O escritor e influenciador Matheus Rocha conversa sobre amadurecimento, saúde mental, redes sociais e os desafios que inspiraram Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, seu novo livro
Natural da Bahia, hoje o escritor Matheus Rocha vive em São Paulo e se divide entre a carreira na internet e na literatura. Em junho, publicou pela editora Intrínseca o livro Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, no qual versa de forma acolhedora sobre o amadurecimento. Para isso, ele se utiliza da própria experiência e das reflexões que cada percalço da vida adulta pode trazer. Desse modo, a obra propõe-se a construir um diálogo com o leitor que possa estar passando por situações semelhantes.
Não é preciso dizer que não é simples tornar-se adulto. Desafios no aspecto financeiro, pessoal e profissional estão sempre à espreita. Pensando nisso, Rocha reflete sobre tais problemas e revela como tenta resolvê-los. Um exemplo é quando ele oferece dicas de planejamento com base na sua mudança da Bahia para São Paulo. O autor também comenta sobre a importância do acompanhamento psicológico em sua vida, discorrendo sobre a construção de um espaço seguro para lidar com as próprias emoções.
“Não sabemos o que é ser adulto e talvez nunca descubramos. O mais importante é seguirmos o nosso ritmo, sem definir marcos temporais rígidos”, reflete o escritor. Segundo Matheus, o objetivo do livro é justamente esse: mostrar que não existe uma idade certa para nada e que está tudo bem seguir o seu próprio ritmo.
Em Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, o leitor é convidado a pensar sobre a sua relação com o trabalho, a família e os amigos. Além disso, a obra fala sobre como, muitas vezes, é preciso aceitar as mudanças inevitáveis ao longo da vida. Nesta entrevista ao Entretetizei, Matheus Rocha comenta sobre as suas maiores inspirações, processos de escrita e como enxerga a ideia de ser adulto. Confira:

Entretetizei: Você já trabalha há anos com internet e literatura. No entanto, o propósito do novo livro é justamente falar sobre não saber ser adulto. Em que momento caiu a ficha de que você também era uma pessoa que ainda estava aprendendo, mesmo sendo uma referência para o público?
Matheus Rocha: Venho percebendo isso principalmente desde que saí da casa da minha mãe para morar sozinho em São Paulo, o que já faz mais de dez anos. Só que acho que, depois da pandemia, as coisas ficaram muito mais sérias e urgentes. O senso de urgência mudou porque estávamos lidando com momentos de vida ou morte. Minha mãe morava em outro estado sozinha, eu morava aqui sozinho, tive Covid e estava sozinho após fazer uma mudança. Fui sentindo que estava um pouco perdido no início da vida adulta, mesmo tendo 25 ou 26 anos na época.
Fui entendendo e elaborando isso na terapia, conversando com os meus amigos. Chegou uma hora em que eu olhava para as pessoas da minha faixa etária e sentia: “Todo mundo está encenando uma coisa aqui”. Eu via os meus amigos indo para um emprego novo e perguntava: “Mas você sabe fazer isso 100%?”. Eles respondiam: “Sei o básico, o resto vou aprender no dia a dia”. Era a mesma coisa que os professores falavam na faculdade, eles diziam: “Olha, aqui explicamos a teoria, mas na prática vai ser diferente”.
Fui percebendo que todas essas experiências vão nos formando como adultos, mas nada dá uma chancela definitiva de “sou adulto”, nada nos forma totalmente para isso. Junto com a crise dos 30 anos – que eu achava que era um mito, mas aparentemente é muito real –, caiu a ficha de que ninguém me ensinou a ser adulto. O que é ser adulto hoje não é o mesmo que na época da minha mãe ou dos meus avós, cuja realidade era outra. Meus avós, na minha idade, já tinham uma família enorme e casa própria. Eu consegui conquistar minha casa própria, mas estou muito longe de pensar em formar uma família. Fui sentindo ao longo da vida que nada me preparou para este momento em que estou agora.
E: Você falou algo interessante sobre esse embate entre gerações, mostrando que ser adulto na época da sua mãe e dos seus avós não é a mesma coisa que ser adulto hoje. Quando você estava escrevendo o livro, chegou a pensar sobre essa questão do que é ser adulto de verdade?
MR: No livro, deixo mais um questionamento para pensarmos juntos sobre o que é, de fato, ser adulto. Ser adulto para mim é uma coisa, para minha mãe é outra, e para você é outra. Isso depende da realidade social, do recorte social, das oportunidades que as pessoas tiveram ao longo da vida e das responsabilidades que assumiram. Acredito que ser adulto vai por um caminho diferente para cada pessoa, mas algo comum a todos os adultos é ser funcional. Por exemplo, conseguir, diante das próprias limitações – que obviamente devemos considerar –, organizar-se minimamente de alguma forma.
Eu não fecho essa definição no livro porque sei que as pessoas têm realidades diferentes. Estou mostrando a minha realidade para servir como ponto de partida para conversarmos, e não como um exemplo a ser seguido. Não acredito que devamos seguir o exemplo de ninguém. Cada um tem um caminho muito recortado e individualizado diante de suas próprias experiências e possibilidades. Para minha mãe, na minha idade, ela já tinha um filho de mais de um ano. Hoje, na minha idade, não penso em ter filhos. Ser adulto para ela, naquele momento, era cuidar do filho dela; para mim, hoje, é pagar o parcelamento do meu apartamento. Ser adulto caminha por aí: cada um assumindo suas responsabilidades diante da sua realidade.
E: Você falou bastante sobre o diálogo entre você e o seu público. Você sente uma responsabilidade com esse lugar de ser um porto seguro para as pessoas, onde elas entram buscando se sentir melhor?
MR: Já senti essa responsabilidade, mas hoje não sinto mais, porque pautei os meus livros para que as pessoas sintam que estão conversando com um amigo. É um diálogo de amigo. Ao ler os textos, você percebe que é como se eu estivesse fofocando sobre a minha vida com quem está lendo. Fica muito gostoso de ler porque dá a sensação de estar conhecendo alguém.
Imagino que ler o meu livro é como ter um date, porque você não sabe muito sobre a pessoa, está curioso e tem interesse. A pessoa vai se apresentando e você vai se identificando: “Gosto disso nela”, “Me pareço com ela nisso”, “Discordo disso aqui”, “Concordo muito com isso”, “Nossa, também já passei por isso”. Por isso, não sinto essa responsabilidade, porque quando estamos em um date ou conversando com um amigo, não pedimos uma solução; estamos desabafando, conversando e trocando ideias.
Não sinto esse peso, e há coisas muito legais acontecendo com o feedback após o lançamento. Há dois momentos especiais: leitores dizendo que levaram o livro para a terapia e psicólogas entrando em contato para dizer que estão indicando o livro para os pacientes ou usando-o nas consultas. É muito legal ver que o livro, depois de lançado, caminha por vários lugares. Nunca imaginei psicólogas indicando meu livro para os pacientes, e não há chancela maior ou melhor de que alcancei meu objetivo.
E: Falando sobre saúde mental, qual você acha que é o papel da literatura em ajudar as pessoas a superar algum tipo de problema ou trauma?
MR: Recebi um depoimento nos stories de uma amiga muito especial, a MC Luanna, que escreve letras incríveis e é rapper. Ela me contou que começou a ler os meus livros quando não tinha dinheiro para pagar a terapia, e que de alguma forma eu a acolhi em seus momentos de ansiedade. Apesar de não trazer uma proposta terapêutica, acho que a literatura atua muito no lugar do conforto, abraçando as pessoas e mostrando que elas não estão sozinhas.
Não tenho formação em psicologia, não sou psicólogo nem psicoterapeuta; sou jornalista, escritor e influenciador. Mas, ao trazer minhas vivências sobre saúde mental, especialmente sobre ansiedade – e neste livro também trago um pouco sobre depressão –, sinto que as pessoas olham e pensam: “Poxa, eu não sou um ET”. Elas percebem que não estão sozinhas no mundo e que não são as únicas a passar por isso.
Perceber que a sua dor também é sentida por outras pessoas gera um acolhimento, pois tira a individualidade e a culpa do processo. Você vê que outras pessoas, que talvez considerasse ter uma vida perfeita, também passam por isso. A literatura vem para somar com a terapia, a psiquiatria, a medicina tradicional e as alternativas. A literatura também é uma forma de terapia porque entretém, relaxa e propõe reflexões.
E: Quando você está escrevendo, você já imagina como o público vai receber o livro?
MR: O jeito que o público vai receber influencia zero [na minha escrita]. Vou te contar como escrevo: eu só escrevo no meu quarto, no escuro, ouvindo música em um idioma que eu não entenda direito, porque é o lugar onde sinto que posso ser mais vulnerável no mundo. Trago para os meus livros uma sensação de diário com cadeado, onde sou o mais honesto e verdadeiro possível. É como se fizesse um pacto com o leitor: nós ouvimos, mas não julgamos. Estou ali contando minhas experiências mais íntimas; quem me segue há mais tempo consegue identificar de quem estou falando, e em outros casos eu nomeio as pessoas. É uma experiência 100% voltada para a minha verdade e para as minhas experiências, que, se eu der sorte, se tornará coletiva e o leitor se identificará.
Não há como fazer uma literatura verdadeira pensando na ponta final, em quem vai ler o livro. Se eu quiser apenas agradar o leitor, talvez acabe desagradando, porque não sei de fato o que você quer saber sobre mim ou o que espera ler sobre o assunto. Só tenho como contar a minha versão dos fatos. Se a pessoa se identificar, fico feliz; se não, talvez o livro não seja para ela, e tudo bem. Não significa que o livro seja ruim, apenas que não funciona para aquela pessoa por diversos motivos: às vezes preferem um romance hot, um mistério, uma fantasia ou poemas. Não há juízo de valor nisso.
Escrevo sobre sentimentos, e ninguém pode desvalidar o que eu senti. Sou muito egoísta nesse processo, não penso no leitor. Se eu pensasse, teria de pesquisar o que as pessoas normalmente passam para ser adultas, e deixaria de ser eu falando. Passaria a ser um dado, uma tese ou algo muito fundamentado, o que não é a proposta do livro.
E: Você sente que a sua escrita mudou desde os seus primeiros livros até o atual?
MR: Sinto que mudou porque eu mudei. Minha escrita é o reflexo do meu tempo atual, e cada livro reflete o Matheus do momento em que foi escrito. Se você pegar o meu primeiro livro, No Meio do Caminho Tinha um Amor, encontrará uma versão extremamente romantizada do amor, porque naquele momento eu estava vivendo o meu primeiro amor. Tudo era mágico, sublime e doce. Depois esse relacionamento acabou, vi que não era bem assim, tive outros relacionamentos, conheci outras pessoas e mudei de cidade. Minha cultura se misturou com a da nova cidade, os lugares que eu frequentava mudaram e a forma de me relacionar com o espaço também se transformou.
Tento trazer uma escrita sempre do meu tempo atual. Busco manter a sensação de que o texto não envelhece – de modo que, se você ler daqui a dez anos, ele ainda te abrace de alguma forma –, mas me preocupo muito em ser fiel a quem sou hoje. É a coisa mais honesta que podemos fazer: não encenar um personagem e ser nós mesmos.
E: Você tem alguma referência literária, de autor ou tipo de texto que influencie o seu jeito de escrever?
MR: Tenho três principais: Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, que são brasileiros e sou completamente apaixonado por suas obras. Tenho quase todas. Em uma época da minha vida, parecia que o Caio Fernando Abreu era meu amigo e sabia exatamente o que eu estava passando, e a Clarice Lispector me dava puxões de orelha terríveis, como se fosse minha terapeuta. Depois, conheci as obras do John Green. Hoje estou na mesma editora que o John Green, o que faz minha cabeça explodir.
Tenho os três como referência porque cada um me toca em um lugar diferente. O Caio também se relacionava com homens; a Clarice tinha a questão da sinestesia – que eu amo –, trabalhando com sentimentos, sensações, palavras e o que elas provocam; e o John Green traz a perspectiva de olhar para o mundo de forma fantasiosa, já que escreve ficção.
E: Vivemos em um mundo onde a rede social está em todo lugar. Você acha que o consumo das redes sociais atrapalha ou ajuda o jeito como as pessoas leem e consomem textos, e de que forma isso impacta o seu trabalho como escritor?
MR: As redes sociais trouxeram um impacto muito forte para o consumo de livros de modo geral. Acredito que não apenas as redes sociais individualmente, mas também o período da pandemia influenciou nisso. O tempo em que ficamos trancados em casa tentando nos reinventar todos os dias para que as rotinas não fossem iguais, somado às redes sociais com conteúdos cada vez mais curtos e rápidos para digerir – onde você consome algo já mastigado e segue o feed –, afetou o modo de ler.
Isso influenciou totalmente a minha escrita. Nos primeiros livros, uma crônica minha tinha seis páginas; hoje, tem duas ou três, no máximo. Eu me antecipei a esse processo porque sou um escritor de frases, gosto de escrevê-las. Neste novo livro, você encontrará três elementos: uma conversa direta, onde discurso sobre o assunto; uma crônica que ilustra o tema; e uma frase que abraça tudo. Penso em formatos mais sedutores para os leitores, pois sei que às vezes as pessoas querem a sensação de estar lendo um livro sem necessariamente lê-lo de fato.
Infelizmente é triste, mas precisamos encarar os dados do nosso país, que não é um grande consumidor de livros. Algumas pesquisas apontam que o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano. A partir disso, recorremos a outros elementos, como diagramações, capas e títulos mais chamativos.
As redes sociais e a pandemia impactam, mas nós, como escritores e leitores, vamos nos articulando, porque a literatura é e sempre será imortal. Novos clássicos nascem todos os dias, além dos tradicionais que já conhecemos, como Cinco Minutos, de José de Alencar, pelo qual sou apaixonado. O objetivo continua o mesmo. A forma de acessar as pessoas mudou um pouco, mas quem é apaixonado por livros continua apaixonado. Existem mil formas de se entreter, cada uma com sua particularidade, mas o livro é único: é você e ele. Mesmo que haja uma tela, como no Kindle, computador ou iPad, é uma experiência quase offline de ter um canal direto com o autor. Infelizmente impacta, mas, graças a Deus, ainda estamos aqui.
E: Você faz algo para tentar manter uma leitura mais atenta e menos acelerada, tanto como leitor quanto como escritor?
MR: Costumo dizer que o meu livro pode ser lido em uma tarde ou em um mês. Como ele é dividido em capítulos e cada capítulo desdobra vários temas, o leitor pode escolher ler um por dia. Se a leitura prender, lê dois ou três. Há pessoas que me disseram ter lido o livro em duas horas, em uma tarde, enquanto outras dizem que estão gostando tanto que só se permitem ler duas páginas por dia para não acabar logo.
As técnicas não são rebuscadas. O segredo é ter uma escrita fluida, sem palavras excessivamente complexas ou que floreiem algo que poderia ser dito em duas palavras. Admiro muito a literatura clássica, mas acredito que o que afasta os jovens hoje é uma escrita que já não é atual para os tempos modernos. Trazer um clássico como Graciliano Ramos ou José de Alencar para os dias de hoje faria com que deixassem de ser eles mesmos.
Respeito muito os clássicos, mas me coloco no lugar de um escritor do meu tempo: o escritor que começou no Tumblr, passou para o blog, chegou aos livros e se mantém nas redes sociais. Sigo a fluidez da minha geração, que conversa tanto com os meus contemporâneos quanto com outras faixas etárias. Tenho relatos de pessoas de 60 ou 70 anos lendo o meu livro e dizendo que também não sabem o que é ser adultas. Acho isso incrível, pois abrange desde quem está começando a vida adulta até pessoas que imaginávamos que já sabiam de tudo. O reflexo disso é ter uma linguagem muito acessível; esse é o meu principal artifício.
E: Se você quisesse que uma mensagem essencial ficasse ecoando na cabeça do leitor após terminar a leitura, qual seria?
MR: Que está tudo bem. Está tudo bem não saber o que é ser adulto e ir no seu próprio tempo. A mensagem principal do livro é essa: não sabemos o que é ser adulto e talvez nunca descubramos. O mais importante é seguirmos o nosso ritmo, sem definir marcos temporais rígidos. Se você já se sente adulto, você é adulto. Se ainda se sente um adolescente aos 30 anos, sinta-se um adolescente.
Devemos fugir dessas definições rígidas, pois a sociedade ainda é muito etarista ao ditar que aos 18 anos você deixa de ser adolescente e aos 30 precisa ser um adulto perfeito. Isso limita os nossos sonhos e gera a sensação de que não temos mais idade para certas coisas. Quero que o meu leitor termine o livro sabendo que tem idade para ser o que quiser e que está vivendo no seu próprio tempo. Se eu conseguir passar essa mensagem e tranquilizar os corações, mostrando que está tudo bem se for daqui a dez anos ou se já foi, meu objetivo estará cumprido. Gosto de deixar as pessoas confortáveis para serem quem são, porque é isso que busco para a minha vida e espero passar nos meus livros.
E você, já conhecia os livros de Matheus Rocha? Conta para a gente em nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê para conversar sobre leituras incríveis!
Texto revisado por Alexia Friedmann









