A lista reúne filmes, documentários e curtas para assistir no streaming que está popularizando o acesso à cultura nacional
Neste dia do cinema nacional (19), a democratização do acesso a filmes brasileiros está cada vez maior, e você pode conferir gratuitamente obras essenciais que moldaram nossa cultura e nosso pensamento, com temáticas contemporâneas ou clássicas. Depois de um ano de espera, lançado em 30 de maio, durante o Rio2C, o streaming Tela Brasil está no ar reunindo filmes, séries, documentários, curtas, médias-metragens e produções seriadas nacionais em um único ambiente digital, a primeira plataforma pública federal de streaming dedicada ao audiovisual brasileiro.
O serviço é gratuito e funciona por meio de login de usuários já cadastrados no Gov.br. Inicialmente, a plataforma criada pelo Governo Federal e pelo Ministério da Cultura incluiu cerca de 555 títulos brasileiros no catálogo, produzidos entre 1910 e 2025, abrangendo clássicos do cinema nacional, conteúdos educativos e obras que já representaram o Brasil no Oscar, entre elas, 19 longas que disputaram a categoria de melhor filme internacional. A maioria são curtas-metragens, uma boa oportunidade para conferir produções muito boas que raramente chegam ao grande público, já que às vezes nem entram nas telas ou plataformas comerciais.
A plataforma pode ser acessada pela web, e as versões para o celular ainda estão sendo desenvolvidas e devem ser lançadas em breve. Pensando nisso, o Entretê selecionou sete filmes que valem a pena conferir no Tela Brasil neste dia do cinema nacional, em um movimento de prestígio à nossa cultura e de ampliação do alcance de produções nacionais, garantindo o direito cultural à população brasileira.
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

Marco do cinema novo, o clássico dirigido por Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol, é um filme de 1964 que acompanha Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro que se revolta por ser explorado pelo Coronel Moraes e mata o homem em uma briga. Perseguido por jagunços, ele foge com sua esposa, Rosa (Yoná Magalhães), e se junta a um grupo de seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva) que promete o fim do sofrimento por meio do retorno do catolicismo místico e de rituais. Enquanto isso, o matador de cangaceiros Antônio das Mortes (Maurício do Valle) é contratado para exterminar os seguidores do beato, tudo isso com o sertão como pano de fundo. O casal Manuel e Rosa atravessa uma jornada intensa cheia de reviravoltas, violência e injustiça social pelo caminho.
O filme estreou no Festival de Cannes de 1964, onde competiu pela Palma de Ouro, prêmio de maior prestígio do Festival. Entre os inúmeros prêmios recebidos estão o Prêmio Especial do Júri no Festival de Acapulco em 1966 e o Prêmio Saci de Melhor Produtor para Luiz Augusto Mendes e Melhor Ator Coadjuvante para Maurício do Valle em 1965. Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma obra emblemática do cinema brasileiro e foi escolhida pelo Ministério das Relações Exteriores como representante do Brasil ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 1965, embora não tenha sido indicada na categoria. A obra ainda ocupa o segundo lugar na lista da Abraccine dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Não pode deixar de conferir!
A Hora da Estrela (1985)

Baseado no romance de Clarice Lispector e dirigido por Suzana Amaral, A Hora da Estrela (1985) conta a história breve e triste de Macabéa (Marcélia Cartaxo), uma nordestina de 19 anos, semianalfabeta, sem condições de se sustentar decentemente, órfã de pai, mãe e da tia que a criou. Ela migra para São Paulo em busca de melhores condições e oportunidades. Lá ela se torna datilógrafa e passa a morar em uma pensão com outras três mulheres.
Macabéa nunca teve grandes emoções na vida e é indiferente a elas. Conhece então Olímpico de Jesus (José Dumont), um operário metalúrgico, e os dois começam a namorar. Porém a relação não avança: Olímpico acaba trocando Macabéa, a quem chama de cabelo na sopa, por Glória (Tamara Taxman), colega de trabalho dela. Glória então recomenda à moça uma cartomante para que se sinta melhor e tenha expectativas mais positivas sobre a vida. A cartomante diz que a sua vida irá mudar: o ex vai querer voltar, ela vai ganhar uma grande fortuna e vai se casar com um gringo lindo que se apaixonará por ela.
O filme foi realizado pela Embrafilme e produzido pela Raiz Produções. Estreou no Festival de Cinema de Brasília em 1985, onde levou quase todos os prêmios, e foi exibido também no Festival de Cinema de Berlim em 1986, onde recebeu inclusive o Urso de Prata de Melhor Atriz para Marcélia Cartaxo, um feito surpreendente para uma produção nacional. O filme é considerado um clássico do cinema brasileiro, abordando injustiças sociais, amores, solidão e invisibilidade social.
Olga (2004)

Um drama histórico maravilhoso e digno de apreciação! Jayme Monjardim dirigiu em 2004 o filme Olga, um dos filmes brasileiros mais impactantes e à altura de produções internacionais. Acompanhando a ativista Olga Benário (Camila Morgado) até o seu fim trágico nas câmaras de gás nazistas, o longa dá o peso necessário a uma das histórias mais emblemáticas da Segunda Guerra Mundial. Inspirado na biografia escrita por Fernando Morais sobre a ativista alemã, judia e comunista, o filme retrata a trajetória de dor, luta e revolta de Olga entre guerras e revoluções: deportada pelo Governo Vargas para a Alemanha nazista, ela tem sua filha, Anita Leocádia, na prisão feminina de um campo de concentração e, afastada da menina, é enviada para uma camâra de gás, onde é morta.
Olga foi um grande sucesso de bilheteria, audacioso, voraz, intenso e capaz de emocionar e revoltar o público. A obra também recebeu vários prêmios no Grande Prêmio Brasileiro de Cinema de 2006.
Carandiru (2003)

Carandiru é a adaptação cinematográfica do livro Estação Carandiru, escrito por Drauzio Varella, e é um grande marco do cinema brasileiro. A obra acompanha um médico que atua na prevenção do vírus HIV na famosa penitenciária e conta ainda histórias de detentos do presídio que foi a maior prisão da América Latina.
A narrativa culmina no massacre de 1992 ocorrido no local, em que 111 prisioneiros foram mortos, 102 deles pela polícia. O próprio presídio foi usado como locação das filmagens antes de ser demolido em 2002.
Dirigido por Héctor Babenco, que chegou a afirmar que Carandiru foi o filme mais realista que já fez, o longa é cru, descomedido e cruel. Com influência no Cinema Novo, retrata a realidade dura dos presídios brasileiros, usando inclusive prisioneiros reais em algumas cenas. Em novembro de 2015, o filme entrou na lista da Abraccine dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
A obra aborda a trajetória dos detentos, suas histórias, dores, amizades e violência, além da superlotação das cadeias e da precariedade dos serviços no local. As condições inumanas que os presidiários são submetidos dão um choque de realidade em qualquer um que assiste.
Ilha das Flores (1989)

O curta-metragem começa com um tomate sendo plantado, em um tom anacrônico, simples e talvez até quase bizarro, mas quem permanece assistindo encontra uma realidade do dia a dia de todos os brasileiros: o alimento é transportado, levado a um supermercado, mas estraga e é descartado no lixo.
O alimento estragado vai para um aterro sanitário chamado Ilha das Flores, título da obra, onde apodrece e não serve nem para os porcos. Esse alimento então é dado para mulheres e crianças pobres comerem. Com linguagem ácida e quase científica, o curta mostra um retrato cruel e pesado da desigualdade social, em que pessoas pobres são tratadas como lixo e descarte humano. O próprio roteirista e diretor do curta, Jorge Furtado, já afirmou que o texto do filme é inspirado em suas leituras de Kurt Vonnegut e nos filmes de Alain Resnais.
Em maio de 2019, o filme foi eleito pela Abraccine como o melhor curta-metragem brasileiro da história. Vale a pena conferir!
Terra para Rose (1987)

O filme retrata a ocupação de uma terra no Rio Grande do Sul, ação realizada pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Narrado pela atriz e ativista Lucélia Santos, Terra para Rose expõe a desigualdade no campo brasileiro. Após a eleição de Tancredo Neves e a posse de José Sarney, o Brasil sonhava com a redemocratização e com um novo tempo de esperanças. O governo federal anunciou medidas voltadas à redistribuição de terras, e o então ministro Nelson Rodrigues estimou que seriam necessários dez anos para acabar com os latifúndios no país. O filme apresenta a luta pela reforma agrária brasileira e a participação de diversas mulheres no conflito da Fazenda Annoni, ocupada por 1500 famílias no Rio Grande do Sul. A figura central é Rose, que luta para dar uma vida digna ao filho pequeno.
Xica da Silva (1976)

Cacá Diegues dirigiu o longa que narra a trajetória de uma mulher escravizada, a emblemática Xica da Silva (Zezé Motta), figura histórica e real que viveu na segunda metade do século XVII e conquistou poder, força e influência durante o período colonial brasileiro. Ela passou a promover festas de luxo e se tornou a dama da sociedade de Diamantina, com exibições de grupos de teatro europeus e banquetes, uma ostentação que fez com que sua fama chegasse até a corte portuguesa. O filme trata-se de uma adaptação do livro homônimo de João Felício dos Santos, de 1976. Mais tarde, a história também seria adaptada para a TV como uma novela de bastante sucesso, protagonizada por Taís Araújo na Rede Manchete.
O que é isso companheiro (1997)

Dirigido por Bruno Barreto, com roteiro parcialmente baseado no livro de Fernando Gabeira de mesmo nome de 1979, o longa concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998. O enredo, que conta com diversas licenças ficcionais, retrata a história real do sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, ocorrido em 1969 por integrantes dos grupos guerrilheiros de esquerda MR-8 e a Ação Libertadora Nacional, que lutavam contra o regime militar instaurado no país em 1964. É um retrato poético e ficcional de uma época de luta e reconstrução brasileira, um resgate de um período histórico marcante, com um elenco de peso que reúne nomes como Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Selton Mello, Fernanda Montenegro e Cláudia Abreu – o elenco já vale o filme, viu. Imperdível!
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Texto revisado por Alexia Friedmann










