Especialistas e leitores mostram que criar uma relação forte com os livros passa menos por disciplina e mais por prazer
No dia 23 de abril, instituído pela UNESCO como o Dia Mundial do Livro, celebra-se a importância da leitura em todo o mundo. A data também é simbólica por marcar a morte de grandes nomes da literatura, como William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Vega.
Todos os anos, no dia 23 de abril acontecem comemorações em todo o mundo para reconhecer o alcance dos livros – um elo entre o passado e o futuro, uma ponte entre gerações e culturas.
“Na verdade, os livros são veículos fundamentais para acessar, transmitir e promover educação, ciência, cultura e informação em todo o mundo”, afirmou a Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO.
Há um mito de que quem deixou de ler perdeu o hábito por falta de interesse, quando, na prática, muitas vezes o problema é o excesso de estímulos, cobranças e até de expectativas sobre o que se deve ler.
Provavelmente você já ouviu diversas pessoas tentando ditar o que o outro deve ou não ler, o que é ou não literatura; e essas atitudes acabam gerando um certo desconforto em uma parcela de leitores que não se encaixam nesse grupo ideal. Ao tentar pertencer e ler coisas que não condizem com sua personalidade ou até mesmo temas que você não tem interesse, a quebra de expectativa acaba gerando frustração.

É nesse ponto que surge a ressaca literária. Ela não está ligada apenas à tentativa de se encaixar em padrões ou opiniões sobre o que é certo ou errado na literatura. Muitas vezes, acontece quando uma história é tão intensa e marcante que nos deixa impactados. Nessas horas, é natural precisar de um tempo para absorver o que foi lido — ainda não estamos prontos para seguir para a próxima história.
A ressaca também pode surgir quando um livro é decepcionante, você esperava demais dele e ele não te entregou nada. Ou pode aparecer por conta da pressão por produtividade, que transforma prazer em obrigação e metas a serem atingidas.
E é importante lembrar nesse Dia Internacional do Livro que ler não é performance, e tampouco uma obrigação.
Repensando a forma como lemos

Uma das estratégias mais comuns que encontramos entre mediadores de leitura, é a ideia de esquecer, pelo menos por um momento, os calhamaços acumulados na estante e voltar para narrativas curtas, contos, novelas, poesias, etc. Isso porque retomar o hábito não significa buscar aquele livro extenso e famoso que todos recomendam. Trata-se, antes, de voltar ao ritmo da leitura, às vezes até revisitando a obra que despertou, lá no início, o prazer de ler.
Essa lógica também se aplica a pessoas que não abandonam um livro por culpa, acreditando que todo livro precisa ser terminado. Insistir em uma leitura que claramente não está funcionando para você pode paralisar, mais do que sustentar, seu hábito. Todo leitor não só pode, como deve, abandonar uma leitura que não lhe está agradando.
Troque o gênero, mude o ritmo ou deixe esse título para um outro momento, isso faz parte da manutenção da leitura, não de uma interrupção.
Existem muitos casos em que ler menos por dia pode significar ler mais a longo prazo. Por exemplo, ler cinco páginas, dez minutinhos antes de dormir ou um capítulo por semana são micro-rituais que sobrevivem justamente porque cabem na rotina. Em tempos digitais, a constância muitas vezes vale mais do que a quantidade.
Quando tomamos a liberdade de repensar a leitura, isso também envolve entender que nem toda ressaca se cura com ficção. Biografias, ensaios curtos, crônicas, graphic novels, livro-reportagem e até audiobooks podem reativar o interesse. Às vezes, você não está cansado de ler, só está cansado de ler o mesmo tipo de coisa.

Outro movimento importante que tem trazido um bom resultado são as comunidades leitoras. Clubes do livro, leituras coletivas e espaços digitais como o BookTok transformaram a leitura em experiência compartilhada, fazendo do diálogo um estímulo para continuar. Hoje, muitos leitores encontram na troca uma forma de manter o hábito vivo.
E talvez seja interessante também uma reflexão, entender que o problema pode não ser exatamente a falta de hábito, mas o excesso de cobrança. Metas anuais, desafios numéricos, listas intermináveis e a pressão por acompanhar lançamentos transformaram a leitura em produtividade. Esse movimento esvazia o prazer e aumenta a ansiedade, consequentemente levando a perda. No fim, ler por curiosidade e simples vontade sustenta mais do que ler por obrigação.
Então, como sair da ressaca literária na prática?
Releia um título favorito, troque de gênero, diminua suas metas, monte uma fila possível e leia junto com alguém – a conversa ajuda.

O Dia Internacional do Livro costuma exaltar autores, clássicos e a importância da leitura. Mas talvez a pergunta da época contemporânea seja um pouco diferente: como continuar lendo em um mundo que disputa nossa atenção o tempo todo? E a resposta pode ser menos épica e heróica do que parece, talvez seja só encontrar prazer em virar a próxima página.
O que te ajuda a sair da ressaca literária? Compartilhe com a gente nas nossas redes sociais – Facebook, Instagram e X – e, se você gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










