquela sensação de que o mundo real fica suspenso por algumas horas. Esse é o meu grande objetivo com qualquer livro que escrevo.
Quero que Kaito provoque uma imersão tão profunda que o leitor sinta o coração acelerar, que experimente o desconforto das escolhas difíceis do protagonista, que sofra com as perdas e se surpreenda com os momentos de ternura que surgem em meio ao caos. Desejo que a jornada mexa com algo visceral. Que perturbe, emocione, desestabilize e, ao mesmo tempo, que ofereça um fio de esperança.
E: Kaito é um personagem que sempre se sentiu deslocado. Como esse “não-lugar” molda sua saga?
BC: A característica mais evidente de Kaito no início da história é a sua relutância em agir. À primeira vista, isso pode parecer covardia. Mas, da forma como eu vejo, nasce de uma insegurança profunda, de uma autoestima muito baixa. Ele não se percebe como alguém capaz de provocar impacto no mundo e isso o paralisa.
Ele acredita ser indigno de valor e, portanto, indigno também do carinho das pessoas de quem gosta. Esse sentimento de deslocamento funciona como uma espécie de lente: tudo o que ele vive é filtrado por essa convicção silenciosa de que não merece ocupar qualquer espaço. Por isso, quando o mundo se transforma radicalmente e exige decisões imediatas, esse “não-lugar” se torna não apenas um traço de personalidade, mas o grande obstáculo que ele precisa enfrentar.
Ao longo da saga, Kaito começa a mudar essa visão de si e tem vislumbres de que a percepção distorcida sobre si mesmo é, na verdade, o principal antagonista da sua jornada. Não são apenas os ghouls, as regras do jogo ou a violência desse novo universo. É a batalha interna contra uma vida inteira de se sentir menor. Cada vitória dele é, de certa forma, uma pequena reconstrução de identidade. Cada derrota, uma lembrança de que essa reconstrução é um processo frágil.
O deslocamento, portanto, não é apenas ponto de partida, é o motor emocional de Kaito. Ele cresce não porque se torna mais forte, mas porque começa a compreender que pode, e deve, ocupar o próprio lugar no mundo.
E: Qual foi o maior desafio da sua carreira até agora?
BC: Existem três grandes desafios na carreira de um escritor: escrever, publicar e vender.
Escrever é o desafio original e nunca será, de fato, resolvido. Cada livro exige uma reinvenção, uma nova forma de olhar para si e para o mundo. É sempre uma travessia que cobra algo do autor. Ainda assim, é o único estágio que depende exclusivamente do escritor, e isso, de certo modo, é libertador.
Publicar, por outro lado, tende a ser o momento mais angustiante. O espaço nas editoras tradicionais é reduzido, os calendários são apertados e a concorrência é imensa. Porém, vivemos um momento histórico em que a autopublicação se tornou uma alternativa real, robusta e democrática. Plataformas como a KDP permitem que um livro encontre seu público quase imediatamente.
Finalmente, vender é o verdadeiro fantasma de todo escritor. É difícil vender livros até na Europa, no Brasil é uma tarefa hercúlea. Exige estratégia, persistência, presença constante e, sobretudo, resiliência emocional.
Por isso, diria que meu maior desafio não é apenas um desses elementos isoladamente. É equilibrar o esforço e o tempo entre escrever, publicar e vender.
E: Quais autores você acredita que mais influenciaram sua escrita?
Existem três grandes influências muito claras na minha escrita: John Fante, Pierce Brown e Luis Fernando Veríssimo.
Veríssimo me ensinou sobre o ritmo das frases e sobre escutar as normas quando elas não fazem bem para a sua escrita. Brown é um autor de ficção científica estadunidense e seus livros são aulas de enredo. Já Fante me ensinou que as dores do protagonista costumam ser ótimos maestros para uma história.
Recentemente, Ana Cristina Cesar tem me impactado muito. Não sei exatamente como essa leitura se reflete na minha obra, mas seus poemas me tocam muito como pessoa e, naturalmente, isso há de desembocar na obra.
E: Como você enxerga o momento atual do mercado literário brasileiro, especialmente para os gêneros como fantasia, suspense e ficção especulativa?
BC: Nas últimas décadas, acompanhamos uma enxurrada de títulos estrangeiros chegando ao Brasil, muito por causa da valorização do real frente ao dólar. Em termos práticos, ficou barato para as editoras brasileiras comprarem direitos de livros norte-americanos e aproveitar o hype das listas de best-sellers – só o New York Times mantém quase vinte listas diferentes. Esse desequilíbrio acabou desviando o olhar do mercado para fora e, por quase trinta anos, a produção nacional foi colocada em segundo plano.
Hoje, porém, vemos uma retomada, ainda tímida, de valorização da literatura brasileira. É um processo lento, porém constante, de redescoberta dos nossos talentos. E esse movimento começa a tocar, finalmente, os gêneros considerados comerciais, como fantasia, suspense e ficção especulativa.
Autores como Raphael Montes, Eduardo Spohr, Giulianna Domingues e Renata Ventura provaram que temos plena capacidade de ocupar, com força, tanto o mercado doméstico quanto o internacional. Eles abriram portas e mostraram que o leitor brasileiro quer, sim, ler histórias brasileiras.
Por isso, acredito que estamos em um momento fértil para quem escreve no Brasil. Não é um cenário perfeito, mas é um cenário em transformação com espaço para quem chega com vontade de inovar.
E: Quais são os maiores desafios para circular dentro do mercado editorial brasileiro?
BC: O primeiro grande desafio é a falta de chances para publicar. O número de originais que chegam às editoras é enorme, e a quantidade de títulos aprovados é mínima. Isso cria um funil apertadíssimo, em que muitos bons livros sequer têm a oportunidade de entrar em avaliação. E, quando conseguem, o processo é lento, competitivo e cheio de variáveis que fogem totalmente do controle do escritor.
O segundo desafio é que ninguém quer apostar em um autor desconhecido. O leitor brasileiro, de modo geral, prefere nomes já consagrados, estrangeiros. Para um autor novo, conquistar atenção é um trabalho de formiguinha: convencer um leitor de cada vez.
Além disso, existe o desafio prático e emocional de fazer tudo ao mesmo tempo. Hoje, o escritor precisa escrever, analisar estrategicamente suas oportunidades, entender de marketing, cuidar das redes, buscar a publicação, participar de eventos, vender livros, responder aos leitores, produzir conteúdo, manter a carreira viva. Sobra pouco tempo para escrever.
E, por fim, há a realidade dura: apenas um punhado de escritores brasileiros consegue se sustentar exclusivamente com a venda de livros. A maioria precisa conciliar a escrita com outras fontes de renda. Isso cria uma pressão extra, porque, para circular no mercado, é preciso investir tempo, dinheiro e energia, justamente os recursos de que o escritor independente mais carece.
E: Você sente que existe uma valorização crescente da diversidade cultural, racial e temática nas narrativas brasileiras?
BC: Sem dúvida. O mercado tem se aberto cada vez mais para vozes que antes não encontravam espaço. Autores negros, indígenas, periféricos, LGBTQIA+ e narrativas que dialogam com gêneros populares. Essa diversidade amplia o alcance da literatura brasileira e fortalece a identificação dos leitores. Ainda há muito a avançar, mas o caminho já está traçado. É irreversível.
E: Ascensão nasceu de um convite e de uma mentoria de Marcelino Freire. Como foi para você desenvolver essa história?
BC: Foi uma experiência incrível. Marcelino me contou sobre um crime que havia presenciado em Colônia, no Uruguai. Durante a oficina de escrita que ele ministra em São Paulo, conversamos longamente e, pouco a pouco, aquela ideia inicial começou a se transformar em um romance policial. Ele me deu total liberdade para desenvolver a história. A partir dali, Miguel, o protagonista, foi ganhando corpo. Darla nasceu e se tornou cada vez mais rebelde. E novas personagens surgiram.
Ao longo desse processo, eu compartilhava minhas intenções e ele pontuava observações sempre precisas. Quando terminei a primeira versão, entreguei o manuscrito para ele ler. Conversamos bastante sobre sutilezas, tensões e questões estruturais. Reescrevi, entreguei de novo, reescrevi mais um pouco. Foi apenas quando Marcelino disse que estava satisfeito que percebi que a história finalmente estava robusta.
Mesmo assim, ainda reescrevi várias vezes porque reescrever nunca é demais. Foi um processo intenso, generoso e profundamente formativo.
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Texto revisado por Cristiane Amarante









