Autores se preparam para lançar HQ que mistura sci-fi, viagem intergalática e bruxas
Ren Nolasco e Márcio Moreira se uniram para escrever a HQ Lapso, que chegará às livrarias pela editora Suma no dia 14 de outubro. A obra, repleta de referências a filmes e séries de ficção-científica, acompanha a trajetória de uma bruxa que tenta, a todo custo, organizar a vida.
Foi Nolasco, quadrinista e ilustrador, que iniciou a história, desenvolvendo alguns personagens e uma estrutura parcial. Ao idealizar a estética dos quadrinhos, escolheu construir um visual mais psicodélico e caótico, que ajudasse a tecer a trama. Para finalizar a narrativa, contou com a ajuda de Moreira, escritor que já havia roteirizado outros quadrinhos.
Em Lapso, os dois se divertem ao contar as peripécias de Verônica — uma jovem vidente que precisa, urgentemente, conquistar novos clientes. A clarividente precisa pagar o aluguel atrasado ou será obrigada a voltar para a casa da mãe. Para resolver o dilema, ela bola um plano: comprar uma estrela e usá-la como propaganda do seu trabalho nos céus da internet. No entanto, sua amiga Cocota acredita que o feito não resolverá o problema, afinal, são apenas likes, não dinheiro.
Tudo muda quando uma enxurrada de lapsos no espaço-tempo joga a bruxa desempregada em uma estranha dimensão paralela. Por entre as frestas do universo, ela será acompanhada por um alienígena mal-disfarçado e um gato preto misterioso, que acaba por se mostrar uma terrível ameaça intergaláctica a ser contida.
Em entrevista, os autores revelam quais foram as suas inspirações, os seus processos de escrita e as principais referências para desenvolver a HQ. Confira.

Entretetizei: Como foi escrever em dupla?
Ren Nolasco: No nosso caso específico, foi meio segmentado. Originalmente, eu tinha escrito a história, baseada em dois personagens de um conto que escrevi muito tempo atrás. Eu tinha escrito e ilustrado, mas sentia que estava faltando alguma coisa. O processo foi muito longo. Esse quadrinho já teve pelo menos quatro versões de roteiro diferentes.
Por volta do meio da segunda para a terceira versão, falei para a Tarci, que é a agente que ajudou a gente a publicar o quadrinho: “não tenho mais cabeça para entender como essa história está acontecendo”. Estava muito confuso, mexe com viagens no tempo, com timeline quebrada. Eu já não sabia se fazia sentido, porque a gente tinha mexido muito.
E eu já conhecia o Márcio há muito tempo. Pensei: “essa história é a cara dele”, porque o Márcio é muito da graça, e é uma história com muita comédia. Aí ele acrescentou novos personagens, aumentou mais cinquenta páginas de quadrinho. A partir desse ponto, o Márcio ficou responsável pelo roteiro.
Márcio Moreira: Foi super tranquilo, porque tudo que eu propunha o Ren topava. Eu falava: “No começo, a Verônica não fala com ninguém, a gente não sabe quem ela é direito. E se ela tivesse um familiar? E se fosse uma cutia falante?”. Ele dizia: “Está bom, está certo”. Isso foi ótimo: tudo que eu joguei ele pegou.
Ren Nolasco: Como a gente já tinha uma relação de amizade há bastante tempo, foi bem tranquilo. Ele já entendia o humor do quadrinho.
E: O que cada um trouxe de mais forte para a história? Como essas diferenças se complementaram?
RN: Acho que o que eu trouxe mais forte foi a arte. Modéstia à parte, está um quadrinho muito bonito, belíssimo. Gostei muito de brincar com a quebra de requadro. Não gosto muito de quadrinho certinho; nunca me dei bem com webtoon, porque eles têm uma lógica de formato muito do rolar. Eu penso muito na página. Gosto de quebrar os quadros e fazer coisas meio doidas. Chegou num ponto em que é difícil abrir uma página de Lapso e ter os quadrados certinhos. Foi legal brincar com isso, porque a história também permite esse tipo de viagem.
MM: Acho que Ren já respondeu que o que eu trouxe de mais forte foi a piada (risos). Os personagens já eram muito sólidos. A Verônica já estava bem definida, o Zig (que na época se chamava Pam) também. Já tinha designs, já tinha o tom da história. O que eu fiz foi contribuir com a estrutura da parte de viagem no tempo e com os diálogos, tentando trazer falas engraçadas, coloquialidade, uma coisa bem daqui também.
E: Há uma mistura de humor, fantasia, crítica social. Como surgiu essa ideia?
RN: Inicialmente, eu queria muito fazer um quadrinho que mexesse com o formato. O principal era isso: uma história mais sobre a forma como é contada do que sobre os acontecimentos. Queria que você não conseguisse distinguir a forma da história da própria história.
Pensei nessas viagens no tempo, indo e voltando. Lembrei de um conto que escrevi um tempo atrás, todo contado de trás para frente, inspirado no filme Memento do Christopher Nolan. As primeiras versões de Lapso eram desse jeito, agora não mais, ficou mais dinâmico.
Na época, esse conto era uma comédia romântica para um concurso. Eu não gosto muito de comédia romântica, então pensei: “E se eu fizer um ET aqui?”, meio que fazendo piada com o formato. Fiz uma história de uma menina perseguida por alienígenas, e vinha um policial espacial para salvá-la, mas ele era o pior da corporação. Ela acabava sendo quem se salvava. A Verônica herdou disso: é meio perdida, mas confiante, faz acontecer. O Zig também é confiante, mas tudo dá errado para ele. Dessa mistura nasceu muito da HQ.
E: A HQ tem um estilo meio psicodélico, mistura sonho e realidade. Quais referências ajudaram a construir esse visual e narrativa?
MM: Desde o começo, quando li a história, entendi que o Ren queria algo como um episódio de Doctor Who. Nós dois somos fãs da série; inclusive assistimos a última temporada juntos. Doctor Who foi uma grande influência. Há também referências a Star Trek e Douglas Adams, citados na HQ.
Outra influência importante veio da série A Maldição da Mansão Bly, da Netflix. Há um episódio em que uma personagem viaja no tempo, e o jeito como resolveram isso me destravou a estrutura da história.
RN: Mas, no geral, é uma grande ode à ficção científica. Desde as primeiras versões, o Zig era fã de ficção científica terrena, cheio de referências. Essa ficção dos anos 70, 80 e 90, com futuro otimista, de explorar planetas, diferente da pegada atual mais pessimista, de Black Mirror.
E: Vocês já trabalharam com outros formatos. O que o quadrinho tem de único para contar essa história?
MM: O quadrinho é muito interessante para trabalhar viagem no tempo, porque o tempo no quadrinho é espacial: os momentos aparecem na página em forma de quadros. Dá para brincar com momentos diferentes na mesma página, com transições de tempo. A cor ajuda a diferenciar épocas. E o livro físico permite que o leitor volte páginas, se localize. Acho que só funcionou porque é quadrinho. Em outra mídia, não sei se seria igual.
MM: Lapso só funciona do jeito que foi feito. Foi muito desafiador. É muito único, difícil pensar em algo parecido. Junta bruxo, sci-fi, comédia, vários gêneros, e tudo conversa de forma natural na história.
E: A HQ traz a presença marcante das bruxas. Houve inspiração em personagens da cultura pop?
RN: Sempre comparo a Verônica com a Márcia Sensitiva (risos). Ela tem mais esse lado de ler destino do que de bruxa tradicional. Chegamos a conversar sobre a mãe dela ser uma bruxa famosa, que quase não aparece, mas poderia ser importante em uma continuação. Uma bruxa mais tradicional, enquanto a Verônica seguiu por outro lado.
MM: A Verônica é uma boa bruxa, mas acha que é muito melhor do que realmente é. Gosto muito das bruxas do Terry Pratchett. Consigo imaginar a Verônica levando chapéu delas.
E: A capa chama atenção. O que quiseram transmitir?
RN: A ideia foi mostrar versões diferentes da Verônica em momentos distintos da história, além de elementos marcantes como o gato preto antagonista. A capa traz a ideia de fragmento, ligada ao título Lapso. Na contracapa, mostramos outro tom da história: a mesa bagunçada da Verônica, com patinhas de gato e o celular dela. A capa traz o lado espacial e mágico; a contracapa, o lado bem-humorado.
E: Teve alguma ideia maluca que parecia sem sentido, mas vocês mantiveram?
MM: Várias! A Cocota, uma cutia, familiar da mãe da Verônica. Mas é jogadora de pôquer e curte vinho. Foi uma das ideias mais malucas, e acabou sendo muito querida. Ela é como o grilo falante da Verônica. Tiveram outras coisas, mas não quero falar para não estragar: o final é surpreendente.
RN: A existência dela foi uma das coisas mais doidas. E, no final, virou uma das coisas que todo mundo adora na história. Você escuta esse nome e já tem vontade de rir. Ela mora com a Verônica, é tipo babá e colega de quarto. Antes do Márcio, quando ainda não tinha a personagem, faltava algo que ligasse a Verônica ao presente.
E: O quadrinho começa com a protagonista querendo comprar uma estrela. Qual mensagem quiseram passar?
RN: A estrela remete à moda de alguns anos atrás de comprar estrelas. Queríamos brincar com comunicação intergaláctica — mas não posso falar muito para não dar spoiler.
MM: Ela acabou simbolizando a aspiração da Verônica de ser influencer, a própria Maria de Fátima. Não é sobre espaço em si, mas sobre marketing. Ela quer mostrar que tem a própria estrela, como um produto. Muitas vezes, perde a mão no marketing.
E: Quais os maiores desafios de trabalhar com ilustração e literatura hoje?
RN: Manejar o acúmulo de funções. Sem garantia salarial, você precisa se virar em trinta, aceitar tudo que aparece, e isso pode levar ao burnout. É preciso equilibrar o que fazer agora e o que deixar para depois, porque precisamos priorizar a saúde mental. Às vezes, preciso programar quando vou desenhar, porque as outras tarefas tomam tudo. O nosso trabalho ainda não é valorizado; por isso, existe esse acúmulo de funções.
MM: Outra questão é virar empresa de si mesmo: cuidar de redes sociais, marketing, logística. Isso engole o tempo de criar, escrever, desenhar. É importante ressaltar a valorização: uma editora como a Suma publicar um quadrinho nacional é fundamental. Pode trazer novos leitores para o meio, gente que gosta de Stephen King ou comédia, e talvez nunca tenha lido HQ.
E: O que a ficção científica traduz de problemas sociais e por que fascina tanto?
RN: A fantasia é uma extrapolação da realidade. A ficção científica, em particular, fala das ansiedades com o futuro. Lembro daquela cápsula que é hoje o objeto humano mais distante da Terra, enviada com sons e mensagens: risada de bebê, música, beijos. Era um gesto otimista, mostrando quem somos.
Agora há um projeto de enviar outra cápsula. Mas a ideia é incluir sons de bombas, para transmitir a possíveis predadores a mensagem de que não estamos indefesos. Isso diz mais sobre nós do que sobre alienígenas. Na época da primeira cápsula, havia otimismo com a corrida espacial e a exploração de planetas. Hoje, a tecnologia costuma ser vista de forma pessimista: pensamos logo em catástrofe. Essa ansiedade molda a forma como encaramos o futuro na ficção científica.
MM: Toda história que a gente cria tem uma base na nossa vida, seja emocional, seja material. Fabular — transformar o real em história — permite transmitir sentimentos e ideias que ficariam confusos se tentássemos apenas simular o real. O real é muito doido. Quando criamos histórias, conseguimos ressaltar certos aspectos, provocar emoções.
A ficção especulativa pode falar sobre qualquer coisa. Quando penso em uma narrativa completamente realista, sinto que falta algo. Os elementos fantásticos acrescentam cor, deixam os conflitos mais interessantes, os personagens mais ousados e as ideias mais amplas.
Em Lapso, isso aparece também: o vilão não é quem parece. A criatura que ataca não é exatamente aquilo que se imagina. É importante questionar essa mentalidade de “já tem monstro, vamos matar o monstro”. Claro, não inventamos isso — somos grandes fãs de ficção científica, e vamos pegando referências melhores para lidar com certos problemas narrativos.
E: O livro será lançado em outubro, mês das bruxas. Foi intencional?
RN: Foi coincidência. Queríamos lançar perto da CCXP. Só depois percebemos que caía no Halloween. Agora estamos até programando ações de divulgação em cima disso (risos). A Verônica certamente teria escolhido essa data.
MM: E a Cocota defenderia o Dia do Saci! (risos).
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Texto revisado por Kaylanne Faustino









