De origem política e muito além de uma data publicitária, o 8 de março sempre foi um dia de luta e solidariedade proletária
Flores, campanhas publicitárias, textões sobre amor incondicional, sutiãs queimados e eletrodomésticos em promoção… Sobre o que exatamente é o Dia Internacional da Mulher?
Poderíamos supor que não é sobre violência, mas o 8 de março deste ano acontece à sombra de vários casos de feminicídio noticiados só esta semana – algo que não se pode dizer que é uma surpresa no país que é 5º lugar em feminicídios no mundo, que chegou a registrar 83 mil vítimas de estupro só no ano passado.
Oitenta e três mil vítimas.
Para ficar mais claro, esse número equivale a cerca de 227 vítimas por dia, ou um caso a cada seis minutos, segundo dados do Ministério da Justiça. Nesse cenário, no qual mulheres ao redor do mundo vão às ruas com cartazes escritos “parem de nos matar” e em que bons homens fazem vista grossa ao ouvir o melhor amigo rindo ao contar um caso de estupro, tampouco podemos dizer que o Dia Internacional da Mulher é sobre amor.

Será que o ideal, então, como nos acostumamos a fazer ao longo de tantos anos, seria apenas fechar os olhos, aceitar o parabéns dito com a boca cheia no café da manhã ou o bombom envelhecido do armário, dizer obrigada e começar a preparar o almoço?
A verdade é que o Dia Internacional da Mulher nunca foi um dia de festa. Sua origem, apagada sob mais de um século de revisionismo e despolitização, é fruto do legado combatente de mulheres que, desde meados do século XIX, tomaram à força o seu lugar na vida pública e se recusaram a manter o silêncio.
Como surgiu o Dia Internacional da Mulher
Todos conhecem a história das mais de 120 mulheres que, ao lado de alguns colegas homens, foram mortas em uma fábrica têxtil de Nova York, vítimas de um incêndio causado por condições de trabalho insalubres e desumanizantes. A data exata do incidente é incerta, bem como o número de mortos – reflexo do descaso com o qual a vida e a morte de operários eram tratadas na época –, com versões que variam entre os primeiros anos do século XX.
A revolta diante da tragédia mobilizou milhares de mulheres a se manifestar em solidariedade, o que, então, teria dado início ao Dia Internacional da Mulher.
Entender o 8 de março a partir dessa tragédia, contudo, reduz e apaga uma luta que já estava em curso desde o século XIX, muito antes de qualquer faísca se acender na fábrica de Nova York. A história do Dia Internacional da Mulher foi construída ao longo de décadas por mulheres sindicalistas no Ocidente, que organizavam propagandas, greves, assembléias e cartilhas exigindo justiça e igualdade, nunca a lágrima ou a pena dos que as olhavam de cima.

Foram mulheres operárias e trabalhadoras domésticas que, em vestidos encardidos e manchados por pólvora, mobilizaram ao longo de décadas protestos e agitações políticas que em nada orgulhavam os ideais de feminilidade, deferência e subordinação da época.
Nada disso surgiu de uma hora para outra, no vácuo.
Esses foram os passos que levaram à Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910, na cidade de Copenhague, quando foi proposta a organização de um Dia Internacional da Mulher pelas jornalistas e revolucionárias Clara Zetkin, Alexandra Kollontai e Luise Zietz, cujas produções intelectuais estão nas bases do pensamento feminista.
A declaração organizada por elas alegava a necessidade de um dia especial que legitimasse as demandas das mulheres na época. A proposta centralizava o sufrágio feminino, mas também previa a luta por melhores condições de trabalho, assistência social para mães e seus filhos (incluindo mães solo), como creches e outros serviços que entendiam que a economia do cuidado devia ser de responsabilidade do Estado, e qualquer outra pauta que tivesse como horizonte a emancipação da mulher.

O primeiro Dia Internacional da Mulher aconteceu em 19 de março do ano seguinte, antes de se convencionar o 8 de março.
O que se tornou o Dia Internacional da Mulher?
É claro que desde 1911 muita coisa mudou.
Aquele feminismo revolucionário ocidental não era perfeito e foi submetido a muitas críticas importantes.
É inegável, por exemplo, o quanto as primeiras formulações negligenciavam as experiências de mulheres LGBTQIAPN+ e racializadas. Mulheres negras e indígenas, principalmente, não cabiam na visão de feminismo imaginada até então – sem contar mulheres amarelas, persas e árabes, que só recentemente passaram a ser consideradas, ainda de maneira muito insuficiente.
Esses questionamentos aprofundam a luta e contribuem com a sua universalização, também chamada de interseccionalidade. Não podemos esperar que nossas reivindicações hoje assumam a mesma forma de quando foram primeiro pensadas.

A expansão e desenvolvimento do pensamento feminista, contudo, se deu em paralelo com o crescimento da resposta reacionária. Na segunda metade do século XIX, vimos surgir o feminismo radical, com a notória queima de sutiãs e o início das discussões sobre gênero e sexualidade, ao mesmo tempo que a rejeição a esse pensamento e a misoginia se intensificaram.
O resultado foi uma espécie de conciliação unilateral.
Dada a ameaça que o feminismo apresentava às instituições sociais e à soberania das classes dominantes, a resposta foi então se apropriar de tal forma do movimento que ele se tornou pouco mais que um discurso publicitário e moralista, uma promessa de que, se a gente der as mãos e assistir a filmes de heroínas da Marvel o suficiente, tudo passa.
O reconhecimento do 8 de março pela ONU só se deu em 1975, sem seu caráter revolucionário e combativo, e até poucos anos víamos a data ser devorada ironicamente pelo setor de eletrodomésticos e itens de casa – nada poderia ser mais feminista do que oferecer às mulheres uma lava louças com 30% de desconto.
Apesar da origem num fórum político, o movimento foi despolitizado, engolido e regurgitado como algo pseudo-religioso, como um símbolo de solidariedade, compreensão e sensibilidade. O que era pólvora se tornou flor e a indignação que levava à raiva agora suscita, no máximo, uma lágrima solta e uma promessa vazia de fazer diferente.

Hoje não é incomum ouvir que feminismo não tem a ver com política, que nós já conquistamos tudo o que tínhamos para conquistar, já somos iguais perante a lei – o que mais poderíamos querer?
Mas em um país que convive com um estupro a cada seis minutos e que, em 2025, registrou 1.568 mulheres assassinadas, podemos dizer que a lei é suficiente? Que diferença faz a lei em um mundo em que meninos são criados para odiar mulheres e no qual os algoritmos favorecem conteúdos misóginos? Que diferença faz lembrar nossos algozes do nosso direito à vida se o crime é recebido com humor e por juízes prontos para perdoar e abrir exceções?
A verdade é que o 8 de março não é sobre “parabéns” e muito menos sobre “sinto muito”, mas sobre solidariedade e luta política. Não é sobre lembrar tragédias, sobretudo porque não precisamos olhar para o passado para encontrá-las, mas é, sim, sobre memória, para garantir que a nossa história e as pessoas que fizeram parte dela não sejam apagadas ou enterradas em covas rasas.

O 8 de março também é sobre garantir que os direitos que conquistamos desde 1911, como o sufrágio, o divórcio, o aborto legal no Brasil, o reconhecimento legal da violência doméstica e do estupro conjugal e tantos outros, não se limitem à esfera legal e sejam assegurados universalmente para toda e qualquer mulher de forma inalienável.
Garantir a redação de leis que atendam às nossas necessidades é importante, mas as 83 mil vítimas de violência sexual e mais de 1.500 mulheres assassinadas no Brasil só no ano passado nos mostram que não é suficiente.
Então, neste Dia Internacional da Mulher é preciso lembrar que ser mulher é inerentemente político e que a dignidade e o direito à vida são consequência de luta.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz










