Em um raio-X da medicina real, Rodrigo Silva Mümller desmonta a imagem do médico infalível e explora os bastidores do sistema
A figura do médico como autoridade inabalável, cercada por jargões e certeza absolutas, é justamente o que o autor Rodrigo Silva Müler busca desconstruir em O que se passa na cabeça de um médico? No livro, o radiologista transforma a rotina hospitalar em matéria de reflexão e humor, revelando os dilemas, contradições e absurdos cotidianos da profissão.
Em vez de reforçar a visão idealizada da medicina, o autor aposta em crônicas que aproximam o leitor da realidade dos bastidores e mostram que o exercício médico está menos ligado a respostas definitivas e mais à complexidade das escolhas humanas.
Müller utiliza sua visão panorâmica da radiologia para analisar a fauna hospitalar com a precisão de quem vê por dentro. Ele conduz o leitor por cenários emblemáticos, como a República Federativa do Bloco Cirúrgico, onde protocolos e egos podem colidir, e a Sala de Exames, espaço em que familiares munidos de buscas online – e até palpites do ChatGPT – transformam um ultrassom em arena de debate.
O livro também aborda a burocracia dos prontuários eletrônicos, muitas vezes mais exaustiva do que a própria consulta, e ironiza a ascensão do Doutor Algoritmo, representação da Inteligência Artificial que pode auxiliar no diagnóstico, mas não substituir escuta, contexto ou empatia.
No contraponto está o Tio do Zap, personagem que simboliza a avalanche de desinformação e curas milagrosas propagadas em redes e aplicativos. Ao tratar dessas tensões, Müller questiona o lugar da ciência em uma era marcada por ruído informacional e soluções fáceis.
O que se passa na cabeça de um médico? – Um raio-X bem-humorado e humano da medicina levanta outras pautas urgentes, como a mercantilização do cuidado, a saúde mental dos profissionais formados sob uma pedagogia da exaustão e o desafio de manter a humanidade em tempos de IA.
O autor questiona tudo isso ao defender que, por trás do jaleco, também existe alguém passível de falhas, e que a verdadeira sabedoria não mora nas respostas imediatas das estatísticas ou algoritmos, mas principalmente na coragem de dizer não sei e investigar a dor junto ao paciente.
Sobre o autor

Rodrigo da Silva Müller é médico radiologista, professor e autor. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UDCSPA) em 1998, concluiu a residência médica em Radiologia e Diagnóstico por Imagem no Hospital Mãe de Deus (2000–2013) e fez pós-graduação em Gestão em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Já foi diretor técnico de hospital e, hoje, atua como médico-radiologista.
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Texto revisado por Cristiane Amarante










