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Foto: divulgação/Intrínseca/Entretetizei

Crítica | Melhor do que nos Filmes conquista ao transformar clichês em emoção

Livro de Lynn Painter aposta em referências a comédias românticas e discute amadurecimento emocional, luto e idealização do amor

Entre referências a comédias românticas clássicas e canções, e uma protagonista que acredita viver dentro de um roteiro digno de cinema, Melhor do que nos Filmes (2023), de Lynn Painter, equilibra leveza e emoção e se tornou um dos romances do gênero young adult mais populares dos últimos anos.

A obra, que à primeira vista parece apenas mais uma história repleta de clichês, encontra sua força justamente na maneira que utiliza essas fórmulas para discutir temas mais profundos, como o luto, o crescimento emocional e o amor. 

Sobre Melhor do que nos Filmes
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Foto: reprodução/Roendo Livros

A trama acompanha Elizabeth Buxbaum, conhecida como Liz, uma adolescente que acredita que sua vida amorosa deveria seguir os moldes perfeitos das romcoms que assistia com sua mãe, já falecida. Quando seu antigo crush retorna à cidade, ela encontra uma oportunidade de viver o seu tão esperado final feliz – mesmo que, para isso, precise contar com a ajuda improvável de seu vizinho e rival, Wesley Bennet.

A narrativa se apoia em um dos tropes de maior interesse do público leitor: enemies to lovers. Mas, longe de tentar subverter completamente essas estruturas clichês, Painter aposta justamente na familiaridade como ponto de conexão com o leitor. O resultado, então, é uma história previsível em sua essência, mas eficiente em sua execução. O livro não busca surpreender, pois seu objetivo é oferecer conforto, identificação e envolvimento emocional.

As constantes referências a comédias românticas dos anos 2000 – cada capítulo se inicia com uma fala de algum filme do gênero –, reforçam esse aspecto, funcionando como linguagem afetiva da protagonista. Em contrapartida, é possível que esse recurso seja repetitivo para outros leitores que buscam maior profundidade ou inovação narrativa.

Uma protagonista imperfeita e muito real
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Foto: divulgação/Intrínseca

Liz está longe de ser uma heroína ideal. Romântica incurável, ela frequentemente toma decisões impulsivas e demonstra certa imaturidade emocional, o que pode causar estranhamento em parte do público.

No entanto, além do fato de Liz ser uma adolescente e agir como tal – parte de um arco de desenvolvimento coerente com sua idade e vivências –, essas características estão diretamente ligadas ao núcleo mais sensível da obra: o luto. A idealização do amor, para a protagonista, não é somente uma fantasia, é uma forma de manter a memória de sua mãe viva e o vínculo afetivo que compartilhavam intocado.

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E é essa camada que confere densidade à obra e transforma o romance central em um processo de amadurecimento. Ao tentar viver uma história digna dos filmes, uma trama que teria sido escrita por sua mãe ou vista em algum longa que compartilhou com ela, Liz busca muito mais recriar essa conexão do que realmente se atentar aos seus sentimentos reais.

O plano parece simples: Liz quer conquistar Michael, seu crush de infância, e ela aceita a ajuda de Wesley Bennet. Mas rapidamente a dinâmica muda. Michael representa o amor idealizado, o amor distante, perfeito, praticamente inalcançável. Wesley surge como o completo oposto, imperfeito, presente e construído na convivência.

E é nesse contraste que a narrativa ganha densidade. Isso porque, aos poucos, Liz é forçada a confrontar só a diferença entre o amor que imaginou que teria e o amor que realmente experimenta, mas também a dificuldade em aceitar mudanças e seguir em frente. 

A representação do amor real

Se Liz é a idealização em pessoa, Wesley Bennet surge como seu contraponto. Inicialmente apresentado como o típico vizinho irritante, o personagem rapidamente se revela mais complexo do que isso, assumindo o papel central no desenvolvimento emocional da protagonista.

Wes é o tipo de personagem que cresce na história. Ele é implicante, mas atento; irônico, mas sensível; caótico, mas extremamente presente. Enquanto outros personagens poderiam facilmente cair no arquétipo do bad boy genérico, Wes se destaca justamente por fugir dessa linha de raciocínio, por ser construído nos detalhes. Nos diálogos. Nas pequenas atitudes. Na forma como ele enxerga Liz – mesmo quando ela não enxerga a si mesma com clareza.

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Diferente de Michael – alguém que Liz já não conhece para além de suas idealizações e memórias infantis –, Wesley se revela para ela aos poucos, na convivência, nos conflitos e nas pequenas – mas profundas – interações cotidianas. Aqui, Lynn Painter mostra que o amor real não se encaixa em roteiros perfeitos, e ele pode ser melhor justamente por isso.

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Wesley não é o amor idealizado, é o amor possível. E é exatamente por isso que ele é tão mais interessante do que Michael.

Borboletas no estômago, impossível de não amar

A escrita de Lynn Painter é direta, fluida e centrada nos diálogos, o que torna a leitura dinâmica e rápida. O humor, muitas vezes baseado em constrangimentos e interações entre os personagens, ajuda a equilibrar os momentos mais sensíveis. 

O livro não é revolucionário; quer apenas fazer o leitor sentir. A história é previsível, e o desfecho se revela desde cedo. Ainda assim, é impossível não se envolver, porque, aqui, mais do que surpreender, importa encantar.

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A obra é uma carta de amor às comédias românticas, especialmente aqueles clássicos dos anos 90 e 2000 que moldaram toda uma geração de espectadores – e leitores. Por isso, as citações não estão ali por acaso. Elas constroem a identidade de Liz, ajudam a traduzir sentimentos e criam uma conexão imediata com quem lê.

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Foto: divulgação/Entretetizei

É quase como participar de um código secreto. Cada referência funciona como um aceno cúmplice – um “eu sei do que você está falando, garota”ou você também sente isso, não é?”. E isso funciona muito. A cada página virada você se vê dando pulinhos de alegria quando encontra uma citação que reconhece.

Um outro ponto que merece destaque é o cuidado com a trilha sonora da história. Lynn Painter constrói uma atmosfera que vai além das páginas. A playlist do livro não é apenas um extra, ela funciona como extensão emocional da narrativa tal qual as citações às comédias românticas.

Cada música mencionada – ao fim do livro é possível encontrar todas – ajuda a reforçar o clima das cenas, a aprofundar sentimentos e a criar uma experiência mais imersiva. Para quem gosta de ler ouvindo música, isso eleva tudo. Para quem não costuma fazer isso, é um convite.

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Melhor do que nos Filmes é o tipo de livro que faz você sorrir sozinho, se apegar aos personagens rápido demais e terminar com aquela sensação de querer um pouco mais disso aqui

E depois do fim?

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Foto: divulgação/Intrínseca

A continuação traz um olhar interessante: o que acontece depois que o romance deixa de ser fantasia e vira realidade? Menos sobre se apaixonar e mais sobre continuar escolhendo alguém. Mas essa é uma história para outra crítica

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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura

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